Seria possível colocar a aspereza da brutalidade e a frescor da ingenuidade numa única sentença? Seria possível colocar a fúria da crueldade e a calor da singeleza numa única frase?
No caso da escritora romena Aglaja Veteranyi, a resposta é sim. Em seu romance ''Por que a criança cozinha na polenta'', lançado pela DBA, forças antagônicas são corpos que ocupam o mesmo espaço. Não apenas convivem lado a lado, mas tornam-se uma espécie de organismo unificado sendo atropelado pelo mundo.
''Por que a criança cozinha na polenta'' é narrado por uma menina que, na companhia dos pais, foge da ditadura em vigor na Romênia em busca de uma vida melhor. Sua mãe, artista de circo, pendura-se pelos cabelos no alto do picadeiro. Seu pai trabalha como palhaço. Após a fuga, passam a perambular pela Europa apresentando-se em circos e bares.
A esperança de uma vida melhor não se concretiza na prática. A família continua sobrevivendo com dificuldade com um empecilho a mais: tornam-se refugiados. E vivendo no universo do circo, não pertencem ao mundo comum.
A garota é atormentada pelo medo de que sua mãe caia do trapézio. Para tentar dissipar tal idéia, sua irmã mais velha vive repetindo uma história pior que a possibilidade da mãe morrer esborrachada no chão do picadeiro. Descreve crianças cozinhando numa panela de polenta.
Imaginando a dor das crianças na polenta, a menina esquece a possibilidade de perder a mãe num possível acidente. Essa substituição de sensações reais por sensações imaginadas, permeia todo seu relato. Torna-se uma das maneiras da menina se proteger da crueldade do mundo, bem como da brutalidade familiar.
A narrativa de Aglaja Veteranyi é constituída basicamente de frases curtas. Incorpora ao texto o modo que as crianças se expressam. Transforma a voz infantil da narradora numa corrente de simplicidade e de agonia. Uma voz que mistura realidade e imaginação na tentativa tanto de entender o mundo como de encontrar uma forma de alterá-lo.
É inegável a existência de alguns elementos autobiográficos e psicanalíticos em ''Por que a criança cozinha na polenta''. Filha de artistas de circo, Aglaja Veteranyi nasceu em Bucareste em maio de 1962. Ainda criança, na companhia dos pais, abandonou a Romênia e passou a infância e a adolescência percorrendo o mundo sob a lona de vários circos. Em seguida fixou residência na Suíça, onde começou a trabalhar como atriz. Em Zurique trabalhou como diretora de uma escola de teatro ao longo de uma década.
''Por que a criança cozinha na polenta'', escrito em alemão, foi publicado originalmente em 1999 e em seguida adaptado para o teatro pela própria autora. Na sequência Aglaja escreveu mais dois livros, um romance e um volume de poemas e pequenas narrativas. As obras foram publicadas postumamente, pois Aglaja cometeu suicídio em fevereiro de 2002.
A condução narrativa trabalhada por Aglaja Veterenyi, tanto em sua prosa como em seus versos, são pautados pelo inusitado. Ela consegue narrar histórias inteiras e completas revelando apenas pequenas partes. Faz da descrição uma imagem crua que carrega em suas entrelinhas uma infinidade de sugestões. Não mostra o circo humano como um todo, apenas sua serragem. E, a partir desse detalhe que sustenta o público, sugere, de maneira incômoda, todo o resto.
O livro pode ser encarado como uma história sobre a infância roubada. Como também poder ser encarada como uma história sobre a fuga da infância. A narradora, ao mesmo tempo que sofre ao ver sua infância sendo roubada pelas pessoas mais próximas, também sente o desejo de abandonar a infância e adentrar no universo adulto para viver a crueldade do outro lado. Não mais do lado de quem é vítima da brutalidade, mas de quem é sujeito dela.

Serviço:
- Por que a criança cozinha na polenta, de Aglaja Veteranyi, Editora DBA, tradução de Fabiana Macchi, 160 páginas, R$ 29,00.

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