LEITURA - O jogo das lágrimas
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de agosto de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Diante de um rosto em lágrimas, qualquer pessoa desaba. Diante de um rosto molhado de lágrimas, todo conflito é suspenso. A lágrima pode ser uma arma fatal. A imbatível linguagem da vítima, seja criança, mulher ou homem. Diante do choro, até o carrasco se comove.
Em seu novo romance lançado pela Cosac Naify, ''História do Pranto'', o escritor argentino Alan Pauls apresenta a trajetória de um garoto que, através da alternância do choro, entende o mundo com maior clareza do que os adultos que o cercam. Através das lágrimas, ou a ausência delas, percebe que o mundo não é exatamente como as pessoas o apresentam.
O romance acontece dentro da cabeça do garoto, em sua consciência que oscila entre a extrema sensibilidade e a ironia cortante. Um dos grandes méritos da obra está na forma narrativa desenvolvida por Alan Pauls. Sua principal característica está na construção de longas frases que, em alguns casos, podem se estender por páginas. Partindo da descrição de fatos, as frases se transformam em descrição de sensações impulsionadas pelos fatos. Abrindo múltiplas rotas através da livre associação, o escritor abre caminho pelo extenso território da digressão.
Alan Pauls chama esses longos períodos de ''frase-droga''. Sua intenção está em fazer o leitor experimentar a mesma sensação do personagem. Nada mais do que induzir o leitor à mesma ''viagem'' de consciência vivenciada pelo personagem. Nada mais do que reproduzir o modo de funcionamento não-linear do pensamento interior e a os mecanismos da memória.
Com outros dois romances publicados no Brasil, ''Passado'' (Cosac Naify, 2007) e ''Wasabe'' (Iluminuras, 1996), Alan Pauls é o escritor argentino mais incensado dos últimos anos. Nascido em 1959 na cidade de Buenos Aires, foi professor universitário e jornalista ao longo dos anos até se dedicar exclusivamente à literatura com o aval de Ricardo Piglia e Roberto BolaÀo.
''História do Pranto'', nas primeiras páginas, pode parecer uma história sentimental, um romance psicológico. Mas essa impressão se pulveriza ao longo das páginas. O autor, na realidade, está apresentando uma história política, focalizando a sombria época da ditadura militar de seu país durante a década de 70. Tudo na visão de um garoto. Um menino que realiza uma leitura do momento histórico de maneira particular, indireta, utilizando como instrumento pequenos detalhes do cotidiano.
Filho de pais divorciados, o garoto vive entre o dia-a-dia com a mãe, os passeios de final de semana com o pai, e as visitas dos avós. Sua consciência passeia pelas mais diversas situações de maneira totalmente corporal, tanto nas questões familiares quanto nas questões políticas. O corpo sempre assume o papel de suporte no entendimento do mundo. Não se sente à vontade do lado dos que choram, como também não se sente bem ao lado dos que fazem chorar. Simplesmente cresce entre esses dois pólos e não se enquadra justamente em nenhum deles, justamente porque pertence a uma outra geração.
Em ''História do Pranto'', a narrativa representa a imagem dessa outra geração, aquela que não se coloca no papel de vítima histórica. Aquela que não deseja chorar pelo passado, mas molhar os olhos de lágrimas pelo que bem entender.
Fragmento de História do Pranto, de Alan Pauls
Numa dessas raras tardes em que sua mãe, graças a uma noite sem pesadelos ou a um coquetel de remédios bem calibrados, decide, para sua surpresa, levá-lo ela mesma para passear na praça, ele se mete no pequeno elevador e se acomoda como pode na brecha que restou livre. É uma fração mínima de espaço, espremida entre a porta e o triciclo que sua mãe, que só teve que torear o veículo uma vez, no dia em que os avós chegaram de imprevisto com ele no apartamento e alguém alguém que não pode ser seu avô, que tem o costume de esgotar sua modesta cota de generosidade na coisa que presenteia e depois se limita a contemplar, como se pertencesse a uma jurisdição alheia, todas as operações verdadeiramente cansativas que o presente desencadeia (...) é o vizinho, o vizinho militar. Ele se desculpa e entra, e com ele, envolvendo-o, um desses perfumes baratos que só a boa vontade, ou o fato de surgirem associados a um corpo, e não a um lugar vazio forrado de azulejos (...)
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SERVIÇO
- História do Pranto
Autor - Alan Pauls
Editora - Cosac Naify
Tradução - Josely Vianna Baptista
Páginas - 92 (capa dura)
Quanto - R$ 29


