LEITURA - O inverno da vida
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 04 de novembro de 2014
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Em algum ponto da existência chega o momento em que olhar para trás torna-se a única direção possível. Um momento em que o futuro se apresenta restrito e pequeno demais diante de todo o resto.
O escritor norte-americano Paul Auster chegou a esse momento quando completou 64 anos de idade. O resultado, o livro de memórias "Diário de Inverno", acaba de ser lançado pela editora Companhia das Letras.
A obra não pode ser descrita como um livro de memórias tradicional. Além de não utilizar narrativa em primeira pessoa, Paul Auster faz uso de um tom que se aproxima da ficção. Os fatos reais narrados, associados ao tom utilizado, fazem com que a realidade se aproxime do território da ficção.
Para apresentar suas memórias, Auster utiliza referências espaciais. Começa descrevendo as casas em que morou para narrar o que viveu na época em que morava nessas casas. E são dezenas e dezenas de casas alternadas entre alugadas, emprestadas ou adquiridas. Só conseguiu fixar num endereço próximo de completar 50 anos.
As mulheres ocupam lugar de destaque em "Diário de Inverno": mãe, namoradas e esposas. O destaque fica com os relatos que Auster faz de sua mãe, e consequentemente, de sua família. Consegue algo próximo do realizado em "A Invenção da Solidão" (Companhia das Letras, 1999), obra em que faz uma reflexão da paternidade após a morte do pai.
Mas o grande peso de "Diário de Inverno" reside na vulnerabilidade do corpo. Acidentes e doenças são pontos que determinam os fragmentos mais impactantes da narrativa. Caminhando aos 70 anos, Auster não olha apenas para as doenças e falecimento da mãe e do pai, mas para suas próprias doenças. Sua leitura é simples: as doenças da velhice são consequências dos problemas, não origem dos problemas. E chorar pode revelar-se um ótimo remédio contra a dor.
Abatido por uma série de doenças que culminaram numa crise de pânico, Auster desenha um quadro gelado frente à velhice. Nada relacionado à falácia da lenda da "melhor idade", mas o desenho da finitude como ela é, sem ilusões. Real e concreta como a velhice sem máscaras.
A imagem apresentada é de que entrar na velhice é entrar no inverno da vida. Todas as outras estações ficam para trás. Uma época fria onde o calor só é vislumbrado no passado, ou na consciência de que todas as estações são ciclos finitos.
Um dos principais escritores da literatura norte-americana contemporânea, Paul Auster, em "Diário de Inverno", aponta para a direção que grande parte do mundo atual não deseja olhar: a fuga mental.
Serviço:
"Diário de Inverno"
Autor Paul Auster
Editora Companhia das Letras
Tradução Paulo Henriques Britto
Páginas 306
Quanto R$ 44 e R$ 31 (e-book)


