LEITURA - O rebelde dos gramados
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de novembro de 2012
Marcos Losnak<BR>Especial para a Folha2 
Aquilo que não é narrado é tão importante quanto aquilo que é narrado. Essa é a bolha de cristal da literatura, um de seus componentes mais discreto. O que não é dito é tão determinante quanto aquilo que é dito. Seja na prosa ou na poesia.
Em seu novo livro, "Páginas Sem Glória", o escritor carioca Sérgio SantAnna leva esse componente ao pé da letra e substitui a história narrada por comentários de leitura. No conto "Entre as Linhas" o autor subverte a ordem narrativa para apontar para aquilo que não está escrito.
Trata-se da história de um aspirante a escritor que envia os originais de sua obra para uma amiga. Seu o objetivo é que ela dê sua opinião sobre o texto ficcional, que faça comentários enquanto leitora. Mas na narrativa de Sérgio SantAnna não aparece o texto em questão, apenas os comentário orais da leitora-personagem.
Assim, o leitor real tem acesso ao texto somente a partir da visão da leitora ficcional. Esse é o jogo proposto. O texto principal não é pronunciado, não é dito, apenas é revelado a visão particular de um leitor-personagem fictício. O leitor real chega à narrativa repleta de brancos através de terceiros.
"Entre as Linhas" é o texto mais curto de "Páginas Sem Glória" e o que mais representa as características da literatura de Sérgio SantAnna, pautada por experimentações de formas narrativas. Os outros textos do volume, o conto "O Milagre de Jesus" e a novela "Páginas Sem Glória", que dá título ao livro, não trabalham com experimentações, apenas com a arte de narrar uma história.
"O Milagre de Jesus" traz um morador de rua que certo dia entra numa igreja para descolar algumas moedas. Inesperadamente, uma mulher o confunde, pela aparência física, com o próprio Jesus Cristo. Em busca de uma orientação, abre seu coração e seus pecados, coloca às claras todos seus problemas e dramas. O morador de rua, impressionado com a fé e a situação, resolve embarcar na viagem.
Vítima de um estupro, a mulher vive a dúvida de abortar o feto que traz no útero ou não. O sujeito, vivendo a transição de mendigo à categoria de Deus, coloca em prática todo conhecimento disponível para orientar a desesperada religiosa. Movimentando-se entre o trágico e o cômico, o homem consegue salvar uma alma do inferno e trazer a mulher de volta à vida. A ironia da história está no fato de, ao aceitar uma esmola pelo milagre, deus volta a ser mendigo.
A novela "Páginas Sem Glória" desenha uma crônica do futebol carioca da década de 50. Traz a história do jogador Conde, em sua curta e meteórica fama nos gramados da cidade do Rio de Janeiro. Descoberto jogando bola na praia, Conde provém da classe alta, filho de um rico deputado paulista. Contratado como revelação pelo Fluminense, o jogador não se encaixava nem no âmbito social do futebol, nem em suas condutas esportivas. Típico anti-herói do futebol, o personagem é um grande achado de Sérgio SantAnna.
FRAGMENTO
A cobrança foi uma obra-prima. O Conde tomou três passos de distância, para não dar tempo do goleiro seguir seu raciocínio, ou, pelo menos, para simular isso. (...) Só que Conde chutou com a face externa do pé esquerdo, quase com o tornozelo, com tanto efeito que deu para ver as rotações e translações simultânea da esfera rodando devagarinho para o canto direito, onde estava o goleiro, se o Conde não o tivesse feito mudar de ideia na última hora.
Foi uma obra-prima, pois existe algo rígido, morto, na perfeição. Nunca se viu pênalti tão devagar, com o goleiro se esparramando ridiculamente no seu canto esquerdo, e a bola vindo de mansinho, quase parando, no outro canto, batendo caprichosamente na trave e permanecendo em suas imediações, até que veio um zagueiro do Olaria e despachou-a para a lateral.
(Fragmento da novela "Páginas Sem Glória" de Sérgio SantAnna)
SERVIÇO
* "Páginas Sem Glória"
Autor Sérgio SantAnna
Editora Companhia das Letras
Páginas 184
Quanto R$ 29,50


