A ­idéia do en­re­do é sim­ples. Um ga­ro­to, can­sa­do da opres­são pa­ter­na, re­sol­ve abra­çar o céu da re­bel­dia. En­joa­do de to­do san­to dia ser obri­ga­do a to­mar so­pa de es­car­got no jan­tar, cer­ta noi­te de­ci­de re­cu­sar o pra­to dian­te de to­da a fa­mí­lia. O pai ra­pi­da­men­te par­te pa­ra im­pri­mir o me­re­ci­do cas­ti­go no fi­lho de­so­be­dien­te.
  Pa­ra não le­var a fa­tal e tão do­lo­ri­da sur­ra, o ga­ro­to fo­ge do pai e so­be na ár­vo­re ­mais pró­xi­ma que en­con­tra no jar­dim. A rai­va do pai e a re­bel­dia do fi­lho en­tram num im­pas­se. O fi­lho ju­ra que nun­ca ­mais co­lo­ca­rá os pés na ter­ra. O pai ju­ra que vai es­pe­rar ele des­cer pa­ra apli­car-lhe uma sur­ra exem­plar.
  Po­de até pa­re­cer uma his­tó­ria co­ti­dia­na e tri­vial, mas o que acon­te­ce em se­gui­da to­ca o sur­preen­den­te. O ga­ro­to hon­ra seu ju­ra­men­to e real­men­te nun­ca ­mais, em to­da sua vi­da, pi­sa no ­chão. Pas­sa a ju­ven­tu­de, a ida­de adul­ta e a ve­lhi­ce tre­pa­do nas ár­vo­res. De­sen­vol­ve um enor­me le­que de so­lu­ções pa­ra vi­ver de uma no­va for­ma, lon­ge do ­chão. Bem lon­ge da sel­va­ge­ria da fi­gu­ra de Tar­zan, o ga­ro­to apos­ta nu­ma bem bo­la­da so­fis­ti­ca­ção da ci­vi­li­za­ção.
  Cria­da pe­lo es­cri­tor Ita­lo Cal­vi­no (1923 - 1985), es­ta his­tó­ria é a ma­triz de ‘‘O Ba­rão nas ­Árvores’’, ro­man­ce pu­bli­ca­do no Bra­sil em 1991 pe­la Com­pa­nhia das Le­tras e que aca­ba de ga­nhar uma no­va edi­ção em for­ma­to de bol­so lan­ça­da pe­la mes­ma edi­to­ra. Tra­ta-se de um dos ro­man­ces ­mais po­pu­la­res de Ita­lo Cal­vi­no ao la­do de ‘‘O Vis­con­de Par­ti­do ao ­Meio’’ e ‘‘O Ca­va­lei­ro ­Inexistente’’.
  Os ­três ro­man­ces com­põem a tri­lo­gia ‘‘Nos­sos ­Antepassados’’, idea­li­za­da pe­lo au­tor na dé­ca­da de 50. Nas pa­la­vras de Cal­vi­no, seu ob­je­ti­vo com a tri­lo­gia era fa­zer das his­tó­rias uma ex­pe­riên­cia de sua rea­li­za­ção co­mo ser hu­ma­no: ‘‘Em ‘O Ca­va­lei­ro ­Inexistente’, a con­quis­ta do ser; em ‘O Vis­con­de Par­ti­do ao ­Meio’, a as­pi­ra­ção de uma com­ple­tu­de pa­ra ­além das mu­ti­la­ções im­pos­tas pe­la so­cie­da­de; em ‘O Ba­rão nas ­Árvores’, um ca­mi­nho pa­ra uma ple­ni­tu­de não in­di­vi­dua­lis­ta a ser al­can­ça­da por ­meio da fi­de­li­da­de a uma au­to­de­ter­mi­na­ção in­di­vi­dual: ­três ní­veis de apro­xi­ma­ção da li­ber­da­de.’’
  O per­so­na­gem prin­ci­pal de ‘‘O Ba­rão nas ­Árvores’’, Cos­me Chu­vas­co de Ron­dó, o fi­lho pri­mo­gê­ni­to do ba­rão de Ron­dó, faz de sua re­vol­ta in­fan­til uma de­ter­mi­na­ção exis­ten­cial e so­cial. Com es­tra­té­gia e obs­ti­na­ção, de­sen­vol­ve cen­te­nas de so­lu­ções pa­ra vi­ver de ár­vo­re em ár­vo­re com dig­ni­da­de. Sem co­lo­car os pés no ­chão, ape­sar da es­co­lha pe­la so­li­dão, con­se­gue vi­ver to­das as coi­sas que as pes­soas co­muns vi­vem ao lon­go de ­suas vi­das.
  A op­ção de Cos­me em dis­tan­ciar-se das re­la­ções hu­ma­nas e da so­cie­da­de na nar­ra­ti­va de Cal­vi­no en­con­tra uma ló­gi­ca pró­pria. O ób­vio se­ria Cos­me trans­for­mar-se num mi­san­tro­po exem­plar, mas o que acon­te­ce é exa­ta­men­te o con­trá­rio, ele tor­na-se um ser hu­ma­no so­ciá­vel e de­di­ca­do ao bem do pró­xi­mo, ao bem da so­cie­da­de: ‘‘Mas sa­ben­do sem­pre que, pa­ra es­tar de fa­to com os ou­tros, o úni­co ca­mi­nho era per­ma­ne­cer se­pa­ra­do dos ou­tros, im­pon­do tei­mo­sa­men­te a si mes­mo e aos de­mais aque­la in­cô­mo­da sin­gu­la­ri­da­de e so­li­dão em to­das as ho­ras e em to­dos os mo­men­tos de ­suas vi­da, as­sim co­mo é a vo­ca­ção do poe­ta, do ex­plo­ra­dor, do re­vo­lu­cio­ná­rio.’’
  Um dos ­mais agra­dá­veis ca­rac­te­rís­ti­cas da li­te­ra­tu­ra de Ita­lo Cal­vi­no, o fi­no bom hu­mor, faz de ‘‘O Ba­rão nas ­Árvores’’ um ro­man­ce pon­tua­do de sur­pre­sas. Co­mo afir­ma o per­so­na­gem das al­tu­ras, ‘‘aque­le que pre­ten­de ob­ser­var bem a ter­ra de­ve man­ter a ne­ces­sá­ria ­distância’’.

Serviço
- O Barão nas Árvores
Autor - Italo Calvino
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Nilson Moulin
Quanto - R$ 21 (240 págs.)



- Convido-vos a descer - disse o barão, com voz pacata, quase apagada - a retomar os deveres de vossa condição.
- Não pretendo descer, senhor pai - afirmou Cosme -, e isso me dói.
Ambos estavam sem jeito e aborrecidos. Cada um sabia o que o outro diria.
- E vossos estudos? E as devoções de cristão? interveio o pai. - Pretende crescer como um selvagem?
Cosme calou-se. Eram pensamentos sobre os quais não refletira e não tinha vontade de fazê-lo. A seguir, acrescentou:
- Por estar a alguns metros acima do chão, acredita que ficarei alheio aos bons ensinamentos?
Também esta era uma resposta hábil, mas constituía quase uma redução da amplitude de seu gesto: portanto, sinal de fraqueza.
O pai percebeu isso e se fez mais duro:
- A rebeldia não se mede em metros, disse. - Mesmo quando aparenta ter poucos palmos, a viagem pode não ter retorno.
Cosme já estava cansado de bancar o solene; pôs a língua para fora e gritou:
- Mas de cima das árvores mijo mais longe!

(Fragmento de ''O Barão nas Árvores'' de Italo Calvino)

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