LEITURA - O fogo da obsessão
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de junho de 2008
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Amor e paixão são geralmente considerados sentimentos distintos. A diferença entre eles estaria na durabilidade da existência de cada um. O amor poderia ser comparado a um braseiro que queima lentamente e se prolonga no tempo. A paixão poderia ser comparada a uma passageira fogueira de altas chamas. Detentora de um calor tão intenso, a paixão seria capaz de destruir tudo à sua volta.
Essa força da paixão que pode devastar tudo à sua volta, que pode destruir até mesmo os próprios amantes envolvidos pelo fogo, é o ponto central do romance ''Manicômio'' de Patrick McGrath. Primeiro livro do escritor inglês publicado no Brasil 10 anos atrás, a obra recebe nova edição pela Companhia das Letras. Nascido em 1950, McGrath é apontado como um dos expoentes da ''literatura neo-gótica'' inglesa. Uma das principais características de seus romances está em não utilizar o horror e o grotesco de origem sobrenatural, mas de origem no próprio comportamento humano. O escritor possui outros três romances publicados no país, ''A Doença de Haggard'' (2001) e ''Spider'' (2002) e ''Port Mungo'' (2006), todos lançados pela Companhia das Letras. ''Spider'' foi transformado num desconcertante filme pelo cineasta David Cronenberg.
''Manicômio'' coloca num mesmo ponto a paixão (desejo sexual) e loucura (doença psicótica). O resultado é eletrizante. Os limites que demarcam paixão de loucura são eliminados. A paixão torna-se loucura e loucura torna-se paixão. Numa viagem obsessiva e descontrolada, os amantes envolvidos caminham para a destruição. A morte assume a imagem do único final possível e trágico. McGrath narra a história de Stella e Edgar, dois amantes que se extinguem na fúria da paixão e na espiral da loucura.
Stella é uma mulher respeitada, esposa de Max. Formam um jovem casal inglês tradicional. O filho Charlie completa a família feliz. Médico psiquiatra, Max assume o cargo de vice-diretor de um manicômio. A família então passa a morar uma bela casa no interior do hospital psiquiátrico. Tudo parece um paraíso até Stella se sentir atraída por um interno, Edgar, que cuida dos jardins. Edgar, artista plástico, está confinado na instituição há cinco anos por ter assassinado a esposa. Matou a mulher a marteladas, cortou sua cabeça, fixou-a num pedestal e, utilizando suas ferramentas de escultor, trabalhou a cabeça como bloco de argila.
O que parecia impossível acontece, Stella e Edgar se entregam numa relação clandestina de grande intensidade, carregada de obsessão sexual. Utilizando a paixão de Stella, Edgar consegue fugir do manicômio. Não conseguindo viver sem o objeto de sua paixão, Stella acaba fugindo de casa, abandonando esposo e filho, para viver com Edgar, foragido da polícia.
Em pouco tempo tudo se transforma em pesadelo regado a surtos psicóticos. Stella volta totalmente desequilibrada para casa e passa viver como paciente do hospital psiquiátrico dirigido pelo marido. Edgar, recapturado, volta a ser confinado no mesmo manicômio. Enfim, separados pela loucura.
A história é narrada por um psiquiatra, Dr. Peter, amigo íntimo da família e médico de Edgar, posteriormente, também psiquiatra de Stella. No fim de seu relato sugere que a vida de seus pacientes, a destruição do casal provocada por uma obsessiva paixão, estavam em suas mãos. Objeto de uma outra obsessão maior.
Em ''Manicômio'' Patrick McGrath envolve o leitor numa tensão psicológica. Oferece fragmento por fragmento para no final apresentar uma imagem panorâmica. Ao mesmo tempo em que apresenta a intensidade do fogo da paixão que busca a realização, apresenta a desestabilização do mundo à volta dessa paixão. Desestabilizado, esse mundo tende a utilizar todas as armas opressivas para anular as paixões para resgatar a estabilidade da normalidade.
Fragmento de Manicômio de Patrick McGrath
Diz que nunca perdeu as esperanças. Sua mente nunca se afastou dele. Nunca perdeu a sensação de que ele estava presente. Tinha aprendido a confiar nele. Não havia nenhuma razão para confiar nele, e talvez o motivo fosse exatamente esse; parece que confiança, fé e amor são o que são porque despertam e se mantêm a despeito da razão. Ela não tinha nenhuma idéia do que estava acontecendo com ele. Minha suposição era que ele esgueirara para dentro de algum submundo londrino envolto em sombras; tinha falado discretamente com todo mundo que conhecia e que pudesse ter alguma informação e, para minha frustração, não consegui nada. Sabia que acabaria por aparecer; claro que minha preocupação era que, sem tratamento, sem minha mão que o guiasse, ele iniciaria algum relacionamento com uma mulher e sua enfermidade floresceria novamente.
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SERVIÇO
- Manicômio
Autor - Patrick McGrath
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Henrique W. Leão
Páginas - 258
Quanto - R$ 40


