LEITURA - O gigante adormecido catando milho
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terça-feira, 08 de janeiro de 2013
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Nos dias de hoje a máquina de escrever, aquele pesado instrumento de escrita mecânica, é um objeto completamente obsoleto. Mas algumas décadas atrás, ter um diploma de datilografia nas mãos era motivo de orgulho. A máquina de escrever fazia parte de todo e qualquer trabalho qualificado urbano. Uma invenção que revolucionou a escrita substituindo o manuscrito por um padrão universal.
Sua invenção não teria acontecido exatamente nos Estados Unidos, como normalmente a história propaga, mas em solo brasileiro. A máquina de escrever teria sido criada no século 19 pelo padre paraibano Francisco João de Azevedo Filho (1814 1880). Inicialmente como máquina taquigráfica, com o objetivo de registrar com agilidade sermões e discursos, em seguida como máquina com as letras do alfabeto.
Em seu novo romance "A Máquina de Madeira", o escritor paranaense Miguel Sanches Neto resgata a história do padre Francisco Azevedo e de sua invenção para lançar um olhar crítico sobre um Brasil emperrado. Um país agarrado com unhas e dentes a uma visão arcaica de nação e completamente incapaz entender e usufruir de suas mentes mais inventivas.
"A Máquina de Madeira" começa com o padre desembarcando no Rio de Janeiro em 1861 para exibir sua invenção na Exposição Nacional, evento organizado por Dom Pedro II para alavancar o desenvolvimento industrial do país. A intenção era reunir inventores de todas as províncias e selecionar as melhores criações para representar o Brasil na Exposição Universal de Londres.
Aquilo que seria a grande oportunidade do padre Francisco Azevedo mostrar ao país e ao mundo sua revolucionária invenção, se transforma em decepção e fracasso. Ao lado de panelas de pedra sabão e troncos de tortura e castigo de escravos, sua criação não desperta nenhum interesse. A mentalidade dominante, arcaica e colonial, faz o protótipo da máquina de escrever um curioso objeto sem futuro.
Lançado pela editora Companhia das Letras, o romance histórico de Miguel Sanches Neto é dividido em duas partes. A primeira compreende a experiência do padre em apresentar sua invenção na Exposição Nacional. A segunda percorre as contradições do personagem em sua incansável tentativa de fazer com que sua criação seja vista como ela realmente se apresenta, uma invenção revolucionária, não uma viagem delirante. Seu grande desafio é transformar a máquina de madeira, toda construída em jacarandá, em máquina de ferro e aço. O drama é que não há nenhuma fundição brasileira disposta a encarar tal desafio.
Nesse meio tempo, um caçador de invenções norte-americano passa pelo Brasil e entra em contato com Azevedo para conhecer sua máquina. Promete mundos e fundos, conhece a mecânica da invenção e desaparece. Anos depois, pelos jornais, o padre fica sabendo que um grupo de inventores dos Estados Unidos está lançando para comercialização uma máquina de escrever forjada em metal chamada Remington. Detalhe: um dos membros do grupo é justamente o gringo que conheceu os mecanismos da invenção de Francisco Azevedo, prometeu tudo e sumiu do mapa.
Em "A Máquina de Madeira" o personagem, entre realidade e ficção, aceita a fuga da paternidade de sua criação em prol de sua propagação: "Logo ela seria empregada em vários países e mesmo o distante Império se renderia. E muitas pessoas se dedicariam à escrita mecânica, ganhando a vida honradamente com trabalhos manuais. E, embora anônima, sua vida faria sentido. Foi portanto melhor ter a máquina roubada e saber que ela funciona e está sendo melhorada num outro país do que vê-la perecer aqui, sem nenhuma utilidade. O roubo é a que salvou."
A tragédia reserva um fim amargo ao personagem. A miséria o aguarda sem ao menos ter a possibilidade de ter ao seu lado a companhia da empregada escrava que alforriou e que dividiu a cama secretamente ao longo de décadas. "A Máquina de Madeira" traz um retrato histórico do Brasil, o lendário gigante adormecido catando milho até na tentativa de escrever sua própria história.
Serviço:
"A Máquina de Madeira"
Autor Miguel Sanches Neto
Editora Companhia das Letras
Páginas 248
Quanto R$ 36
Alegando falta de espaço, a comissão não a escolheu. Ser recusado não foi privilégio de sua invenção. Apenas duas máquinas seguiram para Londres, um cilindro de ferro fundido, com tampo e haste de ferro batido, para máquinas de vapor de baixa pressão, e a moenda de ferro de cana, movida a vapor, ou qualquer outro tipo de motor, fabricada pela companhia Ponta de Areia, de propriedade do barão de Mauá, um dos membros da comissão geral da exposição. E mesmo destas só foram enviadas estampas fotográficas, pelo pouco espaço na Exposição Universal para os produtos brasileiros. Mas algumas ferramentas de motor humano seguiram no navio: cavadeira, machados, foices, sachos e enxadas. E mais de trezentas amostras de madeiras, um conjunto delas também de Mauá. Eis o Brasil. O imperador não se cansava de dizer que os navios feitos com nossas madeiras duravam o dobro, pois o clima dos trópicos endurece os cernes.
(Fragmento de "A Máquina de Madeira" de Miguel Sanches Neto)


