Era para ser um dia normal. Janalice chega na escola pela manhã e sente que alguma coisa está errada. Todo mundo aponta para ela. Todos riem, tiram sarro. Deboche de todos os tamanhos. Ao entrar na sala de aula, a professora logo a despacha para a diretoria.
No celular dos alunos circula um vídeo onde Janalice aparece numa felação com o namoradinho. Tudo filmado pelo próprio garoto e bestamente compartilhado pelas redes sociais.
Janalice tem catorze anos. Chega em casa e os pais já sabem de tudo. A mãe chora e berra. O pai grita e espuma. O cachorro late e morde. Era para ser um dia normal.
Esse é um tipo de enredo que tanto pode ser encontrado na ficção quanto na realidade. De um momento para o outro a vida de uma pessoa é virada de ponta cabeça. A partir de um fator externo e inesperado, a existência muda de rumo de maneira dolorosa. E, como sempre, as marcas serão profundas.
Em seu novo romance, "Pssica", o escritor paraense Edyr Augusto elege essas mudanças inesperadas como elemento literário. A história de Janalice, bem como a de outros personagens da obra lançada pela editora Boitempo em parceria com a editora Samauma, é pautada pelo choque inesperado em que o mundo de uma pessoa cai e rola ladeira abaixo, explode e despenca sem retorno rumo ao abismo.
Pouco conhecido do leitor em geral, Edyr Augusto é um autor que ao longo dos anos vem ganhando destaque na literatura brasileira contemporânea. Com uma narrativa que pode ser descrita como uma comunhão entre a escrita de Rubem Fonseca (dos velhos tempos) e a de João Antônio, fez da região de Belém do Pará o ambiente cativo de suas histórias. Sua escrita leva o regionalismo para as questões dos grandes centros urbanos, onde a violência e a miséria ocupam lugar de destaque.
Em "Pssica", Janalice, após a tragédia do vídeo rolar pela internet, passa a vagar pelas ruas de Belém até ser sequestrada e transformada em escrava sexual. Suas desventuras podem soar como um soco no estômago e despertar revolta. Mas as desventuras de outros personagens aparecem lado a lado no mesmo caminho, sempre com algum fato que altera drasticamente o destino de cada um para sempre.
O tráfico de escravas brancas para prostituição aparece com realismo. A atuação dos ratos d'água completa o quadro, piratas violentos que assaltam barcos de carga e de passageiros que circulam nos labirínticos rios da Ilha de Marajó. A gratuidade da violência e da crueldade dessas duas lucrativas redes marginais ganha proporções onde dor e sangue se revelam descomunais. E a miséria humana fertiliza atos onde mulher não possui nenhum valor, apenas um preço em dinheiro.
"Pssica" pode, num breve engano, ser considerado um romance policial. Isso porque no decorrer na narrativa aparece um personagem que oferece essa ilusão. Um policial aposentado, amigo do pai da garota desaparecida, que empreende uma investigação particular para encontrar Janalice. O personagem, com todas as possíveis características de homem de bem em luta contra o mal, simplesmente desaparece na crueldade.
Esse é um dos elementos peculiares do romance. Personagens principais e secundários são mortos sem nenhuma perspectiva. Assim como a tragédia se revela sempre inesperada, a surpresa de um instante, a morte segue o mesmo caminho. Uma surpresa que não altera mundo, apenas o clássico: morreu, enterra.
Edyr Augusto nasceu na cidade de Belém em 1954. Radialista, jornalista e dramaturgo, publicou seu primeiro livro, "Os Éguas", em 1998. Publicada no ano passado na França, a obra recebeu o prêmio literário Caméléon de 2015. Depois vieram "Moscow" (2001), "Casa de Caba" (2004), "Um Sol Para Cara Um" (2008) e "Selva Concreta" (2012).
A linguagem desenvolvida por Edyr Augusto possui como característica a concisão extrema, onde não há espaço para descrições. Não há espaço para pensamentos, relatos ou reflexões. Apenas os fatos interessam. Também há a conjunção, num mesmo parágrafo, da primeira e da terceira pessoa em ruídos. Outra característica está no uso do léxico oral característico da região do Pará, onde a influência das línguas indígenas são marcantes. "Pssica", o próprio título do romance, é um termo da região de Marajó, de origem indígena, que significa praga rogada, olho gordo, a popular maldição que abate o destino, um inferno sem cores.
A estrutura narrativa de "Pssica" não faz nenhum uso do exotismo ou da exuberância natural da região amazônica. Não há paisagens exóticas, peixes, animais, árvores, aves ou questões ambientais. Há apenas o humano, a pior face do humano. Uma face que pode sem encontrada em qualquer outro lugar. Sem ilusões, da maneira mais cruel possível.

Serviço:
"Pssica"
Autor – Edyr Augusto
Editora – Boitempo
Páginas – 96
Quanto – R$ 28

Beberam. Comeram. Lá pelas tantas, Zé do Boi se enturmou e abriu uma mesa de dominó. Portuga ficou olhando. Deu no saco. Tá. Pegaram dois moto táxis até a cidade. Andaram à esmo até chegar ao porto. Vamos esperar amanhecer. Chega. Não quero mais. Nem eu. Calaram-se. Sentaram-se no chão. Chega uma van. Abre as portas. Saem mulheres. Estão desgrenhadas, amassadas. Algumas choram mansinho. Não dão atenção. Jane aparece. Ao lado um homem alto, forte, negro se dirige a um barco. Há outros homens fazendo a segurança. Jane se afasta e se encosta numa parede. Mesmo desgrenhada, amassada, trôpega e com a boca inchada de quem recebeu um soco, naquela manhã ela é uma deusa que de repente o céu liberou. Portuga, sem pensar, levanta e vai até lá. Oi. Silêncio. Qual o seu nome? Nada. Posso te ajudar? Me salva, é tudo que ela balbucia. Salvar? Do quê? Me salva. E quando o fita, seu olhar elimina todas as barreiras de Manoel Tourinho, todo sofrimento pela morte de Ana Maura. Eu te salvo. Como é seu nome? Janalice, mas me chamam Jane. Vem um segurança. Aí, campeão, colabora conosco. O gringo não quer ninguém conversando com as mulheres. Tá bom. Olha aqui. Oferece cem reais. Só mais dois minutos. Tá. Como eu posso te salvar? Me raptaram, me venderam, e agora sou uma prostituta. Isso na tua boca? Foi um soco que um miserável me deu. Filho da puta. Deus me abandonou. Só pode ser. Não acredito em mais nada. Sou uma fodida, sozinha no mundo. Me salva. Como? Sei lá, me compra, me leva contigo. (Fragmento de "Pssica", de Edyr Augusto)
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