Quando ele aparece, é como se três sóis invadissem o céu. Como se uma nova iluminação eliminasse todas as sombras. Como se portas e janelas fossem arrancadas para a brisa correr livremente. Quando ele aparece, a felicidade fica mais doce, o sofrimento mais amargo.
O primeiro amor é como um estado irrecuperável. Quando ele bate, o mundo deixa de ser aquilo que sempre foi. Os sentimentos ficam maiores que a matéria e se convertem em sensações físicas. A primeira paixão é a primeira grande aula da felicidade e, ao mesmo tempo, a primeira grande aula do sofrimento.
Para o escritor russo Ivan Turguêniev (1818 – 1883) o primeiro amor traz essas duas sensações antagônicas: a felicidade e o sofrimento. Sua novela "Primeiro Amor", publicada originalmente em 1860, é uma das clássicas narrativas da literatura russa do século 19 sobre esse sentimento universal. Descreve a experiência da paixão como uma galáxia a ser redescoberta sucessivamente a cada nova geração.
Uma nova edição de "Primeiro Amor" acaba de ser lançada pela editora Penguin com tradução diretamente do russo realizada pelo escritor carioca Rubens Figueiredo. A edição anterior disponível foi publicada em 2007 pela editora L&PM com tradução de Tatiana Belinky.
"Primeiro Amor" traz a história de Vladímir, um jovem de dezesseis anos que vai passar as férias, acompanhado do pai e da mãe, numa casa de veraneio nos arredores de Moscou. Perambulando pelas redondezas, o garoto conhece a jovem Zinaida, que igualmente passa a temporada de férias na companhia da mãe numa residência próxima.
Vladímir, que até então nunca havia experimentado o amor, se apaixona pela bela Zinaida. O drama é que a jovem, três anos mais velha que o garoto, começa a realizar um jogo de aproximação e distanciamento, de sedução e desprezo. Vladímir entrega-se à paixão não correspondida e experimenta a condição de subjugado. Em outras palavras, cai de quatro aos pés de Zinaida, que faz questão de demonstrar que possui o total controle da situação.
Em poucos dias o apaixonado vive todas as nuances do amor, a experiência de um novo sentimento, uma nova felicidade e igualmente um novo sofrimento por não ser correspondido. Vive também todo tipo de hesitação e dúvida características das primeiras paixões juvenis, mas capaz de mover rios e montanhas pela amada. Para completar, experimenta a competição masculina, já que a jovem possui outros pretendentes tentando fisgá-la a qualquer custo.
"Primeiro Amor" é narrado pelo próprio Vladímir, mas o desenho de personagem mais instigante recai sobre Zinaida. Apesar da pouca idade, ela domina as principais estratégias femininas de seduzir e controlar os homens. Sabe tirar proveito próprio daqueles que a amam ou a desejam sem grande juízo moral. Através de seu poder de mulher, subjuga deliberadamente os homens com devoção e escárnio. Tudo isso até o dia em que ela também se apaixona, mas não por um homem que é capaz de subjugar, mas por um homem que é capaz de subjugá-la.
Nesse processo, Vladímir começa a achar que o homem pelo qual ela está apaixonada é seu próprio pai, um sujeito autoritário capaz de subjugar qualquer um que aparecer pela frente. O mundo do garoto despenca montanha abaixo. A narrativa de "Primeiro Amor" possui sutis elementos capazes de arrancar sorrisos irônicos de Nelson Rodrigues na tumba.
Embora a novela seja uma das obras de Ivan Turguêniev onde questões sentimentais estão em destaque, o pano de fundo revela um período crítico da Rússia. Um período em que o tsar Alexandre II decreta o fim do trabalho servil no império, onde os camponeses trabalhavam em regime de semiescravidão. Duas descrições pontuais e totalmente discretas oferecem esse contexto.
Ivan Serguêievitch Turguêniev nasceu na província de Oriol, em 1818, no seio de uma rica família aristocrática. O pai pertencia ao alto escalão militar, a mãe, com título de nobreza, gerenciava a enorme propriedade rural da família com mais de 5 mil servos. Turguêniev nunca precisou trabalhar. Após estudar em São Petersburgo e Berlim, desistiu da carreira acadêmica para se dedicar exclusivamente à literatura. Morava uma parte do ano na Rússia e outra parte na França, onde era amigo de figuras como Émile Zola, Henry James e Gustave Flaubert. Morreu na França em 1883 e foi enterrado na Rússia com um cortejo de milhares e pessoas.
"Primeiro Amor" não retrata um jogo de forças, mas um jogo onde cada um aposta para ganhar aquilo que tem para perder. Se Vladímir experimenta o primeiro amor e é capaz de tudo para vivenciá-lo, por outro lado, Zinaida também experimenta o primeiro amor e faz de tudo para vivê-lo. Tudo se resume a desencontros. As consequências das duas paixões são completamente diferentes, mas são paixões como as paixões devem ser: riscos.
Se o primeiro amor é um estado irrecuperável, três sóis podem aparecer no céu, portas e janelas podem voar pelos ares. Tudo pode ser erguido, tudo pode ser derrubado, como o eterno doce de algo amargo.

Serviço:
"Primeiro Amor"
Autor – Ivan Turguêniev
Editora – Penguin
Tradução e apresentação – Rubens Figueiredo
Páginas – 112
Quanto – R$ 24,90

Minha paixão teve início naquele dia. Lembro que senti, então, algo semelhante ao que deve sentir um homem que vai ao trabalho pela primeira vez: eu já deixara de ser um menino; estava apaixonado. Disse que naquele dia teve início minha paixão. Poderia acrescentar que naquele mesmo dia tiveram início também meus sofrimentos; na ausência de Zinaida, me sentia arrasado: não me vinha nenhum pensamento, tudo caía de minhas mãos, eu pensava nela dias inteiros com ansiedade... Eu não aguentava mais... Porém, em sua presença, me sentia aliviado. Tinha ciúmes, reconhecia minha insignificância, me irritava estupidamente e me mostrava estupidamente servil – e, no entanto, uma força irresistível me arrastava para ela e eu transpunha a soleira de seu quarto sempre com um tremor de felicidade incontido. Zinaida logo adivinhou que eu estava apaixonado, e eu não pensava em esconder isso; ela brincava com minha paixão, me ludibriava, mimava, torturava. É doce ser a única fonte, a causa absoluta e inquestionável de alegrias imensas e do desgosto mais profundo por alguém – e nas mãos de Zinaida eu era como cera mole. (Fragmento de "Primeiro Amor", de Ivan Turguêniev)
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