Nos últimos anos, algumas biografias de personalidades brasileiras deixaram as livrarias para frequentarem o banco dos réus. Pularam das mãos dos leitores para as luvas da justiça. Vítimas de processos variados, alguns livros viveram momentos de comercialização proibida em várias situações.
Ruy Castro e Fernando Morais são os autores mais conhecidos com biografias ''caçadas'' nos últimos anos. O caso mais recente está nas costas do historiador e jornalista carioca Paulo Cesar de Araújo, autor de ''Roberto Carlos em Detalhes'', a primeira biografia publicada sobre o cantor e compositor Roberto Carlos.
''Roberto Carlos em Detalhes'' foi lançado pela Editora Planeta no início de dezembro do ano passado. Alegando tratar-se de uma biografia não autorizada, os advogados do ''rei'' entraram com processo e, em janeiro, o juiz que julgou a causa determinou a proibição do livro com sua retirada das livrarias. Logo em seguida outro juiz liberou a comercialização atendendo os argumento dos advogados da editora. Na semana passada, um outro juiz determinou novamente a retirada da obras das livrarias, proibindo sua comercialização. Ou seja, uma novela que não deve se encerrada em pouco tempo entre um longo e constante ''prende'' e ''solta''.
O fato é que a biografia, em três meses, vendeu mais de 30 mil exemplares. Foi admirada por um amplo leque de leitores. Foi elogiada em quase todas críticas e resenhas publicadas em jornais e revistas. Em outras palavras, Roberto Carlos ressurgiu das cinzas. Paulo Cesar de Araújo coloca o cantor no eterno pedestal de rei, um fenômeno de massa único na música popular brasileira, um artista extremamente humano e profundamente sentimental.
Então surge a pergunta: por que Roberto Carlos deseja proibir uma biografia que enaltece sua vida e sua obra? Em entrevista recente, o cantor alegou que, mesmo tendo lido apenas partes do livro, considera a obra ''sensacionalista''. Mas uma outra informação, contrariando esse argumento, apareceu nos últimos dias: Roberto Carlos estaria escrevendo sua autobiografia. Assim, a publicação de ''Roberto Carlos em Detalhes'' poderia retirar o sentido de novidade da obra, além gerar um ponto de vista diferente da visão oficial. Em outras palavras, o cantor teria o interesse que apenas sua versão dos fatos perpetuasse.
O que fica evidente, para qualquer leitor, é que ''Roberto Carlos em Detalhes'' está longe de ser sensacionalista. Um exemplo disso está na abordagem de um assunto que o compositor apagou de sua existência e se transformou numa espécie de tabu: a amputação de um de seus pés na infância após uma acidente ferroviário. Paulo Cesar de Araújo descreve o fato, de maneira sucinta, logo nas primeiras páginas e não volta mais ao assunto no decorrer das 450 páginas restantes.
Claro que a obra está repleta de fatos curiosos. Coisas como o filho que o cantor teve com uma fã e reconheceu a paternidade quando o garoto estava com 20 anos. Coisas como a canção que compôs, e nunca gravou, em parceria com Erasmo Carlos louvando a maconha. Coisas como o motivo que levou Roberto Carlos a atrasar um show em Londrina na década de 70: uma libélula de asa quebrada (leia matéria nesta página).
Curiosidades como essas são relatadas dentro de um contexto maior. Paulo Cesar de Araújo não se envolveu durante vinte anos no trabalho da biografia, entrevistando mais e 200 pessoas e caçando todo tipo de entrevista concedida por Roberto Carlos apenas para escrever uma obra ''sensacionalista''. Seu maior interesse está em retratar a trajetória musical e o papel que possui dentro da história da música popular brasileira. De certa maneira dá prosseguimento à uma abordagem desenvolvida em seu livro anterior, ''Eu Não Sou Cachorro Não: Música Popular Cafona e Ditadura Militar'' (Editora Record, 2002), onde procura mostrar como a música popular de massa foi desprezada, ao longo dos anos, por jornalistas e historiadores como uma realidade cultural do país.

  Ele conta que, indo para Londrina fazer um show, ia entrando no avião pela pista quando olhou no chão e viu uma libelulazinha com a asa quebrada... ‘‘Eu falei: Caramba, alguém vai passar aqui, pisar e matar essa libélula. Aí eu pedi pro Fernando Rocha me ajudar a pegar a libélula e levar a libélula para o avião. Eu ia para Londrina. Botei a libélula dentro de um saquinho plástico fornecido pelo avião, sempre com a boca aberta para a libélula respirar.’’ E Roberto ia pensando: ‘‘O que é que eu vou fazer com essa libélula? Chegando a Londrina, mando comprar um papel celofane, arrumo uma gilete e cola. Vou ser se consigo construir uma asa para essa libelulazinha. E eu fiquei a tarde inteira, rapaz, construindo várias asas. Mas quando botava não funcionava, era muito pesado para ela voar. E não consegui e fiquei muito chateado, triste e acabei chegando atrasado no show’’.
(Fragmento de ‘‘Roberto Carlos em Detalhes’’, de Paulo Cesar Araújo)


Serviço:
- Livro ''Roberto Carlos em Detalhes'', de Paulo Cesar de Araújo, Editora Planeta, 504 páginas, R$ 59,90.

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