O êxtase do nada

Warren NabucoO poeta Manoel de Barros em Campo Grande (MS), onde mora: novos rumos para a poesia brasileiraDesconfiado. Assim o poeta Manoel de Barros recebeu a notícia de que o seu ‘‘Livro Sobre Nada’’ havia sido o vencedor do cobiçado Prêmio Nestlé de Literatura. Não sem razão. Apesar dos vários livros publicados, sua obra ainda não conta com nenhuma fortuna crítica, o que não deixa de ser comum em países como o Brasil, onde a invenção, a surpresa poética, quase sempre são recepcionadas com melancólico desdém.
Barros, no entanto, expressou satisfação ao comentar que o crítico Benedito Nunes, um dos mais respeitados da cena contemporânea, participou da comissão julgadora. Também elogiou o parecer de Gabriel Vilella, publicado na imprensa carioca.
O ‘‘Livro Sobre Nada’’ é o décimo terceiro de Manoel de Barros, que, desde 1937, quando publicou ‘‘Poemas Concebidos Sem Pecado’’, vem sendo ignorado pelos principais críticos literários brasileiros. Avesso aos jogos de marketing que atualmente cercam o fazer literário, Barros recusou recentemente convites para participar de feiras internacionais do livro, como as de Frankfurt (Alemanha) e de Assunção (Paraguai).
Em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, onde mora com Stella, a musa, mantém ‘‘escritório de ser inútil’’. Nesse escritório invisível, viaja por dicionários antigos, traduz borboletas, escreve biografias de orvalho e de moscas, transforma nada em versos, e inventa - a partir do seu diálogo com a paisagem, a infância, as pré-coisas, coisas e pessoas desimportantes - novos rumos para poesia brasileira contemporânea.
Nascido na beira do Rio Corumbá, ele é o único poeta em Mato Grosso do Sul que pode nos informar sobre os dialetos perdidos da região do Pantanal, onde viveu a infância. Pertence, segundo ele mesmo, à vertente dos Barros loucos. Alguns dos escritores que sabem das coisas, como o paranaense Wilson Bueno, afirmam que ele é, junto com João Cabral de Melo Neto, o maior poeta vivo do Brasil. No ano passado, o ‘‘Livro das Ignorãças’’ foi traduzido para o alemão pelo mesmo tradutor do ‘‘Grande Sertão: Veredas’’. Poucos sabem, mas durante todo o tempo Manoel de Barros manteve uma saudável despreocupação em vencer ou não esta badalada edição do Prêmio Nestlé, entregue quinta-feira, no Rio de Janeiro.
Uma boa notícia para os leitores do poeta: em breve a editora Record começa a republicar todos os livros de Manoel de Barros, revistos, cortados ou aumentados pelo autor. Com a publicação, surge um novo momento para os críticos se aproximarem da obra do poeta, não para alfinetá-lo, mas, quem sabe, para desexplicar um pouco essa imprevisível despoesia.
Leia a seguir entrevista que Manoel de Barros concedeu à Folha2.
‘O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.’

