LEITURA - O funeral dos sonhos
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de junho de 2005
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
É um dos livros mais manjado do mundo. Tem centenas de edições em várias línguas. Todo mundo já leu ou pelo menos já ouviu falar. Normalmente é classificado pejorativamente como ''literatura infanto-juvenil''. Foi adaptado para dúzias de linguagens, do cinema ao balé aquático.
Mesmo assim continua sendo um belo livro. ''Os Meninos da Rua Paulo'', do escritor húngaro Ferenc Molnár (1878 - 1952), é uma obra que atravessou décadas e encantou várias gerações. Foi publicada originalmente em 1907, no leste europeu. Em pouco tempo ganhou uma legião de leitores em todo o mundo.
Recebeu a primeira edição brasileira em 1952, pelas mãos do professor húngaro Paulo Rónai. A história da batalha entre dois grupos de garotos pela posse de um terreno baldio para brincar, tornou-se um clássico. Foram editadas mais de 50 edições com milhares de exemplares.
Durante a década de 90, as edições de ''Os Meninos da Rua Paulo'' sumiram das livrarias. O livro passou a ser encontrado apenas de maneira surrada em sebos. Agora a obra de Ferenc Molnár está de volta numa bela edição pelas mãos da Editora Cosac Naify.
É uma clássica história sobre infância. Narra a aventura de um grupo de garotos (a Sociedade do Betume) que luta, num bairro pobre, por um espaço disponível para jogar bola. Trata-se do único lugar disponível para brincar e que precisa ser defendido com unhas e dentes de outro grupo de garotos que cobiça a área.
Em ''Os Meninos da Rua Paulo'' praticamente não há a figura de adultos. Como também não há a presença de figuras femininas. Longe do mundo adulto, os garotos criam uma sociedade paralela, pautada por princípios como lealdade, honestidade, fidelidade, coragem, cooperação e verdade. Uma microsociedade que enfrenta dramas que envolvem sentimentos como traição, desonestidade e mentira.
Nas últimas páginas do romance, a história deixa de focalizar o universo infantil para falar sobre a morte da infância, deixando claro que ela existe apenas enquanto percepção e período de existência. Apresenta a idade adulta como o funeral dos sonhos onde a realidade impõe suas garras e princípios.
Além de ''Os Meninos da Rua Paulo'', a Editora Cosac Naify está publicando outra obra de Ferenc Molnár, a novela ''O Poste de Vapor'', inédita em língua portuguesa. Narra alguns episódios vividos por um falso capitão da polícia que passa seus dias numa estação turística.
Ambientado nos últimos anos do Império Austro-Húngaro, descreve inusitadas histórias protagonizadas histórias pelo capitão. Personagem que assume várias identidades, desempenha o papel de um homem pitoresco capaz de ludibriar todos à sua volta, principalmente as mulheres. Nunca está no âmbito da realidade, mas além de seu limite, num ponto onde realiza a criação de sua própria realidade.
O ponto alto da novela não reside tanto nas histórias protagonizadas pelo capitão, mas nas histórias que narra aos companheiros de jogo e copo. São microcontos com certo teor de fábulas. Coisas que poderiam aparecer sob a forma de notícias de jornais, conversa de bar ou mesmo narrativas particulares.
Ferenc Molnár nasceu em 1978 numa família de classe média judia. Formado em direito, trabalhou por um bom tempo como jornalista em Budapeste. Autor de contos e novelas, ficou mais conhecido pela autoria de textos teatrais, vários deles transformados em filmes. Com o início da Segunda Guerra Mundial, exilou-se nos Estados Unidos.
Sua obra mais saborosa continua sendo ''Os Meninos da Rua Paulo''. Uma história universal onde os princípios da infância são apresentados como eles são, sem dedos adultos. Não apenas uma aventura sedutora e lúdica, mas um aprendizado que fatalmente culmina com a morte. A dura e áspera morte da infância.
Serviço:
- ''Os Meninos da Rua Paulo'' de Ferenc Molnár, Editora Cosac Naify, tradução e prefácio de Paulo Rónai, revisão da tradução de Aurélio Buarque de Holanda, posfácio de Nelson Ascher, ilustrações de Tibor Gergely, 256 páginas, R$ 25,00.
- ''O Poste de Vapor'' de Ferenc Molnár, Editora Cosac Naify, tradução de Paulo Schiller, 88 páginas, R$ 29,00.


