Rea­li­da­de e de­lí­rio. ­Duas coi­sas apa­ren­te­men­te dis­tin­tas, al­go co­mo ­água e azei­te. Se co­lo­ca­das nu­ma mes­ma cum­bu­ca, de­li­mi­tam ­suas pró­prias fron­tei­ras in­vio­lá­veis.
  No li­qui­di­fi­car men­tal do es­cri­tor chi­le­no Ro­ber­to Bo­la­ño (1953 - 2003), ocor­re al­go di­fe­ren­te. ­Água e azei­te man­dam as fron­tei­ras pa­ra o es­pa­ço si­de­ral. Em ­suas ­mãos, a li­te­ra­tu­ra tor­na-se um ter­ri­tó­rio on­de o de­lí­rio in­va­de a rea­li­da­de com o mes­mo ím­pe­to com que a rea­li­da­de vio­la o de­lí­rio.
  ‘‘­Amuleto’’, úl­ti­mo ro­man­ce con­cluí­do por Bo­la­ño an­tes de mor­rer de cir­ro­se he­pá­ti­ca em 2003, é uma es­pé­cie de con­fluên­cia en­tre rea­li­da­de e de­lí­rio num es­pa­ço e tem­po mar­ca­do. Lan­ça­do pe­la edi­to­ra Com­pa­nhia das Le­tras, ­traz o re­la­to de Au­xi­lio, uma ga­ro­ta hi­pon­ga que ga­nha no­to­rie­da­de ao ser a úni­ca pes­soa não pre­sa pe­lo exér­ci­to me­xi­ca­no du­ran­te a len­dá­ria in­va­são da Uni­ver­si­da­de Na­cio­nal Au­tô­no­ma do Mé­xi­co no em­ble­má­ti­co ano de 1968.
  No mo­men­to da in­va­são, Au­xi­lio es­tá tran­qui­la­men­te num dos ba­nhei­ros da Uni­ver­si­da­de de ­saias ar­ria­das, sen­ta­da na pri­va­da
, len­do um li­vro de poe­sia. Ao pre­sen­ciar pe­la ja­ne­la alu­nos e pro­fes­so­res se­rem es­pan­ca­dos e con­fi­na­dos em cam­bu­rões, re­sol­ve fi­car on­de es­tá, quie­ta e in­vi­sí­vel. O epi­só­dio es­tá to­do ba­sea­do em fa­tos ­reais e his­tó­ri­cos.
  Au­xi­lio per­ma­ne­ce tran­ca­da no ba­nhei­ro por ­duas se­ma­nas. So­bre­vi­ve be­ben­do ­água da tor­nei­ra, co­men­do pa­pel hi­giê­ni­co e len­do li­vros de poe­sia. To­da nar­ra­ti­va de ‘‘­Amuleto’’ po­de ser con­si­de­ra­da co­mo uma co­le­ção de de­lí­rios da per­so­na­gem iso­la­da do ba­nhei­ro, re­lem­bran­do epi­só­dios de sua vi­vên­cia no ­seio da boe­mia li­te­rá­ria da Ci­da­de do Mé­xi­co.
  A gran­de maio­ria dos tex­tos de Bo­la­ño es­tá re­ple­ta de re­fe­rên­cias. Os fa­tos vi­vi­dos por ele e acon­te­ci­men­tos his­tó­ri­cos apa­re­cem num úni­co blo­co, sem ne­nhum pro­ces­so de dis­tin­ção en­tre fic­ção e his­tó­ria. Al­go se­me­lhan­te ocor­re em ou­tros ­dois ro­man­ces de sua au­to­ria pu­bli­ca­dos no Bra­sil, ‘‘No­tur­no no ­Chile’’ e ‘‘Pis­ta de ­Gelo’’. ‘‘­Amuleto’’, por exem­plo, es­tá re­ple­to de re­fe­rên­cias li­te­rá­rias que, pa­ra o lei­tor bra­si­lei­ro apreen­der com ­mais abran­gên­cia, se­ria ne­ces­sá­rio um ma­pa da li­te­ra­tu­ra pro­du­zi­da no Mé­xi­co en­tre o fi­nal da dé­ca­da de 60 e iní­cio de 70.
  Na úl­ti­ma en­tre­vis­ta que con­ce­deu, Bo­la­ño si­tuou sua li­te­ra­tu­ra da se­guin­te ma­nei­ra: ‘‘Tu­do que es­cre­vi é uma car­ta de ­amor ou de des­pe­di­da à mi­nha pró­pria ge­ra­ção, os que nas­ce­ram na dé­ca­da de 50. To­da a Amé­ri­ca La­ti­na es­tá se­mea­da com os os­sos des­ses jo­vens es­que­ci­dos.’’ Tal­vez ‘‘­Amuleto’’ se­ja a ­obra que ­mais sin­te­ti­ze es­sa ­ideia. Po­lí­ti­ca e ar­te en­ca­ra­das atra­vés da óti­ca do de­lí­rio.
  Até os 40 ­anos de ida­de, Bo­la­ño ha­via pu­bli­ca­do pra­ti­ca­men­te um úni­co li­vro. Nos úl­ti­mos dez ­anos de vi­da, de 1993 a 2003, pu­bli­cou 16 ­obras en­glo­ban­do con­tos, poe­sias, no­ve­las e ro­man­ces. E dei­xou um ro­man­ce ina­ca­ba­do, in­ti­tu­la­do ‘‘2666’’, que se tor­nou o li­vro de lín­gua es­pa­nho­la ­mais cul­tua­do nos Es­ta­dos Uni­dos em 2008. Bo­la­ño tor­nou-se uma es­pé­cie de mo­da li­te­rá­ria. O vo­lu­me com ­mais de mil pá­gi­nas es­tá pre­vis­ta pa­ra ser pu­bli­ca­do no Bra­sil em 2010 pe­la Com­pa­nhia das Le­tras. Ape­sar da ou­sa­dia nar­ra­ti­va de ‘‘2666’’, sua me­lhor ­obra con­ti­nua sen­do o ator­doan­te ro­man­ce ‘‘Os De­te­ti­ves ­Selvagens’’, lan­ça­do ­aqui em 2007.
  Bo­la­ño mor­reu, aos 50 ­anos de ida­de, nu­ma fi­la de trans­plan­te de fí­ga­do na to­tal pe­nú­ria. ­Após ba­ter as bo­tas, sua li­te­ra­tu­ra pas­sou a ser lou­va­da co­mo gran­de no­vi­da­de la­ti­no-ame­ri­ca­na, uma es­cri­ta ca­paz de ­unir rea­li­da­de e de­lí­rio nu­ma úni­ca cum­bu­ca. E nin­guém foi ca­paz de per­ce­ber is­so en­quan­to o su­jei­to es­ta­va com o fí­ga­do in­tac­to.


