Para criar uma grande obra, o escritor precisa de duas coisas básicas: tempo e paz. O lugar mais adequado para se conseguir essas duas coisas talvez seja a prisão. Na solitária de um presídio é possível encontrar todo o tempo e a paz do mundo.
Pelo menos era isso que Charles pensava. Mas para ter acesso a uma tranquila e solitária cela, com comida e roupa lavada, é necessário cometer um crime. Charles decidiu pagar o preço. Empunhando uma machadinha, desmembrou uma respeitável velhinha. Como prêmio, ganhou 25 anos de tempo e paz numa moderna e humanitária penitenciária privada.
Charles, um jovem publicitário aspirante a escritor, é o personagem principal de ''Livro Zero'', romance de estréia do roteirista carioca Alexandre Plosk. Lançado pela Editora Planeta a obra faz uma série de alusões ao clássico ''Crime e Castigo'' do escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821 - 1881).
Com um assassinato inexplicável nas costas a arma do crime, por exemplo, nunca foi encontrada , Charles isola-se do mundo numa cela. Isola-se do universo carcerário, recusando-se a conversar com outros detentos. Isola-se do mundo externo, recusando-se a receber visitas. Coloca toda sua energia em ler os grandes autores e fazer anotações para seu primeiro livro.
Com os passar dos anos, esse isolamento o converte, na ótica dos detentos, num messias enviado por Deus. Uma nova seita nasce no interior da penitenciária e se propaga por outras instituições. Uma religião que considera Charles o grande salvador. Mas, ao mesmo tempo que os fiéis se multiplicam, também os infiéis se propagam. Assim, as facções criminosas dão lugar a facções religiosas que se devoram em sangrentas rebeliões.
Mesmo contra a própria vontade, Charles é impelido a assumir o papel de messias, ''o Santo'' como é chamado, um papel imposto pelas circunstâncias. As anotações de seu livro passam a ser consideradas uma espécie de enigmático livro sagrado escrito sob inspiração divina. O tempo e a paz, que ele tanto almejava, escorrem ralo abaixo. Então, uma sucessão de episódios inverossímeis assume o controle de sua existência. Seu destino, que parecia estar entre seus dedos, percorre outras mãos.
Logo o personagem percebe que aquilo que considerava o sentido de sua existência, ou seja, a literatura, se transforma numa maldição. A escrita assume a forma de um pesadelo. E a única forma de Charles acordar do pesadelo é conseguir escrever seu primeiro livro, um romance em que precisa narrar sua própria história, a real e não a ficcional.
Essa história, que salvará a personagem do pesadelo, é justamente aquela que oferecerá ao leitor o entendimento da trama de ''Livro Zero''. Na verdade o primeiro livro de Charles não existe. Ou melhor, pode não existir.
Fazendo uso de uma linguagem ágil e direta, Alexandre Plosk ergue uma interessante estrutura para sugerir que a primeira história que um escritor deve narrar, ou construir, é sua própria vida. Só a partir disso é que estará pronto para criar outras histórias, apto para cair nas águas da ficção e não se afogar.

Serviço:
- ''Livro Zero'' de Alexandre Plosk, Editora Planeta, 216 páginas, R$ 29,90.

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