Todo bar tem alguma história para contar. Alguns possuem poucas histórias, outros um punhado delas. O Village Vanguard, por exemplo, com suas portas abertas há 72 anos, possui um punhado delas. Desde sua fundação, sempre sob o comando do mesmo dono, o lugar atravessou épocas e gerações para se tornar um balcão repleto de lendas.
O Village Vanguard nasceu em 1934, na região boêmia do Greenwich Village da cidade de Nova York. Em seu palco foram gravados ao vivo mais de 100 discos de jazz. Músicos como John Coltrene, Keith Jarret, Charles Mingus, Thelenious Monk, Miles Davis, Sonny Rollins, Dinah Washington e Brad Mehldau realizavam temporadas regulares no lugar. A história do Vanguard se mistura um pouco com a própria história do jazz norte-americano.
Para perpetuar a lenda do bar, o proprietário Max Gordon resolveu contar aquilo que aconteceu entre o balcão e o palco do Vanguard em suas décadas de existência. Algo como reconstituir as memórias do lugar onde álcool e música trocavam idéias madrugada adentro. O resultado está em ''Ao Vivo no Village Vanguard'', livro lançado pela Editora Cosac Naify.
Segundo Max Gordon, nasceu por acaso, precisava de trabalho para sobreviver. Alugou um porão e encheu de móveis usados. Contratou um paciente e cozinheiro e lhe entregou um cardápio em branco. Como não tinha licença para vender bebida alcoólica, os frequentadores eram estimulados a trazer cada um sua própria bebida na bolsa. Os garçons apenas serviam gelo e água. Nessa época a única atração era poesia. As pessoas se reuniam no Vanguard para ouvir leituras espontâneas e anárquicas de poesia.
Uma das atrações das madrugadas era Joe Gould, um boêmio excêntrico que vagava pelas ruas do bairro se alimentando basicamente de ketchup. Mistura de andarilho e literato, pertencia à estirpe de poetas que não deixam nenhum livro para a posteridade. Sobre essa figura singular, o jornalista Joseph Mitchell escreveu duas longas reportagens que se tornaram referências do jornalismo literário - textos publicados em forma de livro em 2003 pela Editora Companhia das Letras com o título de ''O Segredo de Joe Gould''.
Com o tempo, teatro e a música passaram a fazer parte das atrações. Cantores de blues e música regionalista também ocuparam o palco do Vanguard devidamente transformado numa casa de shows. Mas foi a partir de 1956 que o jazz invadiu o lugar. Ao longo de duas décadas se tornou o lugar ideal para quem desejasse ouvir os novos gênios do jazz.
Nessa fase reside o ápice da glória do bar. Dezenas de músicos gostavam de tocar no lugar, um fato que facilitava a contratação de apresentações. Charles Mingus, por exemplo, aparecia para tocar com um pacote de carne embaixo do braço. Como não confiava nas intenções do cozinheiro, ele mesmo preparava sua montanha de bifes após os shows.
Com o passar do tempo, Vanguard deixou de ser um lugar específico de jazz e passou a diversificar suas atrações com artistas de variedades, comediantes e outras coisas mais. Até mesmo Timothy Leary, ao lado de Dick Alpert, estiveram entre as atrações. Realizaram a apresentação de um show que simulava os efeitos do LSD através de música, projeção de imagens e efeitos de luzes. Max Gordon, que cuidava da portaria, só no dia seguinte percebeu que não se tratava exatamente de uma ''simulação''.
''Ao Vivo no Village Vanguard'' é a biografia de um bar narrada através da visão de seu proprietário. Os relatos são fragmentados, caminham na direção de focalizar, com maior destaque, a memória afetiva de Gordon. Os fatos apresentados são aqueles capazes de manter viva a lenda do lugar. Uma lenda que se manteve iluminada não tanto pela capacidade de Gordon em gerenciar um estabelecimento comercial, mas pela sua capacidade de atuar como atento agente cultural.

Serviço:
- Livro ''Ao Vivo no Village Vanguard'' de Max Gordon. Editora Cosac Naify,introdução de Nat Hentoff, tradução de Cid Knipel, 232 páginas, R$ 45,00.

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