Existem pilhas de livros sobre o Japão. Pilhas e pilhas sobre a cultura japonesa. As livrarias estão repletas de obras capazes de satisfazer a curiosidade dos mais variados tipos de leitores. Todas carregadas de seriedade tentando apresentar, mapear ou interpretar o oriente. Até mesmos os compêndios sobre a presença do humor no zen-budismo são sisudos, desprovidos qualquer movimento facial de riso.
Neste oceano de rígida seriedade, ''De Carona Com Buda'', surge como um dos raros livros que focalizam o Japão com bom humor. Lançado pela Editora Companhia das Letras, foi escrito pelo canadense Will Ferguson, um sujeito de veia satírica autor de obras como ''Por Que Odeio os Canadenses'' e ''Ser Feliz''. Esta última, por exemplo, retrata o momento em que o sentimento de felicidade torna-se uma marca registrada, um ''R'' dentro de um círculo, disponível em lojas e supermercados de todo o mundo. Ao alcance de todos.
''De Carona Com Buda'' é o relato da viagem realizada por Will Fergunson do extremo sul ao extremo norte do Japão. Da ilha de Kyushu à ilha de Hokkaido. Do cabo Sara ao cabo Soya. Uma viagem comum se não fosse por um pequeno detalhe: todo o trajeto foi realizado de carona. O velho esquema de mochila nas costas e polegar na estrada. Will teve um problema básico pela frente, teve que vencer uma barreira complicada: japonês não dá carona. Nem para japonês. Para um estrangeiro (gaijin) então, nem pensar.
A aventura foi realizada em 2003, quando Will Fergunson estava residindo no Japão, trabalhando como professor de inglês. Ao seu lado tinha uma pequena vantagem, sabia falar um pouco da língua japonesa, o suficiente para diferenciar um sushi de um baiacu. Seu objetivo, além conhecer o país através do contato com pessoas comuns, era acompanhar a Frente de Flores de Cerejeira. Pelo lado da ironia, também desejava elucidar o grande e eterno mistério do país: ''Os japoneses são arrogantes ou inseguros? No fundo, bem no fundo: inseguros ou arrogantes?''
O florescimento da cerejeira marca o início da primavera no Japão. Pela disposição geográfica do país, as flores vão se abrindo lentamente, numa espécie de onda, caminhando do extremo sul em direção ao extremo norte. Conhecido sob a designação de Frente de Flores de Cerejeira (Sakura Zensen), o movimento é acompanhado por toda a população através de boletins diários veiculados pela televisão, rádios e jornais.®MDBO¯®MDNM¯ Uma típica época de festas e comemorações com rios de saquê consumidos todos os dias.
''De Carona Com Buda'' é o diário de viagem de um estrangeiro percorrendo um país por qual que sente profunda admiração e respeito. Uma admiração que não o impede de ver as contradições latentes e as escancaradas. Que não o impede de encara as idiotices da população com saudável humor. Que não abole uma leitura dos absurdos de maneira desencanada, sem o peso da seriedade.
Will Ferguson descreve as cidades que passou e as situações que viveu. Fala sobre as pessoas que conheceu pegando carona, uma valiosa amostra dos japoneses que habitam o país de hoje, apesar de toda a impregnação do passado em suas costas. São relatos com passagens hilárias sobre alguns pontos e descrições de seriedade lúcida em outros pontos. ''De Carona Com Buda'' revela um Japão desnudo, praticamente apenas de cueca. Neste contexto, o bom humor é um diferencial no livro.
Um pequeno exemplo: ''Os japoneses não são um povo frio. Às vezes gostaria que fossem, pois isso facilitaria a partida. O problema não está em que você não é bem-vindo. Você é. É bem-vindo 'como um forasteiro'. O problema não é a exclusão, o problema é a exclusão 'parcial'. A porta está aberta, mas a corrente está presa. Uma mão convida e a outra barra. Como uma recepcionista de lanchonete, o Japão nos seduz, serve nossas bebidas, infla nosso ego, sorri e suspira, escuta nossas histórias para, num momento de silêncio, perguntar: ''Como foi que você ficou tão gordo?''

Serviço:
- Livro ''De Carona Com Buda - O Japão de Cabo a Cabo'', de Will Ferguson. Editora Companhia das Letras, 544 páginas, R$ 54,00

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