Um funeral. Não o enterro habitual de um corpo. O enterro de um tempo. O funeral de um tempo onde a literatura estava presente em tinta no papel. O funeral do livro. O enterro da era Gutenberg.
As pompas fúnebres desse tempo é a névoa que infesta ''Dublinesca'', o novo romance do escritor espanhol Enrique Vila-Matas, lançado pela Cosac Naify. Simplesmente, entre o trágico e o cômico, a morte da era Gutenberg e o florescimento pela era Google.
''Dublinesca'' narra os devaneios de Samuel Riba, um sujeito de sessenta anos atravessando uma exemplar crise existencial permeada por uma transição histórica ímpar. Atuando durante década e década como editor de escritores originais e experimentais, ele assiste sua editora - que nunca publicou um único best sellers - entrar em falência.
Aproveitando a situação, decide aceitar a aposentadoria. Riba também decide abandonar o álcool que ameaça sua vida. Fechado em casa, esquecido pelos amigos, passa os dias e as noites em frente ao computador navegando pelo Google como os chamados ''hikikomori'' - jovens japoneses que nunca saem de casa e passam a vida na frente do computador ligados na internet.
Percebendo a transição histórica da era Gutenberg para a era Google, Riba resolve realizar a cerimônia do funeral da literatura gravada nas páginas dos livros. Para isso escolhe a cidade de Dublin, na Irlanda, local usado como pano de fundo de ''Ulisses'', clássico romance do escritor irlandês James Joyce (1882 - 1941). E escolhe o 16 de junho, dia em que se passa a história narrada por Joyce em ''Ulisses'' - data conhecida como Bloomsday, único feriado do mundo dedicado a um romance.
Ao idealizar o enterro da literatura em papel, o personagem criado por Vila-Mata está consequentemente atestando a morte da obra literária. Mais do que isso, está revelando a morte do autor. Essa é a síntese de ''Dublinesca''. Tudo imerso num copo de ironia e num prato de comicidade.
Nascido em 1955, Vila-Matas é autor de uma obra contemporânea única dentro do gênero romance. As histórias que narra são verdadeiros ensaios sobre literatura. Pode-se dizer que o personagem principal de seus romances é, sempre e recorrente, a própria literatura.
''Dublinesca'', assim como outros romances de Vila-Matas, traz a confusão dos limites entre autor e leitor. Entre aquele que cria e aquele que viaja sobre a criação. Uma confusão que aponta para a lucidez de que o autor é o leitor de outros autores. A lucidez de que o conceito de intertextualidade é o sangue que corre nas veias da literatura contemporânea.
A estrutura narrativa de ''Dublinesca'' está justamente pautada por uma coleção de citações e referências literárias. Ao fazer ficção a partir de episódios literários reais, Vila-Matas instaura uma nova abordagem cerebral da própria arte dos dias atuais.
O personagem Riba possui um vasto vazio dentro de si, além de um desfile de ruínas em cada pensamento. Ele se propõe a preencher esse espaço vazio justamente com a arte. O cômico está justamente no fato de que, entre seus autores favoritos, sempre há um longo devaneio sobre o vazio.
Diante sucessivas mortes e históricos funerais, ao final de tudo, Riba desenvolve o conceito do 'renascimento do autor'. Sem morte não há renascimento pode até parecer quebra-cabeça de criança, mas representa um fato: a constante presença de fantasmas na existência humana. Fantasmas mentais que passeiam pela casa com as meias do passado. Aqueles velhas meias gastas mas sempre confortáveis para aquecer os pés nas solitárias noites de inverno.

  Sonha com o dia em que o fim do feitiço dos best-sellers dê lugar à reaparição com leitor com talento e se recoloquem os termos de contrato moral entre autor e público. Sonha com o dia em que os editores literários possam respirar de novo, aqueles editores que se desdobram por um leitor ativo, por um leitor suficientemente aberto a ponto de comprar um livro e permitir em sua mente o desenho de uma consciência radicalmente diferente da sua própria. Acredita que, se é exigido talento de um editor de literatura ou de um escritor, deve se exigir talento também do leitor. Porque é preciso não se enganar: a viagem da leitura passa muitas vezes por terrenos difíceis que exigem uma capacidade de emoção inteligente, desejos de compreender o outro e de se aproximar de uma linguagem distinta de nossas tiranias cotidianas. As mesmas habilidades necessárias para escrever são necessárias para ler. Os escritores decepcionam os leitores, mas também acontece o contrário e os leitores decepcionam os escritores quando só buscam nestes a confirmação de que o mundo é como eles vêem...

(Fragmento de ‘‘Dublinesca’’, de Enrique Vila-Matas)

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