No auge da riqueza das plantações de café das décadas de 1950 e 1960, os habitantes de Londrina desejam viver uma cidade moderna. Desejavam criar uma imagem sedutora de progresso urbano. Para satisfazer esse desejo, a arquitetura se revelou um verdadeiro banquete.
Essa busca pela modernidade das edificações erguidas em Londrina nessas duas décadas é o tema do novo livro da arquiteta e pesquisadora londrinense Juliana Suzuki, ''Idealizações de Modernidade - Arquitetura dos Edifícios Verticais em Londrina 1949 - 1969''. Publicado pela editora Kan, o livro será lançado hoje à noite, 19h, na Livraria da Silvia (Rua Belo Horizonte, 900 - Loja 19).
A obra resgata a história da construção dos primeiros 26 edifícios erguidos na região central de Londrina. Além de analisar as características arquitetônicas dos prédios, Juliana Suzuki oferece um painel abrangente do contexto histórico, econômico, social e cultural da cidade no momento em que as edificações foram idealizadas. Entre outros, estão os edifícios Autolon, Sahão, Centro Comercial, Júlio Fuganti, Comendador Caminhoto, Tuparandi, Conjunto Folha de Londrina, Bosque, Manela, Tóquio, Santa Helena, Alvorada, Metrópole, Santa Mônica, América, Panorama e Regina.
Uma das revelações presente em ''Idealizações de Modernidade'' está a comprovação de que o arquiteto alemão Philipp Lohbauer criou projetos para o conjunto Cine Ouro Verde e Edifício Autolon, e não apenas o arquiteto paulista Vilanova Artigas como a história oficial de cidade registra.
Arquiteta formada pela Universidade Estadual de Londrina com mestrado e doutorado pela Universidade de São Paulo, Juliana Suzuki atualmente é professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná e suas pesquisas estão todas voltadas para a história da arquitetura de Londrina. A seguir ela fala de seu novo livro.
A tese central do livro é de que, nas décadas de 1950 e 1960, os londrinenses desejavam uma cidade com ares de modernidade. A satisfação desse desejo ocorreu através da arquitetura. Como aconteceu esse processo?
Londrina viveu um momento de notável prosperidade econômica durante as décadas de 1950 e 1960. A cultura cafeeira possibilitou as condições econômicas necessárias para que a sociedade londrinense pudesse materializar seu desejo de construir uma cidade moderna e progressista. Desta forma, buscava-se reproduzir o que havia de mais moderno nos grandes centros urbanos brasileiros, sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro. A opção pela arquitetura moderna, portanto, era quase óbvia, considerando ser esta a arquitetura que se produzia nas grandes capitais.
Em seu livro anterior, ''Artigas e Cascaldi: Arquitetura em Londrina'' (Ateliê Editorial, 2003), você focalizava a arquitetura erudita. Neste novo livro você aborda a arquitetura do homem comum das ruas. Como foi essa transição?
No primeiro livro estudei as obras de Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi em Londrina. Artigas é um dos grandes nomes da arquitetura brasileira. Neste primeiro livro, achava que era importante divulgar a obra que esses arquitetos realizaram em Londrina para um público específico, interessado na arquitetura erudita, como estudantes e profissionais da área em todo o Brasil - como também para os londrinenses, para que reconhecessem a riqueza deste patrimônio arquitetônico londrinense. Este novo livro é uma espécie de continuação da pesquisa anterior. Uma cidade não é feita somente de obras de exceção, mas de construções menos vistosas individualmente, mas que no conjunto formam a fisionomia das cidades. Assim, estudar essa arquitetura do homem comum torna-se uma tarefa tão importante quanto estudar a produção arquitetônica erudita. De certa forma, os dois livros possuem abordagens complementares. Além disso, este novo livro traz uma visão menos acadêmica da arquitetura de Londrina. Somos uma cidade de história recente, e eu gostaria que as pessoas, ao lerem o livro, reconhecessem, mais do que a história da arquitetura, suas próprias histórias e de suas famílias, e que percebessem que a preservação desta arquitetura é, na realidade, a preservação de sua memória. A arquitetura está presente no ambiente que nos rodeia e é cenário das nossas histórias pessoais. É um livro de conotação muito mais afetiva que acadêmica.
O livro traz à tona engenheiros, construtores, arquitetos e projetistas que não fazem parte da história oficial da cidade. Qual a importância desses profissionais na urbanização de Londrina?
