A literatura da Coreia existe. Está lá, seja no Sul ou no Norte. Mas para os leitores brasileiros não é uma tarefa fácil encontrá-la. São raros os livros de escritores coreanos lançados no Brasil, praticamente inexistentes.

"Flor Negra", romance de Kim Young-há, que acaba de ser lançado pela Geração Editorial, pode saciar a curiosidade dos leitores. Baseado em fatos históricos, a obra narra a trajetória de um grupo de coreanos que imigrou para o México em 1904 e passaram a viver em regime de escravidão.

Kim Young-la, nascido em 1968 na Coreia do Sul, é considerado uma das grandes vozes da literatura coreana contemporânea. Autor de seis romances e três volumes de contos, ganhou projeção mundial nos últimos anos.

O ponto de partida de "Flor Negra" está fundamentado em fatos históricos no mínimo inacreditáveis. No início do século 20 o império coreano vivia a Guerra Rússia-Japão. O império estava em ruínas e a miséria se espalhava por todo canto. Então um esperto comandante inglês aporta um navio de carga no litoral do país e o vende uma ideia de salvação: levar coreanos para ganhar dinheiro no México.

Assim, mais de mil coreanos, sob a ilusão de fazer fortuna rápida e retornarem ao país natal, partem para o México numa longa viagem marítima desumana. O grupo de imigrantes envolve todo tipo de gente: camponeses, ladrões, mendigos, padres, eunucos, soldados, xamãs, nobres, servos, órfão, famílias, crianças, jovens e idosos. Todos os extratos sociais do sistema imperial coreano embarcam na aventura por uma nova vida fadada ao fracasso.

Detalhe: na época não havia um único residente coreano no México. Nenhum dos imigrantes tinha a mínima ideia do que era a língua espanhola. A Coreia não tinha nenhuma relação diplomática com o México. O fato é que, quando os imigrantes colocaram os pés em solo mexicano, tombam no limbo. São vendidos como escravos aos fazendeiros que cultivavam sisal. Num país estranho, passam a viver isolados de tudo. O que seria um sonho, torna-se um pesadelo sombrio.

Para converter os fatos históricos em ficção, a narrativa de Kim Young-ha acompanha a trajetória de vários personagens distintos: um órfão, um padre católico, um xamã, um tradutor, um ladrão e uma descendente da realeza. Com esse leque de tipos aborda várias facetas do enredo. Algo bem parecido com que autores ocidentais vêm fazendo no gênero romance.

Em pouco tempo os imigrantes percebem ser impossível retornarem à Coreia. Resta-lhes trabalhar como condenados e incorporar a cultura mexicana no cotidiano. Ou fugir, com um deles faz e acaba integrando a guerrilha comandada por Emiliano Zapata e Pancho Villa.

Com o passar dos anos alguns imigrantes associados à guerrilha partem para uma ideia utópica: criarem um país chamado Nova Coreia na fronteira entre o México e a Guatemala. Diante do isolamento geográfico e cultural, e da impossibilidade de retornarem ao país de origem, temem se extinguirem enquanto nação. Então sonham criar uma salvação com as próprias mãos.

O embate entre as culturas é evidenciado pela religião católica dos donos das fazendas e as práticas xamânicas dos coreanos. Um embate que envolve poder e violência, um conflito que encontra eco na guerra civil mexicana.

"Flor Negra" é o típico romance que se propõe a ser um épico. Com uma história de amor impossível e tudo. Abarcando tudo que encontra pela frente, possui todas as características ocidentais para se transformar em filme ou série televisiva. Parece que a literatura oriental contemporânea colocou os dois pés no barco da globalização. Deixou os remos de lado acionou o motor. E sem pudor algum.

Serviço:
"Flor Negra"
Autor – Kim Young-ha
Editora – Geração Editorial
Tradução – Ana Carolina Mesquita
Páginas – 312
Quanto – R$ 44,90 e R$ 19,90 (e-book)

À medida que a viagem avançava, o fedor do navio piorava e mais, e não havia distinção entre o aristocrata e o plebeu. Na cabine de carga, onde não existiam instalações sanitárias modernas, o fedor horrendo era apenas natural. As pessoas expressavam a sua humanidade através de cada buraco e poro de seus corpos. As mulheres exalavam cheiro de mulher e os homens exalavam cheiro de homem. A distinção entre os sexos se tornou mais clara do que a distinção de classes, e isso unicamente por causa do cheiro. Mesmo quando os homens estavam tentando dormir, seus olhos se abriam instantaneamente se uma mulher passasse por eles. Uma mulher era capaz de sentir o cheiro de um homem vindo por trás dela. À medida que o tempo passava sem que eles pudessem lavar seus corpos e roupas, o interior da cabine escura começou a ter um cheiro não muito diferente do de um galinheiro. Mesmo no meio do caos, havia aqueles que tinham odores particularmente fortes. Tais cheiros intensos, porém atraentes, espalhavam-se para bem longe do corpo de seus donos, e quem os cheirava uma vez não era capaz de esquecê-los com facilidade. O odor não tinha nada a ver com o caráter ou a personalidade de seu dono. Assim, quando as pessoas viravam a cabeça na direção de um cheiro que se aproximava, muitas vezes se surpreendiam com a conclusão inesperada. Yi Yeonsu era uma dessas pessoas. Depois de dez dias a bordo do navio, quando a lua estava cheia, da garota emanava um odor que qualquer um reconhecia. Quando ela passava, aqueles que estavam dormindo acordavam, as crianças paravam de chorar. Os homens que não tinham ereção há anos ejaculavam em seu sono; os rapazes se excitavam em seu cansaço. As mulheres fofocavam e os homens viravam a cabeça dolorosamente. (Fragmento de "Flor Negra" de Kim Young-ha)
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