LEITURA - O pesadelo do vazio
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 08 de outubro de 2010
Marcos Losnak<BR> Especial para a Folha2 
Eles estão espalhados em vários pontos da existência. Podem ser chamados de momentos de transição. Os mais visíveis são justamente aqueles em que não há possibilidade de fuga. A transição da infância para a juventude. Da juventude para a idade adulta. Da idade adulta para a velhice.
Nesses momentos de transição algumas pessoas podem pensar que estão perdendo a infância, outras podem pensar que estão conquistando a juventude. Algumas podem pensar que estão perdendo a juventude, outras que estão conquistando a idade adulta. Independente da ótica, tanto a sensação de perda quanto a sensação de conquista revelam um vazio a ser preenchido.
Em seu novo romance, ''O Sonho de Matilde'', a escritora carioca Livia Garcia-Roza focaliza um desses emblemáticos momentos de transição. Em questão está a história da garota Matilde que, embora pareça estar diante da perda da juventude, sutilmente está, na realidade, diante da perda de algo mais abrangente.
Em seu sétimo romance, Livia Garcia-Roza mantém a temática que vem desenvolvendo em praticamente toda sua literatura: as relações dentro do ambiente familiar. ''O Sonho de Matilde'' traz uma família do interior de Minas Gerais, no início da década de 60, assistindo seus ideais mais cultuados escorrerem pelo ralo. Lançado pela editora Record, o romance chega às livrarias esta semana.
O pai, um bancário, vive de exaltar a honra da família. A mãe, uma pintora de porcelana, acredita que todo e qualquer acontecimento é obra divina. Ao lado do casal estão três filhos: Cristina, Matilde e Mateus.
Mateus é apenas uma criança, o temporão. Cristina, a mais velha, é a queridinha de todos, o ideal de filha perfeita. Matilde, pouco mais nova que Cristina, é a garota desajeitada, aquela que possui a irmã como modelo. Ambas sonham em conhecer o Rio de Janeiro e, quem sabe, cursar alguma faculdade na grande cidade.
Tudo caminha de maneira tranquila até o dia em que Cristina começa a ficar estranha. Coisas como falar sozinha, andar pela casa pelas madrugadas, sair pelada pelas ruas e outras coisas pouco normais. Em pouco tempo os surtos psicóticos da garota obrigam a família a interná-la num hospital psiquiátrico do Rio de Janeiro.
Assim, a viagem para o Rio de Janeiro tão sonhado pelas duas irmãs acontece de maneira próxima ao pesadelo. Para Matilde, um verdadeiro rito de passagem, um momento de transição em que a perda da infância e da juventude acontece de maneira simultânea.
Livia Garcia-Roza coloca Matilde como a narradora de ''O Sonho de Matilde''. Pela ótica da garota, que dá os primeiros passos para o entendimento do mundo, a narrativa pode parecer ingênua. Mas a intenção da autora parecer ser justamente essa: apresentar o processo de transformação da ingenuidade, não apenas seus efeitos.
Os efeitos são fatais e sem retorno. Algo que indicam que a perda precisa necessariamente acontecer para que a conquista tenha lugar para se apoiar. Nem que seja lugar vazio. O eterno vazio que carece de alguma coisa que não o deixe tão vazio.
Livia Garcia-Roza atuou como psicanalista por longos anos até de se dedicar à literatura. Caminho semelhante ao percorrido por seu marido Luiz Alfredo Garcia-Roza, que também deixou a profissão de psicanalista para se tornar escritor de romances policiais.
Serviço:
- O Sonho de Matilde
Autor - Livia Garcia-Rosa
Editora - Record
Quanto - R$ 32,90 (160 págs.)
''Nunca senti tanto desespero como no momento em que vi Cristina caminhando ao meu encontro. Um enfermeiro a acompanhava. Os passos de minha irmã estavam lentos e vacilantes, e ela estava pálida, despenteada, seus olhos boiavam nas órbitas, e ela babava. Destruíram a Cris! Não sei como não saí gritando, chutando o que encontrava pela frente, xingando os médicos! Em vez, abracei-a com cuidado, serena e desesperada, dizendo, estou aqui a seu lado, Cris. Perguntei como ela estava se sentindo, enquanto caminhávamos lentamente em direção a um pequeno sofá. Assim que o alcançamos, o enfermeiro disse que caso eu precisasse dele era só chamá-lo na porta que ficava antes do corredor e, dizendo que a paciente estava bem, desapareceu. Bem? Chamava aquilo de estar bem? Cris tentava falar e a boca não obedecia a seu comando, mas ela continuava tentando, enquanto eu enxugava a saliva que ela não conseguia sugar, quando finalmente entendi que queria cigarro. Cigarro!? Cris nunca tinha fumado...''
(Fragmento de 'O Sonho de Matilde', de Livia Garcia-Roza)


