LEITURA - O jardim em chamas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
Os portugueses possuem a mania de amar seus poetas só depois de mortos. Fernando Pessoa (1888 - 1935) e Florbela Espanca (1894 - 1930) são os exemplos clássicos. Quando vivos, não eram ninguém. Depois de mortos, se tornaram tudo.
Textos inéditos ainda causam alvoroço em seus fiéis admiradores. Pode ser a despretensiosa anotação de um poema, uma simples carta ou uma trivial receita de bolo, pouco importa, o que interessa é ter nascido das mãos de um deles.
O culto a Florbela Espanca, por exemplo, está recheado de episódios bizarros. Uma das histórias é particularmente sinistra.
Quando os restos mortais da poetisa foram retirados do cemitério de Matosinhos (cidade onde morreu) para serem transferidos para o cemitério de sua cidade natal, Vila Viçosa, um grupo de admiradores invadiu o local e saqueou a sepultura. Uma parte dos ossos de poetisa até hoje se encontra em poder dos fãs.
Para saciar a sede dos fiéis admiradores, a editora Iluminuras está lançando dois livros com a intimidade privada de Florbela Espanca. ''Sempre Tua'' reúne a correspondência amorosa da poetisa entre os anos de 1920 e 1025. ''Afinado Desconcerto'' reúne cartas, contos e fragmentos de seu diário que só se tornaram públicos recentemente. Os dois volumes são organizados pela pesquisadora Maria Lúcia Dal Farra.
A obra poética de Florbela é constituída basicamente de sonetos. Os temas principais são o amor e a morte. Pontuando tudo, uma montanha de dores. As cartas de amor presentes em ''Sempre Tua'' foram redigidas para seu segundo marido, com quem teve uma relação explosiva. Tudo terminou numa discussão na mesa do jantar. Após o bate-boca, Espanca se levantou da mesa, caminhou até a porta, saiu de casa e nunca mais voltou a ver o marido. Partiu apenas com a roupa do corpo. Simplesmente abandonou tudo. Não voltou a colocar os pés na casa. Até seus escritos deixou para trás. Começou uma nova vida literalmente do zero.
Os contos que integram ''Afinado Desconcerto'' fazem parte de um manuscrito esquecido em sua gaveta - grande parte de toda sua obra só foi publicada postumamente. Revelam uma poetisa que, para se aventurar no campo da prosa, realiza a experiência de escrever com o estilo dos prosadores que admira, entre eles Edgar Alan Poe (1809 - 1849).
Florbela d'Alma da Conceição Espanca nasceu em 1894 numa situação pouco comum para a época. Filha de seu pai com uma amante, desde pequena, foi criada pela esposa do pai. Considerada uma mulher independente para os padrões da época, casou-se três vezes, atormentando a Igreja tradicional portuguesa.
Morreu, em 1930, em sua terceira tentativa de suicídio. No dia de seu aniversário de 36 anos tomou uma dose cavalar de soníferos ministrados por seu terceiro marido, que era médico. Ocorreu um incêndio em seu jardim e tudo foi transformado em cinzas. A Igreja impediu que seu corpo fosse sepultado em sua cidade natal como era seu desejo. Fato que seria concretizado apenas 34 anos após sua morte, com a transferência de seus restos mortais após a sinistra pilhagem.
A dor presente em seus sonetos e os dramas presentes em sua biografia diferem do tom presente em suas cartas. É possível encontrar até uma Florbela Espanca bem humorada, sorrindo para os acontecimentos e para a percepção dos sentimentos. Uma mulher tentando viver de sua própria maneira. Com o incêndio batendo na porta.
Serviço:
- ''Afinado Desconcerto - Contos, Cartas, Diário''
Autor - Florbela Espanca
Editora - Iluminuras
Organização - Maria Lúcia Dal Farra
Páginas - 402
Quanto - R$ 56
- ''Sempre Tua - Correspondência Amorosa 1920 - 1925''
Autor - Florbela Espanca
Editora - Iluminuras
Organização - Maria Lúcia Dal Farra
Páginas - 272
Quanto - R$ 44
Fragmentos:
(13/01/1930)
Os olhos do meu cão enternecem-me. Em que rosto humano, num outro mundo, vi eu já esses olhos de veludo doirado, de cantos ligeiramente macerados, com este mesmo olhar pueril e grave, entre interrogativo e ansioso?
(22/01/1930)
Faço às vezes o gesto de quem segura um filho no colo. Um filho, um filho de carne e osso, não me interessaria talvez, agora... mas sorrio a este, que é apenas amor nos meus braços.
(28/02/1930)
Estou tão magrinha! A lâmina vai corroendo a bainha, a pouco a pouco, mas implacavelmente, com segurança. Devo ter por alma um diamante ou uma labareda e sinto nela a beleza inquietante e misteriosa das obras incompletas ou mutiladas.
(28/04/1930)
Não tenho forças, não tenho energia, não tenho coragem para nada. Sinto-me afundar. Sou o ramo de salgueiro que se inclina e diz que sim para todos os ventos.
(Fragmentos dos diários de Florbela Espaca que integram ''Afinado Desconcerto'')


