Tudo indica que a literatura policial nasceu no interior dos contos de Edgar Alan Poe (1809 - 1849). O escritor norte-americano inseriu em suas histórias a figura do detetive procurando desvendar algum crime, ou algum enigma de horror.
Mas quem realmente elevou o gênero policial ao universo do grande público foi o escritor inglês Arthur Conan Doyle (1859 - 1930). Médico que se dedicava à literatura nas horas vagas, ele foi o criador de Sherlock Holmes, o mais popular detetive do mundo.
A literatura policial brasileira nasceu na década de 50 pelas mãos do advogado paulista Luiz Lopes Coelho (1911 - 1975). Seu volume de contos ''A Morte no Envelope'', publicado originalmente em 1957, é considerado o primeiro livro do gênero produzido no país.
É difícil afirmar que Lopes Coelho foi o primeiro autor brasileiro a escrever contos policiais, mas sem dúvida foi o primeiro a criar a figura de um detetive nacional: o delegado Leite. O personagem foi protagonista de todos os contos de seus três únicos livros, ''A Morte no Envelope'' (1957), ''O Homem que Matava Quadros'' (1961) e ''A Idéia de Matar Belina'' (1964).
A literatura de Luiz Lopes Coelho fez significativo sucesso nas décadas de 50 e 60, depois caiu no completo esquecimento. Mesmo tendo se firmada como referência obrigatória do gênero policial na literatura brasileira, sua obra está exilada das livrarias há mais de 30 anos.
Agora, finalmente o leitor pode ter acesso às façanhas do delegado Leite imerso na ''belle époque'' das ruas de São Paulo e Rio de Janeiro. A Editora DBA acaba de reeditar ''A Idéia de Matar Belina'', volume que reúne nove contos.
Delegado Leite é um policial honesto. Sua especialidade é desvendar assassinatos. Suas investigações são perspicazes e pontuadas por doses de ironia. Punir os assassinos não é sua prioridade. Seu grande desejo é encontrar a verdade e mostrar ao criminoso como chegou até ela. Todo o resto interessa pouco. E nos momentos de soluções difíceis, costuma deitar numa rede instalada em sua residência e saborear doses de uísque.
Nos contos de Lopes Coelho estão presentes elementos semelhantes àqueles encontrados nos folhetins de Nelson Rodrigues (1912-1980) produzidos na mesma época. Vários dos assassinatos investigados pelo delegado envolvem paixões e desilusões, vaidades e traições, amores e adultérios. O caráter amoroso e sexual que envolve os crimes forma um pano de fundo onde o desejo subjuga a razão.
Nas histórias de ''A Idéia de Matar Belina'' os crimes sempre ocorrem em espaços íntimos e privados. Também sempre envolvem pessoas em relações íntimas e próximas. Assim, as investigações acontecem dentro de um círculo restrito. E para se chegar à verdade, a palavra dos envolvidos possuem tanto peso quanto a análise das circunstâncias.
A violência externa, aquela que acontece na rua ou invade o espaço privado como um estranho, não existe nos contos de Lopes Coelho. Contextos políticos, sociais ou econômicos estão bem longe dos crimes investigados pelo delegado Leite. Fica evidente tratar-se de uma opção deliberada do autor.
Um dos contos do livro é curioso nesse sentido. O investigador, imerso num tédio de fim de semana, alegra-se ao receber a incumbência de desvendar a morte de um curió de gaiola. Chegando ao assassino do pássaro, Leite decide não puni-lo. Isso porque o motivo que inspirou o culpado ao assassinato é considerado justo, no âmbito moral, pelo delegado.
Serviço
- A Idéia de Matar Belina, de Luiz Lopes Coelho, Editora DBA, apresentação de Millôr Fernandes, posfácios de Joaquim Nogueira e Isabel Coelho, 160 páginas, R$ 29,00.



 – Eu não o matei.
  – Mas tinha motivo para matar.
  – Já disse que tinha.
  – Então... ia matá-lo?
  – Não foi isso que falei. Eu não ia matar. Pensei em matar. É diferente.
  – E o motivo?
  – O senhor já sabe. Já contei tudo. Ele ia me largar.
  – E como é que você soube disso?
  – Eu não soube. Senti.
  – Matar um homem porque vai ser abandonada! Você já pensou se todas as mulheres agissem dessa maneira?
  – Não matei ninguém. Por favor, não insista. Se eu disser ao senhor que pensei em matá-lo porque tenho vinte e dois anos, porque ele abusou de mim, porque sou solteira e ele era casado, porque ia me deixar na pior situação do mundo perante meus pais, meus amigos, se eu disser tudo isso, estarei mentindo. Mentindo mesmo. Pensei em matar Fernando porque não podia viver sem ele.
(Fragmento do conto ‘‘Crime... da Moça em Pranto’’, que integra o livro ‘‘A Idéia de Matar Belina’’, de Luiz Lopes Coelho)

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