Num primeiro momento ''O Jardim de Cimento'' pode ser considerado um típico romance neogótico inglês. Uma história com alguns contornos sombrios mas com proximidades com o real. Como se as sombras não fossem apenas elementos externos que tocam as pessoas. Como se as sombras também surgissem dentro das pessoas e tocassem o mundo.
Obra do escritor inglês Ian McEwan, ''O Jardim de Cimento'' narra as trajetórias de quatro irmãos. Duas crianças e dois adolescentes. Duas garotas e dois garotos. Vivendo numa família isolada, certo dia presenciam o pai morrer de ataque cardíaco. Algum tempo depois, a mãe deita para dormir e não acorda mais. Diante da situação, decidem ocultar o fato de todo mundo.
Com medo de serem confinados num orfanato, levam o corpo da mãe para o porão da residência e o colocam num velho baú. Depois surge a ideia de encherem o baú de cimento para evitar que a coisa comece a cheirar mal.
Os quatro literalmente concretam a mãe e passam a administrar a casa e suas próprias vidas numa experiência entre o tormento e o aconchego. Um tipo de história recorrente na literatura mas que, nas mãos de Ian McEwan, ganha alguns diferenciais.
Em ''O Jardim de Cimento'', lançado pela editora Companhia das Letras, os quatro irmãos (Julie, Jack, Sue e Tom) reconstroem uma família após o falecimento dos pais. Não uma família normal, mas a família que conseguem reorganizando todos os papéis clássicos, desenterrando as sombras escondidas no porão da psique, suplantando a infância com as unhas.
Para sobreviverem criam um mecanismo de proteção psíquica. Estendendo o sentimento de irmandade, recriam os papéis de pai, mãe e filhos. Os mais velhos incorporam o simbolismo de marido e mulher e os mais jovens de bebês imaturos. Um tipo de simbolismo que adquire formas reais que sutilmente caminham para o incesto.
''O Jardim de Cimento'' foi o primeiro romance publicado pelo escritor em 1978. Antes ele havia publicado apenas dois volumes de contos. Com oito romances publicados no Brasil, Ian McEwan é um dos autores mais apreciados hoje na Inglaterra. Nascido em 1958, em cada uma de suas obras insere algum diferencial, tanto em temas contemporâneos como na variada utilização de gêneros narrativos.
Apesar de possuir instantes reveladores, o romance ''O Jardim de Cimento'' está distante de ser a mais representativa obra de Ian McEwan. Romances como ''Reparação'' (Cia. Das Letras, 2002), ''O Inocente'' (Cia. Das Letras, 2003) e ''Sábado'' (Cia. das Letras, 2005) percorrem um caminho que excede meramente uma temática bem trabalhada. Apostam em climas mais completos e oferecem desdobramentos mais abrangentes em suas histórias.

SERVIÇO
Autor - Ian McEwan
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Jorio Dauster
Quanto - R$ 19 (134 pág.)


''Quando ela depositou a primeira carga de cimento molhado sobre os pés de mamãe, Sue deixou escapar um grito breve. E então, enquanto Julie voltava a encher a pá, Sue correu até o monte de cimento, pegou tudo que pôde com as duas mãos e jogou dentro do baú. A partir de então ficou jogando cimento tão rápido quanto podia. Julie também passou a trabalhar mais depressa com a pá, cambaleando até o baú com grandes cargas e correndo de volta para pegar mais.
Eu mergulhei as mãos no cimento e joguei no baú uma boa quantidade.
Trabalhamos como uns loucos. Em breve só se viam alguns pedaços do lençol, que logo depois desapareceram. Nem por isso diminuímos o ritmo. Os únicos sons eram o arranhar da pá e nossas respirações arquejantes. Quando terminamos e só restava uma mancha úmida no chão, o cimento quase transbordava do baú.''
(Fragmento de 'O Jardim de Cimento' de Ian McEwan)

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