Um único dia na vida de um homem pode ser encarado como uma verdadeira odisséia. Num único dia, toda a existência pode ser concentrada em situações e pensamentos. Horas podem conter a idéia de anos.
Isso significa dizer que um dia na vida de um homem renderia um livro, um romance de centenas de páginas. O escritor irlandês James Joyce (1882 - 1941) consagrou essa idéia no romance ''Ulisses''. Na extensa obra, as ações da história narrada acontecem num único dia.
O escritor inglês Ian McEwan retoma essa idéia em novo romance, ''Sábado''. Lançado pela Editora Companhia das Letras, o livro narra os episódios ocorridos em todas as horas de único dia de um neurocirurgião, num sábado de fevereiro de 2003.
Henry Perowne é um rico e bem sucedido médico próximo de completar 50 anos. Feliz ao lado da esposa, tem orgulho dos filhos talentosos para a música e a poesia. Sua especialidade é realizar delicadas cirurgias cerebrais, atividade que faz com maestria.
''Sábado'' tem início quando Henry acorda pela manhã e, ao olhar pela janela, vê um avião pegando fogo no céu de Londres. Em época atentados terroristas, logo cai em apreensivas divagações. Só se tranquiliza quando fica sabendo pela televisão que não se trata de um atentado, mas apenas de um acidente.
Como é seu dia de folga, programa detalhadamente seu dia. Coisas como jogar squash com o amigo, fazer comprar e preparar um jantar em família - jantar idealizado para aparar arestas entre sua filha e o avô. Tudo calculado com extrema lógica e razão.
Quando sai de casa para o jogo, percebe que o trânsito de Londres está em caos. Várias ruas estão fechadas devido a uma manifestação de quase um milhão de pessoas contra a invasão do Iraque que está prestes a ocorrer. Numa das ruas, bate seu carro em outro automóvel.
Seria um pequeno acidente, sem feridos e poucos danos. O problema é que os ocupantes do outro carro querem espancar Henry como forma de esporte. Para se livrar da situação, ele utiliza seu conhecimento neurológico. Isso porque percebe que o líder de seus agressores, pelo comportamento e sintomas, sofre de uma doença genética degenerativa fatal. Em outras palavras, está próximo da morte.
Conversando sobre a doença com o agressor, Henry consegue safar-se do episódio e seguir seu dia. Não segundo o programado, pois o fato abala totalmente suas certeza das coisas. Ele terá a oportunidade de entender que, embora tenha o total domínio e controle dos cérebros humanos numa sala de cirurgia, esse domínio não existe fora do hospital. E isso não será, para seu entendimento, algo muito fácil. E a violência torna-se o caminho mais curto.
Em ''Sábado'', Ian McEwan desenha um personagem repleto de certezas lógicas e científicas. Fechado em sua vida bem sucedida, imagina que o resto do mundo é uma extensão de seus procedimentos. Uma figura que não bate na porta do mundo para saber o que realmente está acontecendo. Talvez, por isso, o mundo decide bater na sua porta particular para não só ver o que realmente está acontecendo, mas para realizar uma desorganização em sua vida extremamente ordenada e segura.
Nascido em 1948, Ian McEwan é um dos escritores mais cultuados em seu país. Invariavelmente, seus romances caminham por caminhos distintos. Sua diversidade temática é acompanhada de uma variação de linguagem. Histórias repletas de corredores sutis que permeiam narrativas que trabalham a densidade com clareza.
A história narrada em ''Sábado'', apesar a assinalar que mudanças, para uma maior compreensão da vida, são necessárias, deixa claro que nem sempre elas acontecem. Um amplo leque de situações pode impelir às mudanças, mas isso não significa que elas ocorram. A realidade, por mais íntima que seja, não cabe na palma da mão. E se um dia é uma odisséia na vida de um homem, isso é mais visível quando ele bate na porta do mundo, ou quando o mundo bate em sua porta.

Serviço:
''Sábado'' de Ian McEwan, Editora Companhia das Letras, tradução de Rubens Figueiredo, 340 páginas, R$ 47,00.

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