Fazer literatura a partir da literatura. Essa é uma das características da escritora cearense Ana Miranda. Seu trabalho é fazer livros a partir de livros. Romances a partir de figuras da literatura brasileira.
A arte de fazer ficção a partir da própria literatura está presente em vários de seus romances. Em "Boca do Inferno" (1989) escreveu a partir de Gregório de Matos, em "A Última Quimera" (1995) sobre Augusto dos Anjos, em "Clarice" a partir de Clarice Lispector, em "Dias & Dias" sobre Gonçalves Dias.
Em seu novo romance que acaba de ser lançado pela editora Companhia das Letras, "Semíramis", Ana Miranda entra de cabeça no universo do escritor José Alencar (1829 – 1877). Narra a história das irmãs Iriana e Semíramis que fazem de José de Alencar um sentido e uma referência.
Iriana, a narradora, vive com a avó numa fazenda do interior do Ceará. Semíramis, casada com um político, vive na cidade do Rio de Janeiro. Uma é linda, outra feiosa. Uma é mimada, outra é rude. Uma é da terra, outra do espaço. Diferenças que fazem com que o ponto de união se solidifique na contradição.
Iriana viu José de Alencar apenas uma vez na vida, quando ele era um bebê. E tudo que sabe sobre ele é de maneira indireta. Suas fontes são todas indiretas. Coisas que ouviu falar, cartas da irmã que vive no Rio de Janeiro e acompanha de perto a trajetória do escritor, recortes de jornais, folhetins e livros.
E, segundo a lenda, um episódio da vida de Iriana teria inspirado Alencar a escrever a novela "A Viuvinha" (1857). Iriana, num casamento arranjado pelo avô, deveria esposar um rapaz que não conhecia. Um casamento que traria vantagens para as duas famílias, uma tradição na época. Mesmo contra a vontade, Iriana se casa. Só que, em vez de usar um vestido branco na igreja, usa vestido preto. Antes da consumação, na lua de mel, o marido, deprimido pela situação, se afoga no rio mais próximo. Assim, a moça se torna um raro tipo de viúva virgem.
Isolada na fazenda, Iriana vive o mundo exterior através de Semíramis, daquilo que ela faz, daquilo que ela vive. Tudo narrado através de cartas. E esse mundo recai sobre a efervescência cultural da cidade do Rio de Janeiro, a capital do império.
"Semíramis" é romance do século 19 escrito no século 21. Todo o universo narrativo diz respeito ao Brasil do século 19. O mérito de Ana Miranda está em fazer da linguagem um elemento essencial da história. Da mesma maneira como José de Alencar marca sua escrita de maneira rocambolesca, Ana Miranda incorpora a linguagem como conteúdo de sua narrativa.
José de Alencar, em vez de dizer apenas "ancas", dizia "ondulações suaves das formas encantadoras". Ana Miranda não segue o estilo do escritor ao pé da letra, mas chega a incorporar elementos como "o pálido lírio languidamente reclinado sobre a haste delicada, o oásis no meio das vastas sáfaras de areia com o ar perfumado de bafejos de ventura". Ou frases como "quando traços firmes e suaves se decompõem e o sorriso se desfaz num arfar cansado e ofegante e as rosas secas de uma face parecem papoulas ao meio-dia".
Ana Miranda realizou uma pesquisa história ampla para compor "Semíramis". Todo o contexto histórico da época, seja cultural, social ou político, é retratado dentro da estrutura do romance. Mas o contexto que não é apresentado como plano principal, mas como uma segunda camada que dá suporte à história narrada.
Num primeiro momento, a grande personagem da obra parece ser Semíramis, que dá título ao livro. No decorrer da narrativa, o leitor percebe que a personagem principal é Iriana, por fazer de Semíramis e Alencar o ponto de referência para o mundo, para a vida. E o grande fardo que precisará carregar será a constatação de que tudo que ela considerava realidade, na verdade, se revela ficção. Reminiscências é tudo o que sobra.

Joguei-me aos pés de minha avó, chorei aos seus joelhos, supliquei para que convencesse vovô a desistir daquela pena, beijei suas mãos, mas vovó disse que o casamento dela tinha sido assim, lhe repugnava o noivo republicano e jurava que o ia esfaquear de noite, desgraçar sua existência, mas desde a primeira cena de carícias tinha virado do avesso, perguntou se eu sabia o que era que os casados faziam na alcova, eu disse que sim, era como os touros que cobriam as vacas para dar novilho, e os garanhões nas éguas, uma cousa animal, mas ela disse que havia um amor, entre homem e mulher, que nascida daquela intimidade, o beijo era um néctar que ia se derramando nas entranhas e aquecendo, o abraço um embalar de maciez que dava aconchego, e havia langores, tremores, o aroma da respiração, murmúrios nos ouvidos, palavras em fogo, secretas, arrepios, o peso do homem era leve e a pressão dava gozo, a força do homem parecia que se atravessava na mulher, uma lança em batalha de roçados, e depois disso não era mais a cabeça que mandava no corpo, mas o corpo na cabeça, e o corpo da mulher havia sido criado por Deus para receber amor, e do homem para dar amor, depois, todas as escorralhas da vida vertiam gota a gota nas lágrimas. (Fragmento de "Semíramis" de Ana Miranda)



Serviço:
"Semíramis"
Autor – Ana Miranda
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 272
Quanto – R$ 39,50 e R$ 27,50 (e-book)

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