A importância do trabalho destes profissionais é fundamental, não somente aqueles especificamente citados no livro, mas trata-se de um tributo a um número expressivo de pessoas que, mesmo anonimamente, são as responsáveis pela construção daquilo que se vê nas cidades brasileiras e não somente em Londrina. O fato de frequentemente não serem mencionadas pela história oficial não tira o mérito de seu trabalho.
Uma das revelações do livro está em mostrar que projeto do conjunto Cine Ouro Verde e Edifício Autolon não foi, como a historiografia oficial prega, encomendado especificamente para o arquiteto Vilanova Artigas. Como é essa história?
Ao longo da pesquisa surgiram detalhes interessantes a respeito da construção destes edifícios. Em princípio acreditava-se que essas obras haviam sido encomendadas diretamente a Artigas e Cascaldi. A descoberta de estudos anteriores de autoria do arquiteto alemão Philipp Lohbauer sugere que houve uma espécie de concorrência para a elaboração dos projetos. Esse fato comprova a efervescência construtiva que havia na cidade, apesar de suas reduzidas dimensões.
Outra curiosidade da obra está em revelar que o projeto do Edifício Júlio Fuganti foi inspirado numa foto de calendário. A arquitetura dos edifícios de Londrina estaria muito mais baseada na reprodução de idéias do que na originalidade?
Na verdade, isso comprova que as fontes de produção da arquitetura não provêm exclusivamente de origens eruditas, mas de imagens presentes no cotidiano da população. Significa para mim que a arquitetura estava presente em todos os lugares, como ainda está, e que são várias as suas fontes de inspiração, sem que isso resulte em má arquitetura.
Diante da história da arquitetura de Londrina, que leitura você faz das mais últimas transformações urbanísticas que a cidade vem sofrendo nos últimos anos, da descaracterização do calçadão à febre dos condomínios?
Londrina nasceu sob o signo da novidade e da modernidade. Transformações ocorrem e são normais em qualquer cidade. Contudo, há muitos outros fatores que deveriam ser considerados quando intervimos no espaço urbano, que vão muito além da resolução de problemas de ordem funcional. A preservação da memória e do patrimônio cultural é um desses fatores. Acredito que é possível conciliar o desenvolvimento da cidade com a proteção de seu patrimônio. Para isso deve haver uma política continuada de atuação nessa área por parte do poder público e também a conscientização da importância de se proteger nossa memória por parte da população. Ocorre que muitas vezes o que se vê é a decisão de mudar, transformar ou substituir sem uma reflexão mais profunda, o que resulta em perdas muitas vezes irreparáveis para o patrimônio da cidade.
Serviço:
Idealizações de Modernidade - Arquitetura dos Edifícios Verticais em Londrina 1949 - 1969
Autor - Juliana Suzuki
Editora - Kan
Páginas - 180 (capa dura)
Quanto - R$ 25,00
Patrocínio - Promic
Lançamento:
Dia - 11 de outubro (terça-feira)
Horário - 19h
Local - Livraria da Sílvia (Rua Belo Horizonte, 900 - loja 19 - telefone 3026-9339)
Fragmento:
A arquitetura londrinense foi conduzida por construtores até o final dos anos 40, quando Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi introduziram a arquitetura moderna na cidade e região, iniciando-se um período de efervescência construtiva, que resultou num processo notável de verticalização. O conjunto de obras desses arquitetos influenciou toda a produção arquitetônica subsequente e, somada às ligações históricas com o período de colonização, estabeleceram fortes relações de identificação com a arquitetura paulistana, reforçadas também pelo trabalho dos arquitetos provenientes desse Estado durante os anos de 1960.
De maneira geral, assim poderia ser resumida a impressão inicial que se tinha da trajetória a arquitetura de Londrina entre os anos de 1949 e 1969. Esta versão, contudo, senão totalmente inverídica é, em muitos pontos imprecisa.
A partir do exame da história dos edifícios verticais, observa-se que a arquitetura londrinense conheceu uma trajetória bastante distinta daquilo que usualmente se considerava verdadeiro. O primeiro fato a ser questionado é o pioneirismo de Artigas e Cascaldi como os primeiro arquitetos atuantes na região: antes deles, Philipp Lohbauer já elaborava projetos para a cidade e região, a partir de sua vinculação à Empresa de Construções Brasil.
Surpreende a existência de estudos anteriores, elaborados pelo arquiteto alemão, do complexo Cine Ouro Verde e Edifício Autolon, derrubando a versão de que Artigas e Cascaldi tivessem recebido a incumbência de projetar os edifícios sob encomenda exclusiva por parte dos proprietários do terreno.
(Fragmento de ''Idealizações de Modernidade - Arquitetura dos Edifícios Verticais em Londrina 1949 - 1969'', de Juliana Suzuki)

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