LEITURA - O rebelde de bengala
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de abril de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Em outubro de 1968, Marcel Duchamp estava conversando com amigos na sala de sua casa quando pediu licença para ir ao banheiro. Após quase uma hora de espera, os convidados resolveram conferir se alguma coisa tinha acontecido com o dono da casa.
Encontraram Duchamp morto. Caído no banheiro, com as calças arriadas e um sorriso nos lábios. Tinha 81 anos de idade. Havia deixado registrado que desejava ser enterrado num jazigo simples, com apenas uma lápide de mármore. O mais importante era o epitáfio que deveria ser gravado na lápide: ''Aliás, são sempre os outros que morrem''. Esse irônico epitáfio pode ser considerado a última ''obra'' de Duchamp, uma das figuras mais emblemáticas da arte do século 20. Criador dos lendários ''readymade'', colocou de pernas para o ar os conceitos de obra de arte e desmitificou a própria idéia de arte.
Sua história é resgatada com detalhes em ''Duchamp Uma Biografia'', primeira biografia do artista publicada Brasil. Escrita pelo jornalista norte-americano Calvin Tomkins, a obra oferece um painel abrangente e detalhado de sua vida e obra.
O livro revela um sujeito ''careta'' que produziu ''loucuras'' no mundo das artes. Nascido na França em 1887, iniciou a carreira pintando paisagens. Em seguida passou a criar telas com elementos cubistas para, logo em seguida, radicalizar e desenvolver uma linguagem própria. Em pouco tempo abandonaria os pincéis de para o resto da vida.
Começou a criar ''readymades'' em 1912. Algumas das peças eram objetos deslocados de seu contexto habitual e apresentados como obra de arte em sala de exposições. Outras peças, numa etapa posterior, eram objetos criados através da junção de vários objetos criando uma imagem em que a idéia era a própria obra.
Curiosamente, os ''readymades'' mais famosos como ''Roda de Bicicleta'' (1913), ''Porta Garrafas'' (1914), ''Fonte'' (1917) e ''L.H.O.O.Q.'' (1919) foram parar literalmente no lixo. Hoje seriam vendidos por milhões de dólares. Apenas fotografias foram preservadas. Calvin Tomkins revela que Duchamp, nas últimas décadas de vida, autorizou a confecção de várias cópias de ''readymade'' para comercialização. O único objetivo era aumentar sua conta bancária.
A vida de Duchamp foi repleta de amores esporádicos. Entre eles estava a brasileira Maria Martins. Esposa de um diplomata brasileiro a serviço do Itamaraty, foi uma de suas paixões. Mantiveram um relacionamento aparentemente secreto, mas Maria optou por não deixar marido e filhos para oficializar sua relação com o artista.
Na verdade, como revela a biografia, Marcel Duchamp era um solteirão inveterado. Suas relações duravam pouco tempo e quando finalmente resolveu se casar, com 40 anos de idade, com a filha de um milionário, a união durou apenas seis meses. A escolhida era considerada a mulher mais feia da turma, fato que Duchamp resolveu com a famosa frase: ''as mulheres feias fazem sexo melhor que as bonitas''.
Duchamp sonhava em deixar a arte para se dedicar apenas ao xadrez, esporte que amava. Seu grande sonho era tornar-se jogador profissional, participar de campeonatos internacionais. O fato é que depois dos 40 anos, realizou poucas obras, sua atenção ser voltou ao xadrez e a organização de acervos institucionais de arte moderna.
Toda vez que era indagado sobre os motivos o haviam levado a deixar a criação num plano secundário, falava que procurava algo a dizer com suas obras mas não encontrava. Resumindo, argumentava que ''não tinha mais nada a dizer''. Palavras reveladoras pronunciadas por alguém que havia revolucionado o conceito de arte e criado novos paradigmas para aquilo que conhecemos hoje como arte contemporânea.
Serviço:
- ''Duchamp Uma Bigrafia'', de Calvin Tomkins, Editora Cosac Naify, tradução de Maria Thereza de R. Costa, prefácio de Paulo Venâncio Filho, 588 páginas, R$ 59,00.


