Patrick Ness escreveu o livro retomando a ideia de uma escritora falecida
Patrick Ness escreveu o livro retomando a ideia de uma escritora falecida | Foto: Fotos: Reprodução



A morte pode ser um assunto complicado para adultos. E pode ser um tema ainda mais complicado para crianças. O grau de complicação varia de acordo com o entendimento que cada um consegue abraçar.
Em "O Chamado do Monstro", o escritor norte-americano Patrick Ness aborda o tema a partir da experiência de um garoto diante da iminente morte da mãe. Para entender, ou mesmo fugir, do que está acontecendo, o menino utiliza a fantasia para se relacionar com a realidade.
Lançado em 2011, o romance acaba de ganhar reedição da editora Ática aproveitando a estreia nos cinemas brasileiros do filme baseado no livro. Dirigido pelo cineasta Juan Antonio Bayona, a adaptação cinematográfica recebeu o nome de "Sete Minutos Depois da Meia-Noite" (A Monster Calls).
"O Chamado do Monstro" narra a história de Conor, um garoto de 11 anos de idade que precisa lidar com uma nova situação: a mãe sofrendo de câncer. Paralelamente precisa enfrentar uma situação antiga: o bullying que sofre na escola.
Vivendo em profundo conflito interior, Conor desenvolve inconscientemente uma maneira de enfrentar a dura realidade. A partir de seus pesadelos, começa a enxergar um monstro aparecer em seu quarto em alguns dias da semana, sempre sete minutos depois da meia-noite.
O monstro assume a figura de uma grande árvore de teixo fincada no meio de um cemitério situado nas proximidades de sua casa. O monstro deixa de invadir os pesadelos do garoto para invadir seu quarto para estabelecer conturbadas conversas.
Ao longo das noites o monstro narra ao menino três histórias que sintetizam seu conflito interior. Histórias que sinalizam que as aparências podem enganar, que a bondade pode ser confundida com a maldade e vice-versa, ou que às vezes as pessoas precisam mentir para si mesmas.
Entre a realidade e a fantasia, Conor vai sendo impelido ao limite. Então começa a utilizar a força que o monstro representa para se colocar diante dos problemas. Esse movimento assume um impulso violento e destrutivo, sem freios. O resultado chega a assustar até o próprio garoto.
A grande discussão entre o monstro e Conor reside sobre a verdade. O monstro se empenha em revelar algo que o menino se recusa a admitir: a contradição de seus sentimentos. Por um lado ele confia nos procedimentos médicos, deseja que a mãe se cure logo e volte à vida normal. Por outro lado, com o fracasso dos tratamentos e o alto grau de sofrimento da mãe faz com ele deseje o fim imediato dessa dor.
Conor convive com dois sentimentos contraditórios, deseja a cura da mãe e também deseja que a morte acabe com seu sofrimento. Esse é seu grande conflito que o monstro se encarrega de revelar. Apesar de ser classificado como romance infantojuvenil, "O Chamado do Monstro" apresenta abordagens complexas e corajosas.
Embora o romance tenha sido escrito por Patrick Ness, o enredo do livro não é de sua autoria. Ele foi criado pela escritora inglesa de origem irlandesa Siobhan Dowd, falecida com 47 anos em 2007, vítima de câncer. Representa uma prática que ganhou popularidade na literatura inglesa da última década: autores que passaram a escrever livros a partir de ideias de escritores falecidos.
Em vida Siobhan Dowd publicou apenas dois romances, mas deixou vários livros inéditos e um punhado de ideias narrativas. Uma dessas estruturas serviu de base para Patrick Ness escrever "O Chamado do Monstro".
Siobhan Dowd possui uma única obra de sua autoria publicada no Brasil, "A Carne dos Anjos", lançada pela editora Agir em 2009. Patrick Ness já possui três romances publicados,
"O Motivo" (Pandorga, 2011), "A Missão" (Pandorga, 2012) e
"A Guerra" (Pandorga, 2013).
O grande tema de "O Chamado do Monstro" recai sobre latente a contradição do ser humano, seja ele adulto ou criança. A figura do monstro afirma que não interessa o que o garoto pense sobre a morte porque ele cairá em centenas de contradições. Em determinado momento, o monstro dirige as seguintes palavra a Conor: "Você queria que sua mãe partisse e estava desesperado para que eu a salvasse. Sua mente acreditará em mentiras reconfortantes mesmo sabendo que são as verdades dolorosas que fazem tais mentiras necessárias. E sua mente o punirá por acreditar em ambas as coisas."

Serviço:
"O Chamado do Monstro"
Autor – Patrick Ness e Siobhan Dowd
Ilustrações – Jim Kay
Editora – Ática
Tradução – Antônio Xerxenesky
Páginas – 216
Quanto – R$ 48,90

Imagem ilustrativa da imagem LEITURA - O pesadelo da realidade
O garoto gritava enquanto destruía, tão alto que nem conseguia escutar o próprio pensamento desaparecendo dentro do delírio da destruição, a mente esvaziada enquanto quebrava, quebrava. O monstro tinha razão. Aquilo era muito bom. Conor gritou até ficar rouco, golpeou até seus braços ficarem doloridos, rugiu até cair no chão. Exausto. Quando finalmente parou, notou que o monstro o observava em silêncio, diante dos destroços. Conor, arfante, se apoiou no galho para não perder o equilíbrio. "Agora sim", disse o monstro, "isso é que é destruição de verdade". E, de repente, os dois estavam de volta à sala de estar da casa da avó de Conor. Conor viu que havia destruído quase todos os centímetros dela. O sofá estava em frangalhos, completamente destruído. Cada uma de suas pernas havia sido quebrada, o estofado retalhado, nacos de espuma espalhados pelo chão, os restos do relógio arrancado da parede e estilhaçado em inúmeros fragmentos. Assim também ficaram as luminárias e o conjunto de mesinhas que estavam ao lado do sofá, e também a estante, cada livro que nela antes permanecia guardado, rasgado de pnota a ponta. Até mesmo o papel de parece tinha sido arrancado em tiras malfeitas. Conor congelou, em choque. Olhou para suas mãos doloridas pelo esforço, cobertas de aranhões e sangue, as unhas quadradas. "Ai meu Deus", sussurrou. Virou-se em direção ao monstro. Que não estava mais lá. (Fragmento de "O Chamado do Monstro", de Patrick Ness)
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