Vamos supor que o tempo seja colocado dentro de um vidro. Vamos supor que seja possível fechar a tampa. Olhando o vidro de perto, teremos o tempo ali, praticamente imóvel, bem diante dos olhos. Vamos supor que seja possível fazer o mesmo com o amor. Dentro de um vidro tampado, o amor estaria ali, inteiro, completo, bem diante dos olhos.
O escritor argentino Alan Pauls anula completamente essas duas possibilidades em seu romance ''O Passado''. Para ele, o tempo e o amor não estariam apenas dentro do vidro, mas em todas as circunstâncias e situações que os cercam. Mesmo quando isolados, tempo e amor, ocupam muito mais espaço que a mente consegue abarcar.
Publicado pela editora Cosac Naify, ''O Passado'' é a história do fim de um amor. Um fim que não termina. Parte da ideia de que quando o amor entre um casal acaba, na realidade ele continua. Pode parecer contraditório, mas leva em consideração algo que não pode deixar de existir: o passado vivido. As coisas podem até ser esquecidas, apagadas, mas fatalmente não deixam de existir.
''O Passado'' narra a história de amor entre o casal Rímini e Sofía. Os dois se conheceram na adolescência, na década de 70 de Buenos Aires, e logo formaram um casal perfeito. Uma união admirada pela família, amigos e invejada pelo mundo. Após 12 de casamento, de repente, ocorre a separação sem motivo aparente. O amor entre os dois era tão ideal, que simplesmente necessitava de uma separação para se tornar real. Um tipo de paradoxo mais contemporâneo impossível.
Após a separação, Rímini passa a vagar em direção ao abismo. Sofía invariavelmente está ao seu lado, como uma sombra indestrutível, como um passado tatuado na pele, nos neurônios, nos ossos. Mesmo assim, Rímini segue em frente, se relaciona com outras mulheres, casa-se e tem um filho. Mas trata-se de um caminho minado, onde cada passo dá origem a um vazio após outro.
O foco principal da narrativa de Alan Pauls está na figura de Rímini. Mesmo narrando em terceira pessoa, consegue inserir no texto um punhado de fantasmas em primeira pessoa. Cria uma construção mental atordoante fazendo uso de longos períodos repletos de metáforas díspares. Uma espécie de prosa inundada de barroco cerebral, uma linguagem próxima da ideia de rizoma. ''O Passado'' coloca num mesmo grau de igualdade forma e conteúdo.
Alan Pauls é um dos escritores argentinos mais cultuados nos últimos anos. Além de ''O Passado'', que foi transformado em filme por Hector Babenco, possui outros dois romances publicados no Brasil, ''História do Pranto'' (Cosac Naify, 2008) e ''Wasabe'' (Iluminuras, 1996). Nascido em 1959, na cidade de Buenos Aires, foi professor universitário e jornalista até se dedicar exclusivamente à literatura e à confecção de roteiros de cinema.
O cinema está presente em todo andamento do romance. Filmes de Luchino Visconti e François Truffaut fazem parte da memória emocional de Rímini e Sofía. Referências das artes plásticas também. O autor cria ficcionalmente a vida e obra de um artista europeu chamado Jeremy Riltse, louvado pelo casal. Trata-se de uma figura radical e controversa que produz uma arte impulsionada pela autodestruição.
A narrativa de Alan Pauls faz questão de deixar claro que o passado não deixa de existir num estalar dos dedos. Não deixa de existir após uma maratona de dores e machucados. Não deixa de existir nem mesmo depois das feridas cicatrizadas. O passado é fantasma sumariamente eterno.
Há também um discreto e sutil otimismo em ''O Passado''. Ele está presente na imagem de que a separação também faz parte do amor. Que a separação também é uma forma de amor, uma eterna continuação, uma torrente contínua em direção ao infinito.
Serviço
- O Passado
Autor - Alan Pauls
Editora - Cosac Naify
Tradução - Josely Vianna Baptista
Quanto - R$ 65 (480 págs. capa dura)

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