LEITURA - O espelho do corpo
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de setembro de 2004
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
Tudo indica que a velhice carrega um paradoxo nas mãos. Quando o ser humano chega à idade onde a compreensão, tanto do mundo como de si mesmo, atinge o ápice, o corpo não consegue fazer uso desse conhecimento. O tempo torna-se um impiedoso carrasco.
Ter acumulado experiência existencial e não poder fazer uso dela de maneira direta nos desejos mais próximos, torna-se um drama. E a ilusão de resolução, ou de felicidade, amanhece como um vômito azedo e incômodo na sala.
Em seu novo livro, ''O Corpo e Outras Histórias'', o escritor inglês Hanif Kureishi coloca esse paradoxo em evidência para refletir sobre a sede do ser humano pela eternidade. Uma sede que, no prolongamento da vida, invariavelmente, transforma as águas da existência numa fonte de infortúnio.
Lançado pela Editora Companhia das Letras, ''O Corpo e Outras Histórias'' é formado por uma novela (que dá título ao volume) e sete contos. Nos contos, Kureishi realiza um retrato dos impasses das relações familiares contemporâneas. O destaque fica por conta da novela ''O Corpo'', que narra a história de Adam, um dramaturgo sexagenário que experimenta a possibilidade de eternidade.
Tudo começa quