LEITURA - O esquecimento dos ossos
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de janeiro de 2009
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 2 
Realidade e delírio. Duas coisas aparentemente distintas, algo como água e azeite. Se colocadas numa mesma cumbuca, delimitam suas próprias fronteiras invioláveis.
No liquidificar mental do escritor chileno Roberto Bolaño (1953 - 2003), ocorre algo diferente. Água e azeite mandam as fronteiras para o espaço sideral. Em suas mãos, a literatura torna-se um território onde o delírio invade a realidade com o mesmo ímpeto com que a realidade viola o delírio.
Amuleto, último romance concluído por Bolaño antes de morrer de cirrose hepática em 2003, é uma espécie de confluência entre realidade e delírio num espaço e tempo marcado. Lançado pela editora Companhia das Letras, traz o relato de Auxilio, uma garota hiponga que ganha notoriedade ao ser a única pessoa não presa pelo exército mexicano durante a lendária invasão da Universidade Nacional Autônoma do México no emblemático ano de 1968.
No momento da invasão, Auxilio está tranquilamente num dos banheiros da Universidade de saias arriadas, sentada na privada
, lendo um livro de poesia. Ao presenciar pela janela alunos e professores serem espancados e confinados em camburões, resolve ficar onde está, quieta e invisível. O episódio está todo baseado em fatos reais e históricos.
Auxilio permanece trancada no banheiro por duas semanas. Sobrevive bebendo água da torneira, comendo papel higiênico e lendo livros de poesia. Toda narrativa de Amuleto pode ser considerada como uma coleção de delírios da personagem isolada do banheiro, relembrando episódios de sua vivência no seio da boemia literária da Cidade do México.
A grande maioria dos textos de Bolaño está repleta de referências. Os fatos vividos por ele e acontecimentos históricos aparecem num único bloco, sem nenhum processo de distinção entre ficção e história. Algo semelhante ocorre em outros dois romances de sua autoria publicados no Brasil, Noturno no Chile e Pista de Gelo. Amuleto, por exemplo, está repleto de referências literárias que, para o leitor brasileiro apreender com mais abrangência, seria necessário um mapa da literatura produzida no México entre o final da década de 60 e início de 70.
Na última entrevista que concedeu, Bolaño situou sua literatura da seguinte maneira: Tudo que escrevi é uma carta de amor ou de despedida à minha própria geração, os que nasceram na década de 50. Toda a América Latina está semeada com os ossos desses jovens esquecidos. Talvez Amuleto seja a obra que mais sintetize essa ideia. Política e arte encaradas através da ótica do delírio.
Até os 40 anos de idade, Bolaño havia publicado praticamente um único livro. Nos últimos dez anos de vida, de 1993 a 2003, publicou 16 obras englobando contos, poesias, novelas e romances. E deixou um romance inacabado, intitulado 2666, que se tornou o livro de língua espanhola mais cultuado nos Estados Unidos em 2008. Bolaño tornou-se uma espécie de moda literária. O volume com mais de mil páginas está prevista para ser publicado no Brasil em 2010 pela Companhia das Letras. Apesar da ousadia narrativa de 2666, sua melhor obra continua sendo o atordoante romance Os Detetives Selvagens, lançado aqui em 2007.
Bolaño morreu, aos 50 anos de idade, numa fila de transplante de fígado na total penúria. Após bater as botas, sua literatura passou a ser louvada como grande novidade latino-americana, uma escrita capaz de unir realidade e delírio numa única cumbuca. E ninguém foi capaz de perceber isso enquanto o sujeito estava com o fígado intacto.
(Fragmento de Amuleto de Roberto Bolaño)
Estou no banheiro das mulheres da faculdade e posso ver o futuro, dizia eu com voz de soprano e como se me fizesse de rogada.
Eu sei dizia a voz do sonho, eu sei, comece com as profecias que eu anoto.
Então eu tomava fôlego, hesitava, punha a mente em branco e finalmente dizia: minhas profecias são estas.
Vladimir Maiakovski voltará a ficar na moda lá pelo ano de 2150. James Joyce reencarnará num menino chinês no ano de 2124. Thomas Mann se converterá num farmacêutico equatoriano no ano de 2101.
Marcel Proust entrará num desesperado e prolongado esquecimento a partir de 2033. Ezra Pound desaparecerá de algumas bibliotecas em 2089. Jorge Luis Borges será lido nos túneis no ano de 2045.
Virginia Wolf reencarnará numa nadadora argentina no ano de 2076. Louis-Ferdinand Céline entrará no Purgatório no ano de 2094. Paul Éluard será um poeta de massas no ano de 2101.
Cesare Pavese se transformará no Santo Padroeiro do Olhar no ano de 2034. Robert Arlt verá toda a sua obra levada ao cinema no ano de 2102. Paul Celan ressurgirá das cinzas em 2113. Quem lerá Gary Snyder? Alejandra Pizarnik perderá sua última leitora em 2100. Margarite Duras viverá no sistema nervoso de milhares de mulheres no ano de 2035.
E a vozinha dizia que curioso, que curioso, alguns dos autores que você cita eu não li.
■ Amuleto
Autor - Roberto Bolaño
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Eduardo Brandão
Quanto - R$ 33 (134 págs.)


