A história de "Minhas Lembranças de Leminski", obra do escritor londrinense Domingos Pellegrini que acaba de ser lançada pela Geração Editorial, é cercada pela polêmica da censura das biografias que tem marcado o País nos últimos tempos.
Tudo começou em meados de 2013 quando Pellegrini foi convidado, com o aval da família, a escrever uma biografia do poeta curitibano Paulo Leminski falecido em 1989. Em vez de uma biografia tradicional, Pellegrini optou por escrever sobre as memórias que tinha do poeta, do qual foi amigo e com quem conviveu ao longo duas décadas.
Os problemas começaram quando a família (viúva e filhas), ao ler os originais do livro, não autorizou sua publicação sob o argumento de não concordar com alguns elementos presentes do texto. Domingos Pellegrini então, colocando mais lenha na fogueira sobre a proibição de biografias não-autorizadas pela legislação brasileira, disponibilizou o livro gratuitamente na internet para quem desejasse ler.
Agora a Geração Editorial assumiu o risco de publicar o livro sem a autorização dos herdeiros de Paulo Leminski, fato que pode gerar processo e a retirada da obra das livrarias. A opção pela publicação vem juntamente num momento em que a Câmara dos Deputados acaba de aprovar a nova Lei das Biografias. Pelo novo texto aprovado, não há mais necessidade de autorização prévia do biografado, família, ou herdeiros para a publicação da obra. Toda censura ou discussão deve acontecer apenas depois da publicação do livro. E correções, ajustes ou cortes exigidos via judicial, devem aparecer somente na segunda edição. A lei precisa ainda ser aprovada pelo Senado para entrar em vigor, e ainda não possui uma data para isso.
O conteúdo de "Minhas Lembranças de Leminski" é basicamente o mesmo do texto disponibilizado na internet em 2013. A diferença é de que algumas partes do texto foram reescritas e outras ampliadas. A edição também ganhou algumas fotos de Leminski de autoria dos fotógrafos Orlando Azevedo e Vilma Slomp.
A discussão que a obra pode suscitar está muito mais de classificação do que propriamente de conteúdo. Por sua estrutura, "Minhas Lembranças de Leminski" não é uma biografia de formato usual. É formada por diálogo entre Polaco (Leminski) e Pé Vermelho (Pellegrini). Ou seja, o autor cria falas para o biografado para expor seus pensamentos. Por esse elemento, o livro está muito mais para memórias do que para biografia.
O próprio Domingos Pellegrini afirma que a obra "não é uma biografia, é uma trança de lembranças e adjacências". E vai além: "É difícil saber quanto do livro escrevi e quanto foi ditado por Leminski. É um diálogo ou um jogo de estilos de escrita e de vida." O que as páginas transpiram, na realidade, apesar dos conflitos de ego entre biografado e biógrafo, é uma sutil admiração pela vida e obra do poeta curitibano.
Os três pontos eleitos pela família para a não autorização da publicação do livro parecem pequenos diante das informações e leituras dos fatos presentes em "Minhas Lembranças de Leminski". Coisas como a falta de grana de Leminski, sua preguiça em tomar banho e sua autodestruição pelo álcool não ferem sua imagem como alegam os herdeiros, na verdade, fazem parte dela.
Vale lembrar que a primeira e única biografia de Paulo Leminski escrita pelo jornalista Toninho Vaz publicada pela editora Record em 2001, teve sua reedição não autorizada pela família permanecendo fora de catálogo. Tudo isso justamente quando a obra do poeta, que estava longe das livrarias por duas décadas (com todos os livros esgotados e fora de catálogo), volta à luz do dia. Sua obra completa, "Toda Poesia", lançada no ano passado pela editora Companhia das Letras, vendeu mais de 80 mil exemplares. Uma verdadeira mágica em se tratando do gênero poesia. E Leminski merece.

SERVIÇO
"Minhas Lembranças de Leminski"
Autor – Domingos Pellegrini
Editora – Geração Editorial
Páginas – 202
Quanto – R$ 34

O último encontro é em um restaurante em Curitiba, pouco antes de Leminski se mudar para São Paulo. Já está bem barrigudo, o que não é surpresa; surpresa é bater a mão em sua coxa, numa das risadas explosivas de reencontro, e sentir que entre a pele e o osso quase não há mais carne. Leminski quer pedir vodca. Alice fala: "Você prometeu". Ele solta um suspiro fundo, lança a ela um olhar amoroso e fala: "Está bom, cerveja então". Mas, quando ele vai ao sanitário, Pé Vermelho, indo atrás, vê que ele faz sinal ao garçom, que, descolado, pega a garrafa de vodca e bota uma dose dupla num copo atrás do balcão. Leminski, num ponto cego para Alice, vira o copo em duas goladas, solta seu suspiro de funda satisfação e vai urinar. Os dois urinando juntos a olhar os azulejos em frente. Pé Vermelho, então, fala que aqueles azulejos ali são brancos, como de hospital, de necrotério... ... e, cara, você vai morrer se continuar se matando assim. Leminski fica balançando a cabeça a olhar os azulejos, daí dá três pancadinhas como quem bate em madeira e diz que se não sofrer, já será bom. Depois, me encara sorrindo com o olhar doce de quando bem embebido em vodca, e fala a frase com que Pé Vermelho várias vezes sonhará: – Mas não vou morrer de tanto de matar, não, vou morrer de tanto viver! (Fragmento de "Minhas Lembranças de Leminski" de Domingos Pellegrini)
mockup