LEITURA - O mal sob o cobertor
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de janeiro de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Vamos supor que o bem o e mal sejam duas calçadas de uma mesma rua. Uma rua normal, com habitantes comuns e crianças brincando de correr de um lado para outro. Vamos supor que essas crianças, no meio da brincadeira, caíssem num buraco existente na calçada do mal.
Diante dessa situação, qual seria o gesto mais adequado? Retirar as crianças dos buracos, levá-las para o outro lado da rua e cuidar de suas feridas? Ou destruir imediatamente a calçada com marretadas e, em seguida, jogar toneladas de concreto forte e espesso?
Esse tipo de discussão poderia estar presente em qualquer congresso de psicologia social, mas ela aparece inesperadamente num romance policial. Mais exatamente em ''Gone, Baby, Gone'', do escritor norte-americano Dennis Lehane, lançado pela Editora Companhia das Letras.
Nascido em Boston em 1963, Dennis Lehane vem produzindo livros surpreendentes dentro do gênero policial. Tornou-se mais conhecido quando seu romance ''Mystic River'' foi transformado em filme por Clint Eastwood com o título de ''Sobre Meninos e Lobos''. Fazendo uso de enredos complexos e personagens psicologicamente intrincados, ocupa hoje lugar de destaque entre os autores do gênero.
Em ''Gone, Baby, Gone'' é mais um volume da série protagonizada pelos detetives particulares Patrick Kenzie e Angela Gennaro da série já foram publicados no Brasil ''Um Drink Antes da Guerra'' (2001), ''Apelo às Trevas'' (2003) e ''Sagrado'' (2004). Dessa vez o casal recebe como incumbência encontrar uma criança de quatro anos desaparecida misteriosamente da casa da mãe. Um caso que a polícia não consegue solucionar.
Durante a investigação, Patrick e Angela descobrem dois grupos distintos de sequestradores de crianças na região. De um lado estão maníacos pedófilos que raptam crianças com o objetivo de violentá-las sexualmente, torturá-las com crueldade e assassiná-las com frieza sanguinárias. O objetivo desses ''serial killers'' é apenas satisfazer suas perversidades mais nojentas e provocar o máximo de dor às crianças capturadas.
De outro lado está um grupo de pessoas que raptam crianças que estão sendo espancadas cotidianamente pelos pais, sistematicamente torturadas emocionalmente, mal-amadas e desprezadas. O objetivo é entregá-las sob a proteção de uma nova família, proporcionar a elas uma nova vida onde estejam protegidas e sejam amada e bem tratadas.
Impelidos em agir com base na justiça das leis estabelecidas, Patrick e Angela decidem, depois de dolorosa dúvida, entregar à polícia os dois grupos. Mesmo sabendo que um deles trabalha friamente pelo mal, e outro conscientemente pelo bem. Mas, depois de agirem adequadamente, conforme as leis, são atropelados por uma sutil dor na consciência por terem impedido a possibilidade do bem.
Em ''Gone, Baby, Gone'', Lehane coloca o mal sempre sob um cobertor. Deixa claro que ele existe, mas oculto. Sugere que não podemos enxergar o mal em si, mas apenas as formas nas quais se manifesta. E essas formas, quando retiradas debaixo do cobertor e colocadas à luz do sol, tornam-se um pontapé no estômago.
Da mesma maneira, o bem também aparece sob uma outra coberta. Em situações onde não podemos enxergá-lo, nem apenas desconfiar de sua existência. Assim, surge um paradoxo: as leis criadas para punir o mal também podem evitar o bem.
Serviço:
- Gone, Baby, Gone, de Dennis Lehane. Editora Companhia das Letras, tradução de Luciano Vieira Machado, 472 páginas, R$ 44,50.


