LEITURA - O lado escuro da cidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de março de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
A violência urbana se tornou um dos temas mais explorados na literatura brasileira das últimas décadas. Dezenas de autores começaram a produzir contos e romances onde a realidade respirava e transpirava sangue. Em seu novo livro, ''Corações de Aluguel'', Márcio Américo se junta a esse grupo. A diferença é que o escritor londrinense optou em abordar o tema da maneira menos usual: através do humor.
Como em seu romance anterior ''Meninos de Kichute'' (Editora Atrito Art, 2003), Márcio Américo ambienta ''Corações de Aluguel'' totalmente em Londrina. A obra é uma espécie de romance policial narrado pela ótica de um criminoso sarcástico e irônico. Um sujeito chamado Beto que ganha a vida vendendo cocaína para estudantes universitários.
Sua maior particularidade está em honrar a palavra dada em qualquer circunstância. Fiel a esse princípio, Beto entra nas enrascadas mais absurdas e hilárias. Para saldar uma dívida com outro traficante, resolve participar de um assalto à mão armada. Para reaver o dinheiro perdido durante a fuga do assalto, resolve participar de um sequestro. A sequestrada, no caso, é a filha de um rico e influente político de Brasília envolvido num escândalo de corrupção.
Em ''Corações de Aluguel'' não há lugar para ''mocinhos''. Todos personagens jogam, nas mais variadas posições, no time dos ''bandidos''. Do submundo mais baixo à mais alta cúpula pública. Seja viciado ou traficante, assaltante ou policial, eleitor ou político.
Com uma narrativa recheada de ação, o romance faz um recorte da realidade utilizando o humor com um pé no cinismo e outro no deboche. Personagens ficcionais percorrem ruas e lugares de Londrina ao lado de figuras reais da cidade. O próprio flerte da ficção com a realidade entra nesse irônico jogo.
Publicado originalmente em novembro de 2007, a obra acaba de ganhar sua segunda edição revisada. Estão programados, para abril, lançamentos em Londrina, Curitiba e Porto Alegre. A seguir Márcio Américo fala sobre o livro.
''Corações de Aluguel foi escrito dez anos atrás. Por que foi publicado somente agora?
Porque só agora um editor interessou-se em me publicar. O Wanderley dos Santos, do selo Demônio Negro (que já publicou Furio Lonza, Silvio Back, Glauco Mattoso), leu ''Meninos de Kichute'' e disse: ''Tem alguma coisa aí? quero te publicar'' E publicou, sem ler, só na confiança.
Qual a diferença entre a primeira edição do livro, lançada em novembro, e a segunda edição, lançada agora?
Revisão. O corpo das letras também foi ampliado. E, sabe como é, bastou eu dar uma lida para mexer, então andei alterando alguma coisinha aqui e ali, mas nada substancial.
O romance é ambientado em Londrina e está repleto de citações de lugares e figuras reais da cidade. O que é ficção e o que é realidade em ''Corações de Aluguel''?
Que irresponsabilidade você me perguntar isto! (risos) Claro, os personagens existem, mas ao se converterem em personagens ficcionais, ganham cores, formas, ficando assim um tanto afastados do protótipo. Mas costumo dizer que o livro é 50% real e 50% ficção. Acho que era chegada a hora de alguém falar do ''dark side'' londrinense. Sobre peroba e terra roxa já tem gente escrevendo, aliás, gente mais gabaritada que eu no assunto.
Beto, o personagem principal, pode ser considerado um bandido que veste a roupa de herói. O que levou você optar por essa escolha no enredo do romance?
Eu não acredito muito em romance inventado, tanto é que nunca pensei em romance capa e espada. O livro representa um momento que vivi, que conheci aquelas pessoas, aquelas atividades. O enredo veio naturalmente. Escrever um livro é uma forma de realizar um desejo.
Beto também possui uma maneira debochada, ácida, irônica e mesmo cínica de encarar realidade. Essa maneira pode ser considerada uma espécie de resposta ao mundo hipócrita à sua volta?
Assim como John Fante ou Angeli, gosto da idéia de ter um alter ego, um personagem que fala por você, que pode ir as últimas consequências para expor suas idéias, nem que seja cortando cabeças. Convenhamos, eu não posso fazer isto. O personagem pode.
A obra está repleta de traficantes debochados, bandidos inconsequentes, jovens iludidos e alienados, policiais e políticos corruptos. Tudo isso é o retrato de época?
Vivi na década de 80 entre o céu e o inferno. Morava numa república de estudantes, num bairro cheio de traficantes e ao mesmo tempo dava trampo para grandes representantes da política nacional, então o livro tem um pouco disto tudo. É o retrato moribundo de uma época. Se bem que ele parece encaixar-se perfeitamente aos nossos tempos. A não ser os bandidos, eles mudaram um pouco.
Na narrativa de ''Corações de Aluguel'' a banalização e gratuidade da violência urbana são retratadas com humor. As peripécias de Beto chegam a ser hilárias. Por que a opção pelo humor para tratar o assunto?
Não creio que seja uma opção, tipo assim, vou escrever um romance, será que faço drama, comédia? Faz parte do meu estilo, aquela coisa que falei de alter ego. Como tenho o humor muito presente em minha personalidade, claro, ele acaba vazando para obra, mesmo que eu nem pense no assunto. E, convenhamos, acho que já tem gente suficiente falando sobre violência com seriedade.
Fragmento de Corações de Aluguel de Márcio Américo
Ela mais parecia uma grouppie de seqüestrador do que a seqüestrada. Sugeriu fazer um foto deitada, de calcinha e camiseta, uma foto sexy o pai dela não publicaria na imprensa, venda nos olhos e na boca uma fita adesiva cinza, daquelas de colar tênis velho. Montamos a cena, ela dirigiu, programou o equipamento, postei-me ao lado, camiseta enrolada na cara. Ela fez várias tomadas, vários ângulos, pôs catchup na boca, pintou a cara, queria cortar o rosto, não deixei.
Chega! Tá legal assim! Porra, isto não é pra Marie Claire!
E o que você vai dizer pra ele?
Me manda a grana até amanhã ao meio-dia ou eu te mando a cabeça de tua filha numa sacolinha do Viscardi...
Jesus! Não gostei!
Você acha que cortar a cabeça é muito forte? Podemos...
Viscardi! Não gostei da sacolinha do Viscardi, minha cabeça numa sacolinha dos supermercados Viscardi... Beto, você tem que pensar grande, o Viscardi é um supermercado essencialmente regional, que levou décadas pra se modernizar, cujo atendimento deixa muito a desejar, uma linha limitada de produtos... acho melhor trocar... que tal: mando a cabeça de tua filha numa sacolinha do Carrefour? Trata-se de um grande grupo francês!
SERVIÇO
- ''Corações de Aluguel''
Autor - Márcio Américo
Editora - Demônio Negro
Páginas - 152
Quanto - R$ 25


