Em algum ponto da existência chega o momento em que olhar para trás torna-se a única direção possível. Um momento em que o futuro se apresenta restrito e pequeno demais diante de todo o resto.
O escritor norte-americano Paul Auster chegou a esse momento quando completou 64 anos de idade. O resultado, o livro de memórias "Diário de Inverno", acaba de ser lançado pela editora Companhia das Letras.
A obra não pode ser descrita como um livro de memórias tradicional. Além de não utilizar narrativa em primeira pessoa, Paul Auster faz uso de um tom que se aproxima da ficção. Os fatos reais narrados, associados ao tom utilizado, fazem com que a realidade se aproxime do território da ficção.
Para apresentar suas memórias, Auster utiliza referências espaciais. Começa descrevendo as casas em que morou para narrar o que viveu na época em que morava nessas casas. E são dezenas e dezenas de casas alternadas entre alugadas, emprestadas ou adquiridas. Só conseguiu fixar num endereço próximo de completar 50 anos.
As mulheres ocupam lugar de destaque em "Diário de Inverno": mãe, namoradas e esposas. O destaque fica com os relatos que Auster faz de sua mãe, e consequentemente, de sua família. Consegue algo próximo do realizado em "A Invenção da Solidão" (Companhia das Letras, 1999), obra em que faz uma reflexão da paternidade após a morte do pai.
Mas o grande peso de "Diário de Inverno" reside na vulnerabilidade do corpo. Acidentes e doenças são pontos que determinam os fragmentos mais impactantes da narrativa. Caminhando aos 70 anos, Auster não olha apenas para as doenças e falecimento da mãe e do pai, mas para suas próprias doenças. Sua leitura é simples: as doenças da velhice são consequências dos problemas, não origem dos problemas. E chorar pode revelar-se um ótimo remédio contra a dor.
Abatido por uma série de doenças que culminaram numa crise de pânico, Auster desenha um quadro gelado frente à velhice. Nada relacionado à falácia da lenda da "melhor idade", mas o desenho da finitude como ela é, sem ilusões. Real e concreta como a velhice sem máscaras.
A imagem apresentada é de que entrar na velhice é entrar no inverno da vida. Todas as outras estações ficam para trás. Uma época fria onde o calor só é vislumbrado no passado, ou na consciência de que todas as estações são ciclos finitos.
Um dos principais escritores da literatura norte-americana contemporânea, Paul Auster, em "Diário de Inverno", aponta para a direção que grande parte do mundo atual não deseja olhar: a fuga mental.

Serviço:
"Diário de Inverno"
Autor – Paul Auster
Editora – Companhia das Letras
Tradução – Paulo Henriques Britto
Páginas – 306
Quanto – R$ 44 e R$ 31 (e-book)

Não, você não quer morrer, e mesmo agora, ao aproximar-se da idade que seu pai tinha quando a vida dele chegou ao fim, você ainda não ligou para nenhum cemitério a fim de adquirir um jazigo, não deu pra ninguém nenhum dos livros que você tem certeza de que jamais voltará a ler, nem começou a limpar a garganta para começar as despedidas. Não obstante, treze anos atrás, um mês após completar cinquenta anos, sentado no seu escritório no andar térreo da casa comendo um sanduíche de atum no almoço, você teve aquilo que agora denomina seu falso infarto, uma dor cada vez maior que foi se espalhando pelo peito, descendo o braço esquerdo e subindo até o maxilar, sintomas clássicos de crise cardíaca seguida de morte, o terrível infarto coronário que pode dar fim a uma vida em questão de minutos, e enquanto a dor continuava a aumentar, a atingir níveis cada vez mais elevados de força incendiária, ardendo nas suas entranhas, ateando fogo a seu peito, você começou a ficar fraco e tonto, levantou com dificuldade, com passos lentos subiu a escada agarrando-se com as duas mãos ao corrimão, e desabou no patamar do andar de cima chamando sua mulher com uma voz débil, quase inaudível. (Fragmento de "Diário de Inverno", de Paul Auster)
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