Certo dia, numa pequena ilha do oceano Pacífico, o comandante de um navio comercial descobre uma nova espécie de salamandra gigante. Diferente de outras salamandras, os animais possuem o tamanho de uma pessoa de baixa estatura e andam eretas com as patas traseiras. Dotadas de uma inteligência ímpar, passavam os dias sob as águas e as noites em terra firme.
Em pouco tempo o comandante percebe que acaba de descobrir uma preciosidade. Com uma capacidade mental nunca vista num animal, as salamandras rapidamente aprendem a falar como os seres humanos, manipular instrumentos e executar operações matemáticas.
Esta história pode até parecer ficção científica, mas vai muito além do gênero. Ela foi criada pelo escritor tcheco Karel Capek em 1936 no romance ''A Guerra das Salamandras'', obra que se tornou um clássico da visão catastrófica do futuro da humanidade.
Geralmente ''A Guerra das Salamandras'' é comparada a outras emblemáticas obras do século 20, como ''1984'' de George Orwell (1903 - 1950) e ''Admirável Mundo Novo'' de Aldous Huxley (1894 - 1963). As três desenham uma perspectiva de futuro para a humanidade nada otimista. Mas apenas ''A Guerra das Salamandras'' segue a veia satírica. Com humor, Karel Capek expõe o ridículo das aspirações humanas, da política à ciência, da economia à religião.
O romance acaba de ganhar uma nova edição lançada pela editora Record, a primeira com tradução realizada diretamente da língua tcheca. A edição anterior, lançada pela editora Brasiliense em 1988, trazia uma tradução realizada a partir da versão de língua inglesa da obra.
Na ficção idealizada por Karel Capek, o comandante do navio responsável pela descoberta das salamandras transforma os animais em mão-de-obra barata para a coleta de pérolas no fundo do mar. Em sociedade com um grande empresário, funda uma corporação onde as dóceis salamandras são a principal força de trabalho. Como pagamento pelos serviços prestados, os animais só esperam uma ração diária.
Quando a exploração de pérolas entra em processo de esgotamento, a corporação lança um empreendimento promissor: a venda de salamandras para serem utilizadas como operárias de fábricas e construções civis. Assim se inicia uma nova fase histórica, com um boom econômico sem precedentes.
O principal projeto dos países está em ampliar seus limites territoriais. Não através de invasões de países vizinhos, mas no aterramento dos oceanos graças ao trabalho escravo das salamandras. Quando todos os problemas estão resolvidos pela revolução da economia industrial do planeta, as salamandras resolvem se revoltar contra os homens. Assim tem início a guerra.
Para retratar todo esse processo, Karel Capek utiliza todas as formas narrativas possíveis: narrador principal, narrador secundário, cartas, artigos, ensaios, teses, recados, reportagens, telegramas, recorte de jornais, tratados, discursos, relato de aventura, atas, comunicados, etc. Há todo tipo de visão dos fatos, todo tipo de interpretação dos conhecimentos. Até mesmo o narrador principal entra em crise diante de tantas abordagens e chega a admitir que não tem ideia de como concluir o romance.
O que surpreende em ''A Guerra das Salamandras'' é a capacidade do autor em antever grande parte dos acontecimentos que se desenrolariam ao longo de todo século 20. E de maneira satírica. Está tudo lá, página após página: a ascensão capitalista, os conflitos entre países, a Segunda Guerra Mundial, o nazismo, o holocausto, a corrida armamentista, o totalitarismo, o racismo, a Guerra Fria, desastres ambientais, aumento do nível dos oceanos, etc.
Karel Capek (1890 - 1938) satiriza tudo e todos. Revela que o grande problema da humanidade é o próprio homem. O ser humano estaria condenado a ser um idiota em nome do poder. Seja o poder econômico, político, bélico, religioso, científico ou qualquer outro.
Karel Capek (a grafia de seu sobrenome pode aparecer, em alguns lugares, como ''Tchápek'' ou com acentos inexistentes na língua portuguesa) tem um currículo de visionário. Foi ele o criador do conceito e do termo 'robô', em 1920, numa peça teatral chamada R.U.R. (Rossum's Universal Robots). A peça focalizava uma fábrica que funcionava com a automação dos funcionários transformados em homens artificiais. A própria palavra 'robô' é derivada da palavra tcheca 'robota', que significa trabalho forçado, ou trabalho muito penoso.
Não seria exagero afirmar que ''A Guerra das Salamandras'' não ganhou fama de ''1984'' e de ''Um Admirável Mundo Novo'' por investir no gênero sátira. O autor não investiu numa narrativa séria e sisuda de um futuro catastrófico. Apostou numa tiração de sarro de tudo e de todos. Tudo para mostrar como é descaradamente ridículo o ser humano, independente de país, nação, raça, época ou credo.
Serviço:
A Guerra das Salamandras
Autor - Karel Capek
Editora - Record
Tradução - Luis Carlos Cabral
Páginas - 336
Quanto - R$ 39,90
Fragmento:
- Você viu asa ostras?
- Sim, e vi demônios.
- Quantos?
- Milhares e milhares. São do tamanho de uma criança de 10 anos, senhor, e quase negros. Nadam na água e andam levantados no leito do mar. Com as duas patas, como o senhor ou eu, senhor, mas ao mesmo tempo vão contorcendo o corpo, assim, assim, sempre assim... Sim, senhor, eles também têm mãos, como as pessoas. Não, não são garras, parecem mais mãos de crianças. Não, não têm chifres nem são peludos. Sim, a cauda é um pouco parecida com as dos peixes, mas sem barbatanas. E uma cabeça redonda como a dos bataques. Não, não diziam nada, senhor, mas era como se estalassem a língua.
(Fragmento de ''A Guerra das Salamandras'', de Karel Capek)

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