Na última semana vários filmes que concorrem ao Oscar 2008 entraram em exibição nas salas de cinema do território brasileiro. Entre eles, ''Onde os Fracos Não Têm Vez'', obra dos irmãos cineastas Joel Coen e Ethan Coen. O filme concorre ao prêmio em oito categorias, entre elas, melhor filme, direção, roteiro adaptado e fotografia.
Em se tratando da selvagem indústria cinematográfica norte-americana, um elemento pouco divulgado está no fato do filme ser baseado num romance de Cormac McCarthy. Em várias entrevistas de divulgação de ''Onde os Fracos Não Têm Vez'', os irmãos modestos Coen fizeram questão de afirmar que se o filme conquistar algum sucesso, todo mérito deve ser atribuído a McCarthy e a história criada por ele.
Nascido em 1933, Cormac McCarthy é um dos escritores mais representativos da literatura norte-americana das últimas décadas. Seu universo literário segue a tradição de que o espaço determina o destino dos homens, a tradição que evidencia o papel determinante do deslocamento geográfico no destino existencial dos homens. Seja o espaço externo, a geografia natural, a sazonalidade, ou mesmos as intempéries, os elementos que distinguem o ambiente são tratados como personagens determinantes da narrativa.
Seu primeiro livro publicado no Brasil, ''Meridiano Sangrento'' (Nova Fronteira, 1991), atualmente só encontrado em sebos, narra a história de um jovem vagando pelo velho oeste sob um cavalo. Um garoto sem passado em busca do destino. Ao juntar-se a um bando que ganha dinheiro matando e escalpelando índios, entra num vórtice de sangue e violência de sentido pueril. Impregnados pela matança, o bando passa a roubar e encher de bala qualquer pessoas que apareça pela frente, seja homem, mulher ou criança. Uma história onde existe mais sangue derramado na terra do que nas veias de seus habitantes.
Em seguida aportaram nas livrarias sua ''Trilogia da Fronteira'' com os romances ''Todos os Belos Cavalos'' (Companhia das Letras, 1993), ''A Travessia'' (Companhia das Letras, 1999) e ''Cidades da Planície'' (Companhia das Letras, 2001). Nas três obras é possível encontrar a síntese da literatura de Cormac McCarthy: a história dos homens é a busca de um destino que nunca pode ser encontrado. Em outras palavras, a vida humana seria, sem fantasias, o caminhar em direção a algum lugar e de maneira nenhuma chegar a este lugar.
Atravessando os três romances, há uma atmosfera ''western'' onde dividem o mesmo espaço cavalos, americanos, lobos, pradarias, índios, desertos e mexicanos. Histórias de homens que não conseguem ficar parados, simplesmente seguem o impulso de seguir como andarilhos que nunca dormem num mesmo lugar. Histórias de homens que conseguem viver apenas em espaços abertos, dormindo no chão ao lado da fogueira, comendo quando há comida, bebendo quando encontram água.
Cormac McCarthy é um autor que louva os espaços abertos da natureza. Nenhuma de suas histórias acontecem entre quatro paredes. Poeira, lama, sol e chuva assumem a forma de moradia. Nenhum de seus personagem permanecem por mais que alguns minutos sob um teto, por mais que alguns segundos sentado numa cadeira. Todos são rudes a ponto de considerar detalhe emoções que a civilização classificou como norma.
''Onde os Velhos Não Têm Vez'', romance de McCarthy que deu origem ao filme dos irmãos Coen, recebeu sua edição brasileira em 2006, lançado pela Editora Objetiva. Apesar de títulos brasileiros diferentes entre livro e filme, o original de ambos é o mesmo, ''No Country For Old Men''.
A obra, ambientada na fronteira dos Estados Unidos com o México dos anos 80, narra o encontro acidental entre três homens permeado de suspense e violência. Tudo começa quando um caçador encontra, no meio do deserto, um carro repleto de homens com as cabeças estraçalhadas por balas. Junto aos corpos, um pacote de heroína e uma mala recheada de dólares.
O caçador, num ímpeto, se apropria do dinheiro e de uma hora para outra troca de papel. De caçador se transforma em caça. No jogo entra a figura de um psicopata sanguinário contratado pelo tráfico de reaver os dólares. Entra também a figura de um xerife encarregado da investigação do caso. Assim, tudo passa a ser uma infindável e violenta perseguição onde o destino de cada personagem é arremessado contra a muralha do mais simples sentido de existir.
Mesmo abandonando a noção de tempo presente em grande parte de sua obra, ''Onde os Velhos Não Têm Vez'' mantém o eterno trânsito de personagens. O deslocamento espacial, a descrição de grandes espaços geográficos, a relação desprovida de futuro que as figuras operam em suas mentes, são características que permanecem inalteradas.
O mais recente romance de McCarthy, ''A Estrada'', lançado pela Editora Objetiva em 2007, segue caminho semelhante. Narra a trajetória de um pai e seu filho, como maltrapilhos, vagando por um mundo desolado. Embora a narrativa esteja situada num tempo futuro, onde as pessoas se encarregaram de toda a destruição, apresenta a mesma situação de personagens vivendo em espaço aberto, percorrendo distâncias, andando e andando em busca de algum destino. Um destino que obviamente não se desenha, que não pode ser atingido porque simplesmente não existe.
A literatura de McCarthy retrata códigos exclusivamente masculinos. As mulheres ocupam um mundo a parte, praticamente invisível perante a aspereza do destino dos homens. Esposas, mães, amadas ou filhas, ou qualquer outra personagem feminina, pertencem num universo distante. As histórias criadas pelo autor realizam a opção de ver o mundo a partir de um olhar masculino esculpido pelo lado mais rude da beleza. A ótica de homens em que a violência exerce a função de uma espécie de alfabeto, uma espécie de língua. Onde os homens são necessariamente solitários pelo próprio destino. Mesmo que o destino seja a substituição do aconchego pela brutalidade.
Completamente alheio à mídia, McCarthy não concede nenhum tipo de entrevista. Autor de mais de uma dezena de romances, foi agraciado com os principais prêmios literários de seu país. Um tipo de escritor que consegue enxergar o mundo com uma peculiaridade onde calor ou frio não fazem a menor diferença. Onde a distinção estaria apenas a sutil diferença do olhar de um homens quem vê outro homem morrer de frio, ou de calor, ou com uma bala nos miolos. O sentido narrativo história não estaria na falência da pulsação do coração, mas no olhar que essa falência.

SERVIÇO:
- ''Todos os Belos Cavalos'', de Cormac McCarthy, Editora Companhia das Letras, tradução de Marcos Santarrita, 272 páginas, R$ 38,50
- ''Cidades da Planície'', de Cormac McCarthy, Editora Companhia das Letras, tradução de José Antonio Arantes, 344 páginas, R$ 42,50
- ''A Travessia'' de Cormac McCarthy, Editora Companhia das Letras, tradução de José Antonio Arantes, 414 páginas, R$ 48,00
- ''A Estrada'', de Cormac McMarthy, Editora Objetiva, tradução de Adriana Lisboa, 240 páginas, R$ 33,90
- ''Onde os Velhos Não Têm Vez'', de Cormac McMarthy, Editora Objetiva, tradução de Adriana Lisboa, 256 páginas, R$ 38,90

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