LEITURA - O maior amor do mundo
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de abril de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Em setembro de 2007 foram encontrados os corpos de um casal numa casa de campo na região de Paris. O homem tinha 83 anos, a mulher 82 anos. Após uma breve perícia, descobriu-se que haviam cometido suicídio.
Seria um episódio logo esquecido se não fosse pelo fato de tratar-se do casal Dorine e André Gorz. Um ano antes, André Gorz havia publicado ''Carta a D.'', livro que se tornou um grande sucesso de vendas na Europa. A obra era uma declaração de amor de André à esposa, Dorine, que definhava vítima de uma doença degenerativa.
Publicado no Brasil há algumas semanas pela Cosac Naify, em parceria com a editora Annablume, a obra passou a frequentar a lista dos livros mais vendidos em livrarias brasileiras. Curiosamente, ''Carta a D.'' não é uma obra idealizada para o sucesso. André Gorz escreveu um texto íntimo direcionado à esposa, onde revisita a história de uma relação de amor e companheirismo.
Em ''Carta a D.'', Gorz retrata sua tentativa de entender a matéria-prima do amor, o elemento impalpável que mantém sua união com Dorine ao longo de quase 60 anos. Algo como empurrar o amor num canto e pressionar o corpo contra ele. Algo como querer ver o amor de perto, além das aparências, além da superfície, além das embalagens. Tirar seus vestidos, suas camisas, saias, calças e sapatos. Retirar sua maquiagem, suas tinturas, implantes e neuroses. Deixá-lo nu, desprovido de artifícios. E se essa nudez se revelar insuficiente, ir além. Tirar a pele do amor, remover seus músculos, órgãos e humores. Tocar seus ossos, entrar em seus olhos. Atingir o lugar onde tudo se torna impalpável.
Paralelamente, André Gorz também retrata a tentativa de entender as questões sociais em que esteve envolvido ao lado de Dorine, da década de 50 aos dias atuais. Filósofo e jornalista, André iniciou suas atividades teóricas com trabalhos sobre o Marxismo-Existencialista. Participou ativamente dos episódios de Maio de 1968 e, em seguida, desenvolveu as bases para aquilo que passou a ser conhecida como Ecologia Política.
A doença da esposa, provinda de um erro médico, provocou uma série de mudanças no pensamento de Gorz. Ele passa a entender que os princípios revolucionários, os fundamentos teóricos e as questões sociais não podem gerar inteligência sem a ajudo da intuição e do afeto. Essa trajetória está presente de maneira reveladora nas páginas de ''Cartas a D.''.
A determinação em permanecerem juntos, unidos, num pacto de amor, não confere à doença um caráter trágico. Abre, na verdade, novos paradigmas, novas experiências acompanhadas de novos pensamentos. E isso faz com que a vida receba novos sentidos, novos sabores. Mesmo quando tudo aparece soterrado pela dor.
Nas entrelinhas da obra, Gorz deixa transparecer que não conseguira permanecer vivo sem Dorine. Desvela um pacto de amor que possui o desenho de um pacto de vida. E quando a morte voluntária começa a operar na mente, quando o corpo não tem espaço para ainda maiores dores, não há necessidade de lágrimas. Há uma espécie de compreensão que transforma a vida não numa sucessão de instantes, mas um contínuo estado de ser.
A idéia de amor durável, para a vida toda, é colocada abertamente, sem pieguice. Um ideal praticamente obsoleto nos dias atuais, deixa de ser uma abstração para se transformar em realidade palpável. Basta imaginar um senhor, com mais de 80 anos, sentado numa cama, ao lado da amada, proferindo as seguintes palavras: ''Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher''.
SERVIÇO
- Carta a D. - História de um Amor
Autor - André Gorz, tradução de Celso Azzan Jr.
Editora - Annablume/Cosac Naify
Páginas - 80
Quanto - R$ 29
Ao longo dos três meses que se seguiram, pensamos em casamento. Eu tinha objeções de princípios, ideológicas. Para mim o casamento era uma instituição burguesa; eu considerava que ele codificava juridicamente e socializava uma relação que, sendo amor, ligava duas pessoas no que elas tinham de menos social. A relação jurídica tinha a tendência, e até mesmo a missão, de se tornar autônoma no que se refere à experiência e aos sentimentos dos parceiros. Eu dizia: O que nos prova que, em dez ou vinte anos, nosso pacto para a vida inteira corresponderá ao desejo do que teremos nos tornado?.
A sua resposta era incontornável: Se você se une a alguém para a vida inteira, os dois estão pondo em comum sua vida e deixarão de fazer o que divide ou contraria a união. A construção do casal é um projeto comum aos dois, e nunca terminarão de confirmá-lo, de adaptá-lo e de reorientá-lo em função das situações que forem mudando. Nós seremos o que fizermos juntos.
Fragmento de Carta a D. História de um Amor de André Gorz


