LEITURA - O rebelde das alturas
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de janeiro de 2010
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha 2 
A idéia do enredo é simples. Um garoto, cansado da opressão paterna, resolve abraçar o céu da rebeldia. Enjoado de todo santo dia ser obrigado a tomar sopa de escargot no jantar, certa noite decide recusar o prato diante de toda a família. O pai rapidamente parte para imprimir o merecido castigo no filho desobediente.
Para não levar a fatal e tão dolorida surra, o garoto foge do pai e sobe na árvore mais próxima que encontra no jardim. A raiva do pai e a rebeldia do filho entram num impasse. O filho jura que nunca mais colocará os pés na terra. O pai jura que vai esperar ele descer para aplicar-lhe uma surra exemplar.
Pode até parecer uma história cotidiana e trivial, mas o que acontece em seguida toca o surpreendente. O garoto honra seu juramento e realmente nunca mais, em toda sua vida, pisa no chão. Passa a juventude, a idade adulta e a velhice trepado nas árvores. Desenvolve um enorme leque de soluções para viver de uma nova forma, longe do chão. Bem longe da selvageria da figura de Tarzan, o garoto aposta numa bem bolada sofisticação da civilização.
Criada pelo escritor Italo Calvino (1923 - 1985), esta história é a matriz de O Barão nas Árvores, romance publicado no Brasil em 1991 pela Companhia das Letras e que acaba de ganhar uma nova edição em formato de bolso lançada pela mesma editora. Trata-se de um dos romances mais populares de Italo Calvino ao lado de O Visconde Partido ao Meio e O Cavaleiro Inexistente.
Os três romances compõem a trilogia Nossos Antepassados, idealizada pelo autor na década de 50. Nas palavras de Calvino, seu objetivo com a trilogia era fazer das histórias uma experiência de sua realização como ser humano: Em O Cavaleiro Inexistente, a conquista do ser; em O Visconde Partido ao Meio, a aspiração de uma completude para além das mutilações impostas pela sociedade; em O Barão nas Árvores, um caminho para uma plenitude não individualista a ser alcançada por meio da fidelidade a uma autodeterminação individual: três níveis de aproximação da liberdade.
O personagem principal de O Barão nas Árvores, Cosme Chuvasco de Rondó, o filho primogênito do barão de Rondó, faz de sua revolta infantil uma determinação existencial e social. Com estratégia e obstinação, desenvolve centenas de soluções para viver de árvore em árvore com dignidade. Sem colocar os pés no chão, apesar da escolha pela solidão, consegue viver todas as coisas que as pessoas comuns vivem ao longo de suas vidas.
A opção de Cosme em distanciar-se das relações humanas e da sociedade na narrativa de Calvino encontra uma lógica própria. O óbvio seria Cosme transformar-se num misantropo exemplar, mas o que acontece é exatamente o contrário, ele torna-se um ser humano sociável e dedicado ao bem do próximo, ao bem da sociedade: Mas sabendo sempre que, para estar de fato com os outros, o único caminho era permanecer separado dos outros, impondo teimosamente a si mesmo e aos demais aquela incômoda singularidade e solidão em todas as horas e em todos os momentos de suas vida, assim como é a vocação do poeta, do explorador, do revolucionário.
Um dos mais agradáveis características da literatura de Italo Calvino, o fino bom humor, faz de O Barão nas Árvores um romance pontuado de surpresas. Como afirma o personagem das alturas, aquele que pretende observar bem a terra deve manter a necessária distância.
Serviço
- O Barão nas Árvores
Autor - Italo Calvino
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Nilson Moulin
Quanto - R$ 21 (240 págs.)
- Convido-vos a descer - disse o barão, com voz pacata, quase apagada - a retomar os deveres de vossa condição.
- Não pretendo descer, senhor pai - afirmou Cosme -, e isso me dói.
Ambos estavam sem jeito e aborrecidos. Cada um sabia o que o outro diria.
- E vossos estudos? E as devoções de cristão? interveio o pai. - Pretende crescer como um selvagem?
Cosme calou-se. Eram pensamentos sobre os quais não refletira e não tinha vontade de fazê-lo. A seguir, acrescentou:
- Por estar a alguns metros acima do chão, acredita que ficarei alheio aos bons ensinamentos?
Também esta era uma resposta hábil, mas constituía quase uma redução da amplitude de seu gesto: portanto, sinal de fraqueza.
O pai percebeu isso e se fez mais duro:
- A rebeldia não se mede em metros, disse. - Mesmo quando aparenta ter poucos palmos, a viagem pode não ter retorno.
Cosme já estava cansado de bancar o solene; pôs a língua para fora e gritou:
- Mas de cima das árvores mijo mais longe!
(Fragmento de ''O Barão nas Árvores'' de Italo Calvino)