(Fragmento de ‘Amuleto’ de Roberto Bolaño)
  Estou no banheiro das mulheres da faculdade e posso ver o futuro, dizia eu com voz de soprano e como se me fizesse de rogada.
  Eu sei dizia a voz do sonho, eu sei, comece com as profecias que eu anoto.
  Então eu tomava fôlego, hesitava, punha a mente em branco e finalmente dizia: minhas profecias são estas.
  Vladimir Maiakovski voltará a ficar na moda lá pelo ano de 2150. James Joyce reencarnará num menino chinês no ano de 2124. Thomas Mann se converterá num farmacêutico equatoriano no ano de 2101.
  Marcel Proust entrará num desesperado e prolongado esquecimento a partir de 2033. Ezra Pound desaparecerá de algumas bibliotecas em 2089. Jorge Luis Borges será lido nos túneis no ano de 2045.
  Virginia Wolf reencarnará numa nadadora argentina no ano de 2076. Louis-Ferdinand Céline entrará no Purgatório no ano de 2094. Paul Éluard será um poeta de massas no ano de 2101.
  Cesare Pavese se transformará no Santo Padroeiro do Olhar no ano de 2034. Robert Arlt verá toda a sua obra levada ao cinema no ano de 2102. Paul Celan ressurgirá das cinzas em 2113. Quem lerá Gary Snyder? Alejandra Pizarnik perderá sua última leitora em 2100. Margarite Duras viverá no sistema nervoso de milhares de mulheres no ano de 2035.
  E a vozinha dizia que curioso, que curioso, alguns dos autores que você cita eu não li.


■ Amuleto
Autor - Roberto Bolaño
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Eduardo Brandão
Quanto - R$ 33 (134 págs.)

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