Douglas Diegues
Especial para a ‘Folha2’
Folha2 - Como o sr. recebe o Prêmio Nestlé de Literatura, já que não moveu uma palha para conquistá-lo?
Manoel de Barros - Receber esse prêmio é bom para mim, para a minha eterna insegurança. Muita gente escreve sobre tudo e não ganha nada e eu escrevo um livro sobre nada e ganho cinquentinha. Não é estranho e honroso? Acho que isso só pode acontecer em poesia. Que na poesia é o lugar onde o nada se comporta melhor.
Folha2 - Sua obra ainda cresce, como um ser vivo, um piano vegetal, um gato alado. Como percebe o ‘‘Livro Sobre Nada’’ no contexto de sua obra? Concorda que é um livro inferior ao resto de sua produção?
Manoel de Barros - Sinceramente não concordo que seja inferior. Penso que fiquei menos insólito, menos incongruente do que nos outros. Penso que o livro é mais senhor da minha infância, que o meu dizer tem mais afeto dentro de outra experiência linguística. Talvez que as minhas contradições se expressem mais comportadas. Acho difícil falar do que faço porque sempre que faço é com o corpo. E o corpo é traiçoeiro e o corpo decai. É bem possível até que este livro sobre nada seja mesmo inferior aos outros. Pois que o corpo é miséria e pega doença. Isso para não dizer o pior: que o meu talento criador pode estar afetado por uma velhez indestrutível. Talvez o livro seja muito doce. A gente vai ficando sem farpas.
Folha2 - Apesar de vir sendo publicado desde 1937, até então sua obra não conta com nenhuma fortuna crítica, nem tem despertado a atenção dos principais críticos literários do País. A que atribui o desinteresse desses críticos?
Manoel de Barros - Acho que a minha poesia é um pouco desanormal. Para falar a verdade não sei por que os críticos não se aproximam dela nem sequer para dizer mal. Só o Marcelo Coelho teve coragem e me chamou de J. G. de Araújo Jorge contemporâneo. A verdade é que sou visto de retravés. Chego a me sentir rejeitado, às vezes. Mas vou indo. Tenho mais que cinco leitores. E isso é bom.
Folha2 - Há um artigo de Pedro Xisto sobre um de seus livros...Poderia falar desse artigo? O senhor também publicou haicais de Xisto em ‘‘Viola do Cocho’’...Poderia falar de sua relação com o Pedro Xisto, seus haicais etc?
Manoel de Barros - Conheci Pedro Xisto em minha casa no Rio, onde foi me visitar. Tinha sido nosso embaixador cultural no Japão. A esse tempo ele traduzia alguns haicais para o português. Em 1956 estava saindo o livro meu ‘‘Poesias’’. Pedro Xisto estava convidado a fazer um rodapé de crítica literária para a ‘‘Folha de S. Paulo’’. Estreou o rodapé com um estudo sobre meu livro. Seu rodapé não saiu mais nas semanas consecutivas. Não me lembro mais dos conceitos ou inconceitos que emitiu sobre o livro. Parece que era um ensaio que ressalvava a linguagem renovadora da minha poesia.
Folha2 - O senhor, que diz escrever todos os dias nem que seja apenas uma linha, não teme se acomodar após o prêmio?
Manoel de Barros - Um prêmio dessa importância poderia me levar a um estado celestial de ficar lambendo a cria para o resto de meus dias. Mas sou pai degenerado. Não gosto de lamber a cria ou afagá-la. Tenho medo de achar que o meu filho é mais bonito do mundo e não fazer mais nada. Depois que faço um livro não quero mais saber dele. Foi uma experiência linguística que exerci e fico com vontade de exercer outra. Fico esperando: oco, vazio, fútil.
Folha2 - O senhor disse certa vez que o Brasil e o mundo necessitam de bons poetas...Poderia falar mais sobre isso? Qual a importância dos poetas no mundo atual?
Manoel de Barros - Parece que o poeta serve para desacomodar as palavras. Não deixar que as palavras se viciem no mesmo contexto. Usar as palavras para ampliar o mundo há de ser outro milagre da poesia. Celebrar as moscas é um exemplo de como podemos ampliar o mundo. Uma das regras importantes da poesia é não ser demonstrativa. Poesia não presta para demonstrar nada. Ela só presta para dar néctar.
Folha2 - O seu tradutor polonês, Henryk Siewierski, afirmou que ‘‘o antropo-ex-centrismo do ‘Livro de Pré-Coisas’ e da ‘Gramática Expositiva do Chão’ leva o leitor a cogitar a possibilidade de ser a fragilidade e não a superioridade do homem a origem da civilização. A civilização que o faz esquecer sua verdadeira humanidade, humanidade que só através da comunhão com as pobres coisas do chão pode ser recuperada e complementada’’. De onde vem esse amor louco pelas pobres coisas do chão?
Manoel de Barros - É um olhar para baixo que eu nasci tendo. É um olhar para o ser menor, para o insignificante - que eu criei tendo. O ser que na sociedade é chutado como uma barata cresce de importância para meu olho. Ainda não entendi por que herdei esse olhar pra baixo. Sempre imagino que venha de ancestralidades machucadas. Fui criado no mato e aprendi a gostar das coisinhas do chão antes que das coisas celestiais. Pessoas pertencidas de abandono me comovem tanto quanto as soberbas coisas ínfimas.
Folha2 - Poderia falar um pouco sobre as línguas e os dialetos perdidos da região do Pantanal?
Manoel de Barros - Sei um pouco de certo pré-dialeto que conheci nos meus primeiros anos. Tudo ou quase tudo que sei aprendi em galpões de fazenda. Criança de fazenda pantaneira não tem prazer maior que fugir para o galpão. Ali o guri aprende os mistérios do sexo, os remédios do mato, os causos de adomação, as expressões mais tortas. O isolamento de tudo e de todos fertilizava as imaginações. A gente inventava tudo, principalmente as palavras que faltavam. Depois com nove anos fui para um internato de padres no Rio de Janeiro. Não me esquecia do galpão. Aos 13 comecei a ler sobre dialetologia. Imaginei que encontraria no pantanal um dialeto em formação. Pois que lá era uma ilha linguística. Colecionei nas férias mais de 500 expressões e termos inventados. Achava que estava se fazendo no Pantanal um dialeto. Sonhei estruturá-lo. Uma coisa pura. Uma língua nascendo da mistura dos paus-rodados, dos papa-bananas, dos bolivianos chiquitanos e dos bugres paraguaios. Me entusiasmei. Porém, alguns anos depois voltando ao Pantanal, já moço estudado, lá encontrei a língua ‘global’. Nossas vozes, nossos cantos, nosso vocabulário foram poluídos pelas vozes do rádio. Nos galpões ninguém tocava mais violão. Ouvir rádio era mais fácil.
Folha2 - No ‘‘Livro Sobre Nada’’ aparecem novos personagens: Bugrinha, Bola-Sete, Rômulo Quiroga, Andaleço, Antônio Ninguém. Existem outros personagens que ainda não apareceram?
Manoel de Barros - Tenho um andarilho principal de nome e apelido e cunho Mané Passo Triste. Ele dividia a tarde em duas partes. De um lado passeavam libélulas, passarinhos e ele. E do outro lado da tarde passeavam cavalos. Pretendo que o lado em que Passo Triste caminhava era o mais poético. E o lado dos cavalos era mais épico.
Folha2 - O que virá depois do ‘‘Livro Sobre Nada’’? O senhor prepara algum novo livro?
Manoel de Barros - Na data estou oco ainda. Não sei o que faço. Tenho alguns poemas prontos, cerca de 20, que seriam a primeira parte de um imaginado livro. Essa primeira parte se chamaria ‘‘Semântica da Insensatez’’. Mas não garanto. O poema serviria para reforçar a minha descrença na lógica. Ou, para confirmar um verso meu já publicado: ‘‘O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo’’.

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