Imagine uma moça lendo um romance qualquer. Sentada num vagão de trem, ela empreende uma dupla viagem. Viaja através da história narrada nas páginas do livro e, simultaneamente, viaja de um lugar a outro, no interior do trem.
Imagine que esta moça não é uma moça qualquer. Na verdade é personagem de um romance criado por um escritor russo do século passado. Imagine que uma outra moça está lendo o romance, justamente enquanto viaja de ônibus, de Londrina a São Paulo.
Esta segunda moça realiza a mesma dupla viagem que realiza a personagem presente no livro que está lendo. Na realidade ela realiza mais, realiza uma terceira viagem quando percebe que está na mesma situação narrada pelo romance.
Agora pense que você está lendo um texto de jornal que fala sobre uma moça que, enquanto viaja de ônibus, lê um livro que narra a história de uma outra moça que, enquanto viaja de trem, lê um outro romance.
Pense também que este texto que você está lendo no jornal foi escritor por alguém que leu um outro livro. Um livro de ensaios que investiga os labirintos na leitura, uma prática extremamente particular e, justamente por isso, capaz de tecer múltiplos caminhos. A própria síntese da natureza da leitura é uma esfera espiralando nos glóbulos dos olhos.
''O Último Leitor'', livro que ocupa de maneira provisória a última curva do labirinto, reúne seis ensaios do escritor argentino Ricardo Piglia. Lançado pela Editora Companhia das Letras, suas páginas investigam as relações mais íntimas entre o leitor e a literatura.
Ricardo Piglia parte do princípio básico de que, mais do que um sentido, a leitura produz uma experiência. E essa experiência tem origem na particularidade que cada leitor estabelece com a leitura. Seria impossível criar distinções claras e objetivas sobre a relação que nasce a partir da experiência da leitura, devidamente fincada no campo da subjetividade. A amplidão assume as nuvens presente entre uma página e outra.
''A leitura é ao mesmo tempo a construção de um universo e um refúgio diante da hostilidade do mundo.'' Com essa frase, presente em ''O Último Leitor'', Piglia resume os dois maiores movimentos provocados pela leitura que permanecem visíveis ao longo dos séculos.
Se por um lado a leitura é um isolamento físico, por outro é a construção de um universo mental comum. Sendo uma prática individual, enquanto compreensão particular, a leitura abre todas as possibilidades possíveis para dar vazão a subjetividade da alma. Seria uma forma de fuga para o lugar onde a origem coloca seus ovos.
Em ''O Último Leitor'', Piglia tem como ponto de partida referências marcantes da literatura universal. Percorre a condição de Franz Kafka enquanto leitor a partir das cartas que escreveu, investiga a importância da leitura nos personagens que inauguraram o gênero policial inaugurado por Edgar Allan Poe, percorre a trajetória de Ernesto Che Guevara como solitário leitor em sua jornada revolucionária coletiva. Também passeia pelos corredores da literatura russa de Liev Tolstói e Fiódor Dostoievski. bem como as implicações mitológicas da escrita de James Joyce e muito mais.
Nascido em Buenos Aires em 1940, Ricardo Piglia é um escritores de destaque da literatura argentina contemporânea. Autor de ''Cidade Ausente'' (Iluminuras, 1993), ''Prisão Perpétua'' (Iluminuras, 1989), ''Dinheiro Queimado'' (Companhia das Letras, 1998), ''Nome Falso'' (Iluminuras, 1988) conseguiu unir dois gêneros, ensaio e romance, num único texto, uma característica que demarca sua literatura. Seu primeiro romance, ''Respiração Artificial'', acaba de receber uma nova edição através da Editora Iluminuras.
Na grande maioria dos casos, a leitura é uma experiência íntima. Uma experiência que pode ser dividida, na sequência, com outras experiências particulares. Nos dias de hoje, esta relação está vincula à capacidade do leitor em perceber a capacidade esférica das palavras.

Serviço:
- Livro ''O Último Leitor'' de Ricardo Piglia, Editora Companhia das Letras, tradução de Heloisa Jahn, 202 páginas, R$ 38,00.

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