LEITURA - O mistério dos detalhes
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de julho de 2006
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A melhor maneira de descrever o pensamento de Felisberto Hernández é a imagem uma estátua. A estátua de uma pessoa qualquer depositada numa praça qualquer de uma cidade qualquer.
Considerando que a estátua representa determinado personagem, pode-se afirmar que ela não representa a si própria. Representa outra coisa. Por ser uma estátua, não teria a mínima condição de compreender a figura que representa. Ou seja, desconhece completamente aquilo que as pessoas acham que ela é.
Assim, só os pombos seriam capazes de entender a estátua. Os pombos que pousam em seu corpo compreendem aquilo que ela é, não o que representa. Seja para descansar ou depositar fezes, os pombos seriam os únicos seres capazes de entender a verdadeira identidade da estátua.
Na verdade não só os pombos, mas também o escritor uruguaio Felisberto Hernández (1902 - 1964) vislumbrou que uma estátua não tem a mínima idéia do está fazendo num praça qualquer de uma cidade qualquer. Ela desconhece o que representa aos olhos humanos e justamente por isso converte-se em algo interessante. E independente da realidade.
Hernández transformou essa idéia em histórias insólitas, onde o estranhamento pode ser comparado ao ar que movimenta os pulmões. Criou uma espécie de ''literatura das coisas'', um método narrativo excêntrico e particularizado, onde os fatos são encarados como observações desprovidas de certezas.
''O Cavalo Perdido e Outras Histórias'', seu primeiro livro publicado no Brasil, é uma ótima oportunidade do leitor entrar em contato com uma literatura onde o chão está localizado no teto. Os contos do escritor trazem a peculiar característica de transformar, por meio do convencimento limpo, o chamado ''fantástico'' em matemática imprecisa do pensamento humano.
Lançado pela Editora Cosac Naify, ''O Cavalo Perdido e Outras Histórias'' é uma coletânea de contos selecionados de três obras de Felisberto Hernández. Sendo um autor que publicou poucos livros, a edição oferece um claro panorama de sua arte literária.
Antes de ser escritor, Hernández foi músico. Passou grande parte da vida percorrendo o interior do Uruguai e da Argentina tocando piano em teatros minúsculos e bares enfumaçados. Como a grana era pouca, associava a profissão de músico com a de caixeiro-viajante pelas cidades por onde passava.
Levando uma existência nômade, passava grande parte do tempo em pensões baratas e quartos solitários de hotéis sem estrelas. Enquanto pianista, publicou três volumes de contos. Sua literatura começou a despertar interesse nos leitores uruguaios justamente no período em deixou de encontrar lugares para tocar. Aos 40 anos de idade, vendeu seu único piano e abandonou definitivamente a música. Passou então a se dedicar à literatura.
Segundo a lenda, Felisberto Hernández não tinha o hábito da leitura. Leu, ao longo da vida, poucos livros. E, mesmo assim, era extremamente bem informado. Toda sua informação literária e filosófica era coletada em mesas de bar, conversando com amigos pelas madrugadas. Algo que talvez justifique o fato de sua narrativa não estar baseada em nenhuma teoria literária.
Em suas histórias é possível encontrar uma jovem que se apaixona pelo balcão de uma sacada de um quarto, um homem que cultiva uma planta sobre a cabeça, uma mulher que constrói uma casa para permanecer inundada pelas águas, um lanterninha de cinema que passa a ter luz própria sem a necessidade da lanterna, um sujeito que faz das lágrimas seu produto comercial, etc.
Muito mais que situações inusitadas, contempladas com força onírica, as histórias criadas por Hernández trabalham com o lado misterioso do humor. Um lado pouco utilizado pelo humor, um lado complexo e quase do melancólico. O grande peso das narrativas reside não na descrição dos acontecimentos, mas na maneira como o narrador percebe os acontecimentos. E o narrador, na grande maioria dos contos, possui uma única estrutura, uma única personalidade.
Esse narrador, que não se preocupa em trocar de roupa de uma história para outra, caminha sempre numa tentativa de definição. Algo que se apresenta como improvável. Sempre solitário, lúcido ou enlouquecido, nunca está interessado em sinalizar as fronteiras entre imaginação e realidade. Seu interesse não está naquilo que as coisas representam, mas naquilo que as coisas pensam sobre suas próprias vidas. Um conteúdo que só os detalhes é capaz de revelar.
É possível encontrar nos contos de Felisberto Hernández semelhanças à literatura de dois autores brasileiros igualmente providos de pensamento próprio: Murilo Rubião e Campos de Carvalho. Imaginar os três numa mesa de bar é uma história a ser escrita com os pés no teto.
Serviço:
- Livro ''O Cavalo Perdido e Outras Histórias'', de Felisberto Hernández. Editora Cosac Naify, seleção, tradução e posfácio de David Arrigucci Jr, prólogo de Julio Cortázar, 232 páginas, R$ 45,00.


