LEITURA - O pecado da velhice
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de novembro de 2010
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Pela abordagem do tema, ''Diário da Guerra do Porco'' poderia ter sido escrito na semana passada. Mas trata-se de um livro criado no final de década de 60, mais de 30 anos atrás. O embate entre jovens e velhos, e seus significados mais irônicos, parecem atravessar décadas como uma bomba relógio a um passo da explosão.
Publicado originalmente em 1969, ''Diário da Guerra do Porco'' representou a volta do escritor argentino Adolfo Bioy Casares ao gênero romance após mais de uma década escrevendo obras em parceria com o amigo e escritor Jorge Luis Borges (1899 - 1986).
A obra narra um episódio ficcional ocorrido na década de 40 em Buenos Aires. De um dia para outro, os jovens da cidade começam a perseguir e maltratar os velhos nas ruas. Não só maltratar, mas espancar e matar os velhinhos incautos. O motivo aparente reside apenas no fato das vítimas serem pessoas idosas mas, no decorrer da narrativa, a violência adquire um sentido extremamente simbólico.
Bioy Casares (1914 - 1999) cria uma alegoria de um tempo onde as novas gerações sentem o impulso de se livrarem das gerações anteriores. Retirar os velhos lerdos do caminho para correr mais rápido, com caminho livre. Retrata o fenômeno do endeusamento da juventude e a consequente criminalização da velhice.
Um tempo onde a velhice é encarada como um incômodo, uma verdadeira maldição. E não se trata de apenas o ser humano ser velho, ter vivido décadas e décadas, mas de parecer velho, ter fisicamente a aparência de velho. Nesse quadro, a aparência velha torna-se a confissão de um crime cuja condenação é a pena capital: a morte.
''Diário da Guerra dos Porcos'' narra a trajetória de Isidoro Vidal, um viúvo que mora numa pensão e passa os dias jogando cartas com um grupo de amigos no bar mais próximo. Apesar de ser considerado um ''velho'', sente-se bem o mais ''novo'' de todos os amigos do bairro.
Sua tranquilidade cotidiana começa a se alterar a partir do dia em que os jovens da cidade resolvem se livrar dos velhos. Na rua, pessoas idosas são espancadas, sequestradas e assassinadas. Em alguns lugares, fogueiras são acesas para queimar idosos. As ruas tornam-se lugares perigosos e o cemitério começa a receber os melhores amigos de Isidoro Vidal.
Para contrapor a instauração da barbárie, uma jovem se apaixona por Isidoro Vidal e tenta arrastá-lo para um outro território. Chega a parecer óbvia a solução encontrada por Bioy Casares para criar um contraponto entre o embate de juventude e velhice no meio da intolerância e da violência. Felizmente esse não é o contraponto principal.
A questão está mais além. A juventude pode destruir a velhice para criar novos ideais de mundo. Mas também pode destruir a velhice por ela representar tudo aquilo que ela será após deixar de ser juventude. Os jovens podem enxergar nos velhos um empecilho para o novo, como também podem ver, num campo mais sutil, a velhice como um espelho. E o reflexo pode se apresentar desagradável num primeiro instante, mas num segundo ele se revela real e cruel. Não há rota de fuga. Esse é o jogo (ou a guerra), completamente aberto, proposto pela narrativa de ''Diário da Guerra do Porco''.
Adolfo Bioy Casares nasceu em Buenos Aires em 1914. Considerado um dos principais escritores argentinos no século 20, é mundialmente conhecido por ''A Invenção de Morel'' (1940), sua grande obra-prima coroada de elementos fantásticos. Escreveu sete livros em parceria com Jorge Luiz Borges, vários volumes e contos e os romances ''Histórias Fantásticas'' (Cosac Naify, 2006) e ''O Sonho dos Heróis'' (Cosac Naify, 2008).
Na guerra dos porcos, dos cavalos, dos tigres e dos tratores, a velhice aparece como um pecado. Sem cura. Sem perdão.
Serviço:
- Diário da Guerra do Porco
Autor - Adolfo Bioy Casares
Editora - Cosac Naify
Tradução - José Geraldo Couto
Páginas - 208 (capa dura)
Quanto - R$ 55,00
- O senhor lhe disse que esta guerra está no fim.
- Acredite - respondeu médico, balançando a cabeça com tristeza: - o serviço de psiquiatria não dá conta de atender os jovens. Todos nos procuram pelo mesmo problema: receio de tocar nos velhos. Uma verdadeira repulsa.
- Nojo? Me parece natural.
- A mão se nega, senhor. Há um fato novo e irrefutável: a identificação dos jovens com os velhos. Através dessa guerra, eles entenderam de uma maneira íntima, dolorosa, que todo velho é o futuro de algum jovem. Deles mesmos, talvez! Outro fato curioso: invariavelmente o jovem elabora a seguinte fantasia: matar um velho equivale a se suicidar.
- Não será que a miséria e feiúra da vítima tornam o crime desagradável?
- Todo menino normal - explicou o doutor, com expressão de júbilo - em algum momento de seu desenvolvimento sai por aí destripando gatos. Eu também fiz isso! Depois apagamos de memória essas brincadeiras, as eliminamos, as excretamos. A guerra atual passará sem deixar lembranças.
(Fragmento de ''Diário da Guerra do Porco'', de Adolfo Bioy Casares)


