A iniciação sexual aparece completamente descomplicada e natural na voz dos professores, nas instruções dos livros, nas novelas e conversas de rua. Mas na intimidade do concreto, nos lençóis da realidade, se revela uma das coisas mais nebulosas do planeta. Uma parte da vida repleta de fantasmas e complicações.
Numa época em que a maioria dos romances retrata a facilidade do sexo, o escritor inglês Ian McEwan criou uma obra que focaliza justamente a dificuldade do sexo. ''Na Praia'', seu último romance lançado pela Editora Companhia das Letras, realiza passeio pelos corredores da iniciação sexual assombrados pelos padrões sociais de épocas determinadas.
Ian McEwan narra uma história sedimentada em três bases: o sentimento amoroso, o ato sexual e os padrões sociais. A partir desta base, revela como os padrões sociais são capazes de determinar tanto o ato sexual como o próprio sentimento amoroso. Sugere que, no meio do furacão de hormônios, no meio do sedento vendaval da libido, é praticamente impossível entender o sexo. E, acima de tudo, perceber a dimensão do amor.
''Na Praia'' narra a lua-de-mel dos jovens Edward e Florence no início da década de 60, uma época em que o sexo ainda era aceito apenas depois do casamento. Num clássico hotel litorâneo da Inglaterra, o casal começa a estabelecer os primeiros contatos físicos da paixão. Ambos representam os típicos jovens frutos da contenção sexual vitoriana, onde os padrões morais estavam acima de qualquer sentimento ou desejo.
De um lado, Edward está sedento para tocar a amada. Ver seu corpo nu, inundá-lo de beijos e, finalmente, entre suas pernas, atingir o céu. Apesar da fissura, sabe que deve ir com calma, respeitando o jeito recatado da esposa que ama. De outro lado, Florence está suando de medo em ser tocada. Receia de que o amado chegue ao céu particular de seu corpo. Apesar da angústia, sabe que deve receber os avanços do marido com agrado, compreendendo os desejos do homem que ama.
A partir deste quadro, em ''Na Praia'', Ian McEwan descreve o que acontece na mente de cada um dos jovens. Uma chuva verdadeira de dúvidas e incertezas que despenca sobre aquilo que, no campo da imaginação, deveria ser o paraíso. Uma tempestade onde nem mesmo o amor que os une é capaz de funcionar como abrigo.
Edward e Florence são pessoas comuns e saudáveis que, no momento mais esperado da juventude, batem a cabeça no muro do despreparo, da insegurança, do desconhecido. Representam o casal num momento moral de transição. De certa forma não pertencem inteiramente à cultura do puritanismo como também não pertencem inteiramente à cultura da liberdade. São reféns de um momento de transição histórica onde o amor começa a assumir múltiplas formas.
''Na Praia'' é a história de uma lua-de-mel não consumada, da impossibilidade de uma relação sexual. Mais do que isso, é o desenho de um amor abortado pela imaturidade. A história de um casal que culmina na clássica discussão em que o homem ofende a mulher que ama e a mulher ofende o homem que adora. Uma discussão onde cada um dos lados apresenta sua visão dos atos e sentimentos, onde ambos não conseguem adentrar no universo alheio. Em outras palavras, destruição amorosa onde amor se transforma, de maneira instantânea, em rancor.
Os acontecimentos de ''Na Praia'' acontecem num único dia. A narrativa apresenta os fatos imediatos acompanhados de uma boa dose de antecedentes. No último capítulo, Ian McEwan insere novas perspectivas para a história. Apresenta a condição do personagem Edward nos dias atuais, distante dos 40 anos que o separam do drama do passado. Curiosamente, não apresenta nenhum quadro semelhante da personagem Florence. O autor oferece apenas as consequências de um dos lados, no caso, o lado masculino.
Em outras palavras, o leitor não tem acesso ao destino do lado feminino, apenas do lado masculino. Ian McEwan coloca todo o peso do tempo nos braços de Edward. Um peso que fatalmente termina em melancolia e solidão, mesmo com toda a carga de percepção adquirida ao longo do amadurecimento. Um contexto onde o lado masculino seria aquele responsável pelo ritmo mais lento de funcionamento da engrenagem amorosa.
Com quase oito romances publicados no Brasil, Ian McEwan é um dos autores mais apreciados hoje na Inglaterra. Nascido em 1958, em cada uma de suas obras insere um diferencial em temas contemporâneos. Apesar de interessante, ''Na Praia'' está longe de ser a mais representativa obra do escritor Ian McEwan. Romances como ''Sábado'' (Companhia das Letras, 2005), ''A Criança no Tempo'' (Rocco, 1997) e ''O Inocente'' (Companhia das Letras, 2003) percorrem um caminho mais interessante que excede meramente uma temática bem trabalhada. Além de climas mais completos, oferecem desdobramentos mais abrangentes em suas narrativas.
''Na Praia'' pode ser resumido numa frase exemplar: ''O amor é uma confusão nos olhos dos jovens e uma compreensão no coração dos velhos''.

Fragmento de ‘‘Na Praia’’, de Ian McEwan
  Ela pegou o lobo da orelha dele entre o indicador e o polegar, puxou gentilmente sua cabeça na direção dela e sussurrou: ‘‘Na verdade, estou com um pouco de medo’’.
  Não era exatamente a verdade, mas, previdente como ela era, nunca teria podido descrever a sucessão de seus sentimentos: uma sensação física e seca de aperto e encolhimento, uma repugnância generalizada pelo que talvez fosse solicitada a fazer, vergonha diante da perspectiva de decepcioná-lo e de se revelar uma fraude. Tinha aversão a si mesma e, ao sussurrar no ouvido dele, sentiu as palavras sibilarem em sua boca como as de um vilão no teatro. Mas era melhor falar do medo do que admitir a repulsa e a vergonha. Tinha de fazer todo o possível para baixar as expectativas dele.


SERVIÇO:
- ''Na Praia'', de Ian McEwan. Editora Companhia das Letras, tradução de Bernardo Carvalho, 132 páginas, R$ 37,00.

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