O passado pode ser encarado como uma pedra. Uma pedra que os homens atiram para cima, em direção ao céu. Uma pedra que, mais dia ou menos dia, cairá sobre suas cabeças. Por mais que as pessoas se desloquem pelo espaço, que se esqueçam dela, mais dia ou menos dia cairá sobre suas cabeças.
Para o escritor moçambicano Mia Couto, quando a pedra do passado deixa de vagar pelo ar, os ferimentos nem sempre são visíveis. Sutis, os ferimentos deixam evidente que existe algo mais que consequências. Para o escritor, existe a clareza de que o homem esquece para ter passado e mente para ter futuro.
Mia Couto coloca em prática esse argumento em seu novo romance, ''O Outro Pé da Sereia''. Lançado simultaneamente em Portugal, Moçambique e Brasil, o livro traz uma crítica irônica à globalização sem levantar bandeiras. Ela é encarada como um presente que não apaga o passado de uma etnia, de uma cultura. Mais do que isso, reforça e traz à tona suas contradições e ferimentos dessa mesma etnia, dessa mesma cultura.
Em ''O Outro Pé da Sereia'' Mia Couto narra duas histórias paralelas. A primeira conta a história do jesuíta Gonçalo. Em 1560, ele parte de Goa (região da Índia colonizada pelos portugueses), a bordo de uma caravela, com o objetivo de converter ao cristianismo o rei de Monomotapa, região hoje situada entre Moçambique e Zimbábue. Como arma, Gonçalo carrega nos braços uma imagem sacra de Nossa Senhora. Enfrentando as forças da África, e os próprios impasses portugueses, o jesuíta assiste seus objetivos escorrerem pelos vãos dos dedos.
A segunda narrativa, aquela que é mais determinante do romance, conta a trajetória de Mwadia, uma mulher que vive, nos dias atuais, numa região despovoada do interior de Moçambique. Sua história começa quando ela encontra, na mata próxima de um rio, uma velha imagem de Nossa Senhora ao lado um esqueleto humano. Trata-se da mesma imagem sacra do jesuíta Gonçalo de séculos atrás. Assim, as duas histórias se cruzam, unindo passado e presente. A ponte entre os dois pólos é feita justamente por Mwadia, alguém com uma clarividência adormecida.
Mwadia recebe como incumbência espiritual levar a imagem até a igreja do local onde nasceu, um vilarejo onde não coloca os pés há muitos anos. No mesmo período em que Mwadia chega à pequena cidade para encontrar um lugar para a santa, também aporta no local um casal de norte-americanos descendentes de escravos africanos. Representantes de uma ONG de primeiro mundo, têm como missão auxiliar os negros africanos a valorizar a ''dignidade negra''. Os moradores do local não entendem muito bem o interesse do casal naquela comunidade, mas não perdem tempo em traçar estratégias para arrancar uma boa grana da ONG.
Se por um lado os americanos querem descobrir suas origens ancestrais africanas, valorizar o passado, os moradores do vilarejo desejam exatamente o oposto. Querem esquecer o passado, não querem contato com ele. Isso porque a comunidade é formada tanto por descendentes de escravos como por descendentes de escravocratas. São oriundos de um período histórico em que negros escravizavam negros.
Para conviverem sem problemas no presente, no mesmo pé de igualdade, ambos os lados decidem esquecer o passado. Uma solução que o discurso da globalização trazida pelos afro-americanos coloca fogo. Numa abordagem próxima do cômico, a intenção externa de unificação dá origem, na realidade, à uma segregação.
Em ''O Outro Pé da Sereia'', lançado pela Editora Companhia das Letras, Mia Couto não atravessa esse impasse com as ferramentas da razão, mas com os instrumentos próprios dos sentimentos acumulados pelo passado. Um conflito que dá vazão a todos os problemas emocionais e familiares. Como se as crises externas encontrassem eco nas crises internas, com tudo acumulando drama para o futuro inevitável.
Uma das características da literatura de Mia Couto é conceder um tratamento com ares mágico à realidade. Algo geralmente é apontado como similaridade às narrativas de Gabriel Garcia Márquez. Outra característica da literatura africana é um procedimento semelhante ao realizado por Guimarães Rosa na literatura brasileira. A linguagem desenvolvida pelo escritor moçambicano comporta a criação de palavras através da junção de significados, a reprodução da oralidade praticada em regiões pouco povoadas e a inversão da lógica normal das frases sem a alteração do conteúdo. Não sem motivo, seu nome ocupa de destaque na literatura africana contemporânea.
Embora ''O Outro Pé da Sereia'' seja um livro enterrado no universo da literatura de Mia Couto, outras obras de sua autoria merecem maior destaque. Entre aquelas que o leitor pode encontrar sua linguagem em estado exuberante, destacam-se ''Cada Homem É Uma Raça'' (Nova Fronteira, 1998), ''Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra'' (Companhia das Letras, 2003) e ''Terra Sonâmbula'' (Nova Fronteira, 1996).

Serviço:
- Livro ''O Outro Pé da Sereia'', de Mia Couto. Editora Companhia das Letras, 336 páginas, R$ 43,00.

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