Belvedere. A palavra pode parecer um pouco estranha e um tanto exótica. Mas se ajusta como luva no novo livro do poeta carioca Chacal. Belvedere é o nome que se dá aos lugares altos onde é possível apreciar uma ampla paisagem. Uma espécie de mirante onde os olhos ganham asas espaço afora.
''Belvedere'', lançado pela Editora Cosac Naify em parceria com a Editora 7 Letras, reúne toda a produção de Cachal. De seu primeiro livro, ''Muito Prazer, Ricardo'', publicado em 1971, ao último, ''A Vida é Curta Para Ser Pequena'', de 2002. Ao todo, onze livros, além de poemas inéditos produzidos recentemente, integram a edição extremamente bem cuidada. Uma reprodução fac-similar de ''Quampérius'', de 1977, também integra o volume.
Nascido em 1951, Chacal foi um dos expoentes da Geração Mimeografo e de Poesia Marginal, movimentos que na década de 70 rejuvenesceram a literatura brasileira. Além de atuar como letrista, foi um dos responsáveis pela disseminação prática de converter a poesia oral em shows de rock. Mais que um devido merecimento, ''Belvedere'' é uma oportunidade ímpar para se conhecer da maneira mais abrangente possível a literatura de Chacal. A seguir o poeta fala à Folha2 sobre o livro.

Olhando do alto, como se estivesse num mirante, como você vê ''Belvedere'', livro que reúne sua produção criada ao longo de mais de três décadas?
Cada vez que ouço essa pergunta, me dá vontade de ler de novo o livro. A gente muda de opinião ao sabor do vento. Mas da última vez que li, uns meses atrás, gostei bastante. É como se eu tivesse construído um lugar que o viajante que por lá chegasse, usasse minhas lentes para ver o panorama. Tomara que ele também ache a vista legal.

Seria possível traçar uma linha de condução poética de entre os versos de seu primeiro livro e do último? Qual seria ela?
O primeiro, eu tinha 20 anos. Os últimos poemas, que abrem o ''Belvedere'', eu já tinha 56. Creio que o fôlego mudou um pouco. Os poemas mais recentes são mais estruturados, menos urgentes. Talvez mais vividos e construídos. Menos espontâneos. Mas acho que uma leveza, uma busca de humor e humanidade, estão sempre presentes.

Seus poemas estabelecem uma relação estreita entre vida e literatura, uma relação de reforça a idéia do poeta em tempo integral. Que tipo de relação você estabelece entre vida e arte?
Creio que o poeta não deva ser só o músico ou o pintor, isto é, não deve carregar para dentro do poema apenas a sonoridades harmônicas ou imagens exuberantes. Se esses recursos não estiverem imantados com a experiência de vida, com o desejo de aperrear a existência, o poema é apenas um bibelô, jogo de palavras, barulho em quadrinhos. Acho que ser é conhecer e esse aprendizado deve ser compartilhado com o outro, elipticamente, através do poema.

Por um bom tempo você foi classificado como um dos grandes expoentes da chamada Poesia Marginal. Hoje você se incomoda ou se sente à vontade em ser chamado de ''poeta marginal''?
Acho legal porque é radical e verdadeiro. O poeta é por excelência, um marginal. Está fora da esfera da mercadoria, do código de barras.A indústria cultural o esnoba. E ele ali, marginal, radical. Ele trabalha as raízes da linguagem, como diz o Décio Pignatari. Não sou do parnaso, nem concreto. Sou marginal, assim na vida como na arte. Minha bicicleta é roubada.

O que pode surgir pela frente depois de ''Belvedere''?
O juízo final. Ou então, um livro infantil. Ou então, um livro de amor escrito a quatro mãos. Ou ainda, um DVD. Tudo poderá acontecer. Mas agora ganhei um prêmio da Petrobras para escrever minhas memórias de 36 anos dessa vida de ''outsider''. O livro se chamará ''Uma História à Margem'', projeto para 2008.


Poemas de Chacal que integram ''Belvedere''

RÁPIDO E RASTEIRO
vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir para parar.

aí eu paro
tiro o sapato
e danço o resto da vida.
(1971)



SETE PROVAS E NENHUM CRIME
Havia a mancha de sangue no jaleco
E nenhum corpo
Havia o olhar rútilo, o rosto crispado
E nenhum motivo
Havia o cheiro impregnado no copo
E nenhuma digital
Havia o vírus, o bilhete, a arma branca
E nenhum assassinato
Havia em vão a confissão
E nenhum ilícito
Havia a cadeira de rodas vazia
E nenhum suspeito
Havia um gato emborcado no aquário
E peixe nenhum
(2007)


Serviço
- Livro ''Belvedere'', de Chacal. Editora Cosac Naify/7 Letras, 384 páginas, capa dura, encarte com fac-símile de ''Quampérius'', R$ 55,00.

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