LEITURA - O ritmo de uma época
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A indústria do livro é um tipo de indústria como qualquer outra. As empresas sempre estão de olho nas oportunidades de mercado, nas possibilidades de vendas. A Editora José Olympio, quando soube que o filme ''O Curioso Caso de Benjamin Button'' estava indicado para o Oscar, não perdeu tempo e colocou nas livrarias uma nova edição de ''Seis Contos da Era do Jazz e Outras Histórias'', obra de Scott Fitzgerald que deu origem ao filme.
''O Curioso Caso de Benjamin Button'', filme de David Fincher estrelado por Brad Pitt e Cate Blanchett que concorre na cerimônia de hoje a 13 estatuetas, resgatou das teias de aranha um escritor que estava completamente fora de moda. Dentro da história da literatura norte-americana, Francis Scott Key Fitzgerald (1896 - 1940) possui cadeira cativa. Fez parte da geração de autores que abriram novas perspectivas literárias nas primeiras décadas do século 20 e receberam o rótulo de ''geração perdida''.
''O Curioso Caso de Benjamin Button'' é apenas um pequeno conto que integra ''Seis Contos da Era do Jazz''. Ao lado dos outros dez textos, pode ser considerado uma espécie de ''óvni'' dentro do volume. As histórias de Fitzgerald retratam a transição comportamental da juventude americana logo após o fim da Primeira Guerra Mundial. Publicado originalmente em 1922, a obra focalizava sua época praticamente em tempo real.
Scott Fitzgerald publicou seu primeiro livro, ''Este Lado do Paraíso'', com 24 anos, em 1920. Em poucas semanas tornou-se uma celebridade. O romance realizava um retrato dos estudantes universitário em plena ascensão da modernização do país e alterações comportamentais. Os jovens se identificaram diretamente com aquela literatura que retratava um novo presente e Fitzgerald foi acolhido como o porta-voz de sua geração.
As narrativas de ''Seis Contos da Era do Jazz'' seguem esse mesmo caminho. Os personagens são jovens que estão próximos do casamento ou recém-casados. Vivem entra as tradições de seus pais e as novidades da modernidade. Desejam a felicidade afetiva, mas igualmente desejam maços de dinheiro para o prazer material. Estão dispostos a cair de boca na farra, mas também estão mentalmente atrelados a valores conservadores da geração anterior. Nesse shopping de contradições, Fitzgerald insere doses de humor que transformam os dramas em ironia.
Ao longo de 44 anos de existência, Scott Fitzgerald criou uma obra irregular e muita coisa inacabada. Clássicos como ''O Grande Gatsby'' e ''Suave é a Noite'' foram acompanhados e um punhado de textos insípidos. A vida completamente maluca que o escritor levou pode explicar alguma coisa nesse sentido. E falar de Scott é o mesmo que falar de Zelda Fitzgerald, sua esposa. Juntos, formaram um dos casais mais bombásticos da época. Os dois viviam, torrando dinheiro, correndo o mundo pautados pelo prazer exuberante, diversão, festas glamour. Até o dia em que os dedos da tragédia bateram na porta e entrou.
Comparar o conto ''O Estranho Caso de Benjamin Button'' de Fitzgerald com versão cinematográfica de David Fincher é perder tempo. Cada qual segue caminho próprio e as semelhanças estão apenas no enredo básico da história. Independente do filme, hoje a noite, colocar ou não a mão em alguma estatueta, algumas teias de aranha foram afastadas das gravatinhas fora de moda de F. Scott Fitzgerald.
SERVIÇO
- Seis Contos da Era do Jazz e Outras Histórias
Autor - F. Scott Fitzgerald
Editora - José Olympio
Tradução - Brenno Silveira
Páginas - 280
Quanto - R$ 35


