LEITURA - O fim da inocência
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de abril de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Alguns livros, quando colocados lado a lado, dão origem a conexões interessantes. Sugerem diferentes abordagens daquelas que poderiam surgir quando isolados. Percorrem caminhos onde a realidade pode ser pensada sem grandes teorias, bem próxima do relato direto da existência.
É o caso de dois livros de autores londrinenses publicados recentementes, ''Meninos de Kichute',' de Márcio Américo, e ''Hip Hop e Eu'', de Sérgio Ezequiel de Souza. São obras que, cada uma a seu modo, revelam a infância e o início da adolescência de garotos vivendo na periferia de Londrina em duas épocas distintas, na década de 70 e na década de 90.
''Meninos de Kichute'' (Editora Leia) retrata as aventuras e os dramas de garotos residentes na Vila Nova bairro operário situado naa periferia de Londrina dos anos 60 e 70. ''Hip Hop e Eu'' (Edição do Autor) retrata as aventuras e dramas de garotos residentes no União da Vitória bairro operário nascido de invasões e assentamentos situado na periferia da cidade nos anos 80 e 90. Ambos publicados através do Promic (Programa Municipal de Incentivo a Cultura), possuem cunho memorialista.
Em ''Meninos de Kichute'', Márcio Américo faz um relato singelo da infância num ''cortiço'' da Vila Nova. Mesmo que pontuada por ácidas ironias, coloca esse período da vida como um território sedutor para a memória. Justamente porque ele acabou, não existe mais, foi substituído pelo tempo adulto.
Brincadeiras de moleque, as coleções de figurinhas, os jogos de futebol de rua, as brigas na escola e muito mais são apresentados juntamente com valores de sobrevivência no interior de turmas. A experiência de um mundo restrito ao quintal, à família, à vizinhança e a algumas quadras, onde qualquer novidade é ouro ou figurinha premiada. Os ritos de passagens, geralmente traumáticos, dão um caráter singelo da visão infantil diante a crueldade do real.
Já em ''Hip Hop e Eu'', Sérgio Ezequiel de Souza (ou Segin, como é mais conhecido) faz um relato cru de uma infância na ''favela''. O caminho do moleque que abandona a escola para perambular pelas ruas, usar drogas, praticar roubos, entrar em brigas de gangues, trabalhar no tráfico, ter nas mãos uma arma, apanhar da polícia e ser preso. Uma trajetória bem conhecida e nem por isso revertida pela sociedade. A desestruturação familiar e a pobreza empurrando crianças para um lugar escuro e nebuloso mesmo que em nome da liberdade.
Trata-se do depoimento de alguém que viveu, pelo lado de dentro, o drama da violência, da criminalidade, do tráfico, da prisão, e conseguiu sair desse redemoinho. Utilizando para isso a arte, no caso, o Hip Hop. Esse é o grande testemunho que Segin, um dos integrantes do grupo ''Irmão do Gueto'', faz questão de frisar.
''Meninos de Kichute'' possui ritmo sedutor, uma narrativa repleta de histórias que fazem parte do imaginário de toda uma geração. Mas esbarra em alguns ruídos literários além de erros de revisão. Isso ocorre quando o narrador deixa a atmosfera do passado para emitir opiniões adultas, irônicas e bizarras, sobre as lembranças, provocando ruídos narrativos. O teor singelo do real é sumariamente apagada por pequenas provocações desprovidas de sentido. O que poderia ser relacionado ao estilo do autor, torna-se, aos olhos do leitor, um simples ruído.
O ritmo narrativo de ''Hip Hop e Eu'' é pautado pela rapidez. Sempre pontuado pela ação. Em linguagem oral, apresentada a vida de maneira crua e direta. A coerência do relato está em deixar para as últimas páginas o cunho educacional da história, onde o autor assinala que foi salvo da criminalidade graças ao Hip Hop. Algo que pode encorajar muitos garotos a realizar caminho semelhante. O ruído reside nos desnecessários erros de revisão que recheiam o livro.
Se de um lado ''Meninos de Kichute'' termina colocando a infância como um tempo perdido onde apenas a memória pode percorrer, de outro ''Hip Hop e Eu'' se encerra utilizando a infância como exemplo de como a vida pode ser melhor longe da violência e da prática ''descolada''.
Ninguém sai ileso da infância. Ninguém sai ileso da adolescência. Da mesma forma que ninguém sai ileso da vida adulta ou da velhice. Isso parece ser uma regra desprezada pelas cidades.
Serviço:
- Meninos de Kichute, de Márcio Américo. Editora Leia, 220 páginas, R$ 15,00.
- Hip Hop e Eu - Uma Biografia, de Sérgio Ezequiel de Souza. Edição do Autor, 164 páginas, R$ 15,00.
Os donos da escola, os caras que davam as cartas, os caras durões, experientes pra porem ordem naquele bando de moleques, eram Walderlei e o Cláudio, ambos já bem maiores que a gente. Eles foram, de certa forma, eleitos por nós, por nossa conivência e nosso silêncio. Walderlei e Cláudio usavam a dor como método de redenção, de reconstrução de caráter, mas seus métodos eram abundantes, o que lhes conferiam uma aura de sabedoria, independência e poder. Entre seus métodos estavam: privar o garoto de seu lanche mediante ameaça de uma repreensão de natureza física, humilhação através de apelidos pejorativos que em sua maioria serviam para evidenciar um aleijão (quatro olhos, manquinho, perninha, orelhão), apelidos especiais para definir o perfil físico de cada um, anulando assim nomes, esta coisa desgastante e impessoal: barriga, bola, gordo, baleia, mata-juntas, frangão...
(Fragmento de Meninos de Kichute de Márcio Américo)
As tretas ou seja, as brigas rolavam por causa de mulher, bebida ou dívida de droga. Sempre as tretas se resumiam a um desses três motivos. Com toda a confusão, não se podia confiar em ninguém. Esta foi a primeira coisa que aprendi no União da Vitória. A segunda é que eu tinha que andar armado, ou com os caras que faziam a fita errada (as fitas são roubos e furtos) para ser respeitado. E terceiro: não se fica devendo droga para ninguém, especialmente aos traficantes. Ainda há uma quarta regra: não se deve envolver com qualquer mina (garota), pois havia muitas mulheres de ladrão; e se envolver com qualquer uma delas é morte na certa.
(Fragmento de Hip Hop e Eu de Sérgio Ezequiel de Souza)


