O homem pode ter, no mínimo, três condutas diferentes diante da realidade. A primeira seria a obediência, estúpida ou ingênua. A segunda seria a revolta, furiosa ou calculada. A terceira, a lendária conduta de fixar residência em cima do muro.
Em seu novo romance, ''Cinzas do Norte'', o escritor amazonense Milton Hatoum coloca essas três condutas humanas num mesmo contexto. Apresenta uma história onde obediência, rebeldia e indecisão se encontram para acertar arestas. Como resultado do encontro, cortes e machucados, feridas e enfermidades.
Lançado pela Editora Companhia das Letras, ''Cinzas do Norte'' traz ambiente semelhante ao retratado em seus romances anteriores, onde o universo familiar é o grande palco das imediatas das batalhas. A diferença está no autor colocar uma ênfase maior do ambiente externo em que o ambiente familiar está inserido, no caso, o período histórico do regime militar brasileiro.
''Cinzas do Norte'' narra a trajetória de dois amigos, Raimundo (mais conhecido como Mundo) e Olavo (comumente chamado de Lavo), da infância e juventude pelos rios e bairros de Manaus até a idade adulta pelo mundo dos dramas. Raimundo provém de uma família rica e está sempre interessado em subjetividades. Olavo provém de uma família pobre e está constantemente interessado em objetividades.
O apelido dos dois estão fundamentados numa metalinguagem clara no interior da narrativa. Lavo é o encarregado de ''lavar'' o ''mundo'' do amigo Mundo. Ocupando o papel de narrador do romance, Lavo realiza o trabalho de desnudamento da história de Mundo, lavando as substâncias que ocultam a verdade. Nas palavras de Milton Hatoun, o interesse era escrever a ''história moral de sua geração''.
Desde a infância, Mundo se interessou pelas artes. Com o apoio da mãe percorre a estética das artes plástica com determinação e originalidade. O pai, ao contrário, cobra que o filho percorra a carreira de empresário, ao seu lado, perpetuando a fortuna da família. Assim, há uma guerra de forças entre o lado materno e o lado paterno. No centro, permanece Mundo, desafiando a sufocante autoridade do pai e se refugiando no aconchego da mãe.
Lavo, órfão desde a infância, por outro lado, segue caminho inverso. De origem humilde luta com afinco para se estabelecer na vida, buscando sobreviver a todo custo. Segue firme nos estudos e consegue torna-se advogado. Exatamente tudo que o pai de Mundo desejava para o filho.
Assim surge o desenho de um Mundo rebelde, tanto comportamental como estético e político. Alguém que realiza a escolha de bater de frente contra a realidade sufocante. Também surge o desenho de um Lavo obediente, tanto comportamental como estético e político. Alguém que percorre a existência aceitando a realidade da maneira como ela se apresenta.
Em ''Cinzas do Norte'' os impasses íntimos, familiares e sociais seguem a correnteza da amargura em direção ao lado indefinido do fim. Não pode ser considerado um romance de narrativa angustiante, apenas aborda questões conhecidas por todos e nem sempre levadas aos extremos que exigem, pedem e suplicam.
Milton Hatoum é um caso pouco comum na literatura brasileira. Apesar de ter apenas três romances publicados, é um dos nomes de destaque da ficção nacional. Professor universitário, publicou seu primeiro romance, ''Relato de Um Certo Oriente'', em 1989. O segundo, ''Dois Irmãos'', apareceu somente em 2000. Ambos receberam o Prêmio Jabuti como livro do ano. ''Cinzas do Norte'', com suas águas amargas, com sua genealogia da revolta, é o terceiro romance de Hatoum.

Serviço:
- Livro ''Cinzas do Norte'', de Milton Hatoum. Editora Companhia das Letras, 312 páginas, R$ 39,00.

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