Provocativo e polêmico, Michel Houellebecq sempre se meteu em encrencas literárias. Uma atrás de outra. Um dos nomes da literatura francesa contemporânea, arrasta atrás de si uma legião admiradores. Também arrasta, simultaneamente, uma legião de inimigos que querem ver sua pele esticada ao sol.
A mais recente encrenca surgiu após a publicação de seu mais recente romance, ''O Mapa e o Território'', em 2010. A legião de inimigos o acusaram de plágio e picaretagem por ter reproduzir no livro trechos literais da Wikipedia, de guias turísticos, de folhetos de publicidade, de manuais de automóveis e outras coisas mais. A velha tática do ''Ctrl C e Ctrl V''. Apesar de todo o bate-boca, a obra ganhou o Prêmio Goncourt 2010, o mais cobiçado prêmio literário da França.
Lançado pela editora Record, ''O Mapa e o Território'' chega esta semana às livrarias brasileiras para deixar claro que toda a polêmica se resume em muito barulho por nada. Michel Houellebecq insere no romance trechos chupados da internet, e chega até citar algumas fontes no final do livro. Mas faz isso com uma ironia latente, com um cinismo tão casca grossa, que fica evidente que seu objetivo é justamente criticar o mundo atual com suas toneladas de informações disponíveis. O real entra na ficção sem nenhuma maquiagem.
Em ''O Mapa e o Território'', Houellebecq narra a história de Jed Martin, um jovem artista plástico francês que, de um dia para o outro, vê sua obra valer milhões. Sua primeira exposição individual consiste em uma série de fotografias de mapas rodoviários e guias turísticos. Esses mapas e guias que qualquer pessoa encontra nas bancas de jornal. Sob o conceito de que ''o mapa é mais interessante que o território'', consegue se tornar o queridinho do mercado de arte.
Em seu trabalho posterior, começa a pintar quadros que retratam as profissões em processo de extinção do mundo contemporâneo. E convida Michel Houellebecq para escrever o texto do catálogo da exposição. Como o escritor está sem grana, aceita o trabalho. E assim tem início uma relação entre um velho e pessimista romancista e um jovem artista que não tem muita noção do que é o ser humano.
É exatamente isso. O escritor também é personagem do romance. Com mais cinismo casca grossa, Houellebecq desdenha de si mesmo se auto-retratando como um ser humano insuportável, imerso em seu mundo e sua literatura, rodeado de inimigos imbecis. E vai além: cria um assassinato de si mesmo, um crime coberto de horror e violência. Sem nunca deixar de ser um personagem secundário, mata na ficção a real ''entidade literária Michel Houellebecq''. A ironia das ironias.
''O Mapa e o Território'' é um retrato da França e de toda a Europa após todas as transformações das últimas décadas. As recentes crises econômicas, por exemplo, aparecem chutando para a sarjeta todo e qualquer idealismo. A grana toma o poder. E o mal-estar que a satisfação pessoal diante do caos traz, começa a ser convertido no novo prato de um novo restaurante.
Paralelo a esse retrato, há o desenho da trajetória de duas gerações, a de Jed Martin e a de seu pai. O resultado é interessante. De um lado há o pai de origens humildes que, durante a juventude, trocou seus sonhos pelo dinheiro. De outro o filho, que só conheceu a riqueza e nunca teve sonhos, nem na juventude. E é justamente esse sujeito, que nunca teve sonhos, que produz uma das artes mais valiosas do mundo.
Em se tratando de Houellebecq, era de se esperar um final dos mais pessimistas para ''O Mapa e o Território''. Tipo a humanidade não tem saída, fracasso eterno, a modernidade é um grande erro, a velhice é uma condenação, etc. Mas, por incrível que pareça, há alguma compaixão no encadeamento final da narrativa. Ela não aparece com todas as letras, mas está lá, travestida de poesia conceitual. Lá onde a satisfação deixa de ser mal-estar para se tornar solidão.
Nascido em 1956, Houellebecq possui outros quatro romances publicados no Brasil: ''Partículas Elementares'' (Sulina, 1999), ''Extensão do Domínio da Luta'' (Sulina, 2002), ''Plataforma'' (Record, 2002) e ''A Possibilidade de Uma Ilha'' (Record, 2006). Todos com alguma encrenca literária.

Serviço:
- ''O Mapa e o Território''
Autor - Michel Houellebecq
Editora - Record
Tradução - André Telles
Páginas - 402
Quanto - R$ 49,90

Fragmento:
O enterro estava marcado para a segunda-feira seguinte. O escritor deixara indicações muito precisas nesse sentido, as quais depositara em cartório acompanhadas do dinheiro necessário para sua execução. Não desejava ser cremado, e sim, muito tradicionalmente, sepultado. ''Desejo que os vermes libertem meu esqueleto'', esclarecia, autorizando-se uma interferência pessoal num texto, não obstante, de feição claramente oficial: ''sempre mantive excelentes relações com meu esqueleto e me apraz que ele se alforrie de sua servidão.'' (...)
Havia agora cinquenta pessoas reunidas. No momento em que os funcionários retiraram o caixão, um murmúrio de consternação e horror percorreu a multidão. Os peritos da Polícia Científica se deram ao extenuante trabalho de juntar os retalhos de carne espalhados na cena do crime, agrupá-los em sacos hermeticamente vedados e os expedirem, com a cabeça intacta, para Paris. Uma vez concluídos os exames, o conjunto não formava senão um montinho compacto, com volume bastante inferior ao de um cadáver humano comum, e os funcionários da funerária julgaram adequado usar um caixão de criança.

(Fragmento de ''O Mapa e o Território'' de Michel Houellebecq)

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