LEITURA - O pasto das quatro linhas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 01 de julho de 2013
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
O futebol como metáfora de uma sociedade. O futebol como metáfora de um país. O jogo entre dois grupos, duas comunidades, dois bairros, dois estados, dois países, dois times ou dois planetas como o "o verdadeiro teatro da existência".
O argumento pode parecer um pouco amarrotado, mas volta com força no novo romance do escritor e tradutor gaúcho Marcelo Backes, "O Último Minuto". Lançado pela editora Companhia das Letras, o livro traz a história de um técnico de futebol que presencia as transformações do futebol e do Brasil ao longo das últimas décadas. A imagem de um pasto rodeado por fronteiras políticas encontra eco na grama entre quatro linhas.
Yannick, mais conhecido como João, o Vermelho, está na cela de uma cadeia esperando julgamento e condenação pelo crime que cometeu. Um crime que é revelado apenas nas últimas páginas do romance. Regularmente recebe a visita de um padre missionário. É para esse padre que conta sua história em meio a uma coleção de digressões e divagações.
Yannick nasceu numa família de agricultores no interior do Rio Grande do Sul, filho de imigrantes russos e alemães. Criado segundo os princípios de que "todo gaúcho é um grosso", arrasta esse conceito para o futebol. Primeiro como jogador e promessa de craque. Depois, com um dos joelhos comprometido, como técnico de time.
O personagem criado por Marcelo Backes segue os caminhos socialmente definidos pela época. O sujeito que sai da zona rural regida por numa cultura arcaica e cai na modernidade da urbanidade. Instalando-se na capital para concluir os estudos, entra em contato com um mundo muito diferente de suas raízes e referências.
Yannick é o tipo de homem que não muda. Assiste a todas as transformações culturais e históricas do Brasil, presencia todas as transformações do futebol brasileiro, e permanece rígido em suas raízes de formação. O resultado é um homem disparando pedradas contra tudo e contra todos, principalmente contra os dias atuais. Sua leitura é ácida, mas parte do princípio de que o passado sempre se apresenta como o melhor dos tempos. E é justamente essa condição que o impulsiona a cometer um crime de sangue.
"O Último Minuto" traz um homem realizando um balanço de sua existência utilizado como metáfora o futebol brasileiro. Um sujeito fazendo o ajuste de contas com a vida perante um padre. Um padre que, por sua vez, não está tão certo de suas convicções perante o sacerdócio.
No relato do personagem, as transformações ocorridas no país são semelhantes às transformações ocorridas no futebol. Da suposta pureza da arte para a máquina de fabricar dinheiro. Em suas palavras, o futebol deixou de ser o esperanto popular: "A linguagem universal em que as pessoas podiam aplaudir o preço do bilhete de entrada, e ainda por cima de um concerto do qual inusitadamente compreendiam todas as notas. Sim, o futebol era o único lugar em que até ao mais macho dos homens era permitido se mostrar histérico. Sim, o futebol era sempre a luta e um contra o outro pela mesma coisa, a bola, esse couro arredondado entre leões, que fazia nascer toda barbárie e toda a glória ao mesmo tempo, talvez mais até do que uma briga comum, quando o ataque era direto, mano a mano, e não havia nada no meio a ser disputado."
Nascido em 1973, Marcelo Backes é autor de "Maisquememória" (Record, 2007), "Três Traidores e Uns Outros" (Record, 2010), "Estilhaços" (Record, 2006) e "A Arte do Combate" (Record, 2003). Doutor em germanística, traduziu para o português vários autores da língua alemã, entre eles Bertolt Brecht, Arthur Schnitzler, Franz Kafka, Heinrich Heine, J. W. Goethe e Friedrich Schiller, Günter Grass, Ernst Jünger, Hermann Bloch. E. T. A. Hoffmann, Boleslaw Prus e Ingo Schulze. Atuou também como supervisor da tradução e edição das obras completas de Karl Marx e Friedrich Engels publicadas pela editora Boitempo.
Serviço:
"O Último Minuto"
Autor Marcelo Backes
Editora Companhia das Letras
Páginas 224
Quanto R$ 38,50


