Viktor era muito jovem quando foi empurrado para a Primeira Guerra Mundial pelas mãos da família. Tratava-se de uma honra ceder os filhos para lutarem na frente de batalha. Subiu no trem do exército austro-húngaro com a certeza que não viveria muito tempo. As balas inimigas invadiriam seu corpo em questão de dias.
Viktor percebe que seu destino pode mudar quando um sujeito chamado Dreyer, que viaja no mesmo trem lhe faz uma proposta ousada. Apostariam a vida numa partida de xadrez. Se Viktor perdesse, daria um tiro na cabeça. Se Dreyer perdesse, trocaria de identidade com Viktor, iria morrer no campo de batalha enquanto Viktor ocuparia seu lugar num pacato vilarejo como funcionário de uma estação de trem.
Sabendo que a morte era próxima e não tendo nada a perder, Viktor aceita o jogo. Ganhando do adversário no tabuleiro de xadrez, Viktor torna-se Dreyer, um ferroviário. Dreyer torna-se Viktor, um soldado a caminho do front.
Com o passar dos anos, o perdedor da aposta torna-se herói de guerra, um homem rico e influente. O ganhador, por outro lado, após algum tempo como ferroviário, é recolhido num manicômio com perturbações mentais.
Esse jogo diabólico é apenas o início da trama desenvolvida pelo escritor mexicano Ignacio Padilla no romance ''Amphitryon''. Lançado pela Companhia das Letras, o livro é um verdadeiro labirinto onde falsidades, enganos, trapaças, crimes e jogadas escusas se cruzam para que a realidade se apresente como uma manipulação silenciosa. O jogo se prolonga em grandes dimensões.
''Amphitryon'' traz a narrativa de quatro personagens distintos. Cada um abordando a história segundo suas perspectivas e entendimentos, cada um inserindo novos elementos mais e mais enigmáticos. São homens que fazem do engano e da manipulação a argamassa da História e da existência alheia.
Ao longo das duas guerras mundiais, os personagens fazem da existência um tabuleiro de xadrez. As ações são calculadas com lógica e frieza. Sentimentos e emoções não fazem parte das páginas de ''Amphitryon''. As pessoas não são o que parecem ser, os fatos não representam o que parecem representar, a vida não contém o que parece conter.
Nascido em 1968 na Cidade do México, Ignacio Padilla integrou um grupo de escritores mexicanos que se opunha à febre do realismo mágico que tomou conta da literatura latino-americana após o sucesso de Gabriel García Márquez. Sua conduta era tentar revelar que a literatura poderia ser muito mais diversa se os escritores não ficassem presos a formulas e estilos que rendiam milhares de leitores.
Em ''Amphitryon'', publicado originalmente em 2000, Padilla demonstra que seguiu essa conduta com eficiência. O jogo com a realidade que desenha é repleto de surpresas. Em síntese, faz um retrato da loucura invisível existente nas relações de poder e nas relações humanas. A invisível loucura que faz do engano a matéria-prima da realidade que as pessoas comuns consideram equivocadamente como verdadeira.
Não há verdade em ''Amphitryon''. Há a manipulação da verdade para que ela não tenha a chance de existir. A própria noção de indivíduo como ser dotado de particularidades próprias é sumariamente mandada para o espaço. Ela cede lugar ao envelhecimento da humanidade justamente onde as rugas são consequências do jogo.

Serviço:
- Livro ''Amphitryon'', de Ignacio Padilla. Editora Companhia das Letras, tradução de Rubia Prades Goldoni e Sérgio Molina, 174 páginas, R$ 34,00.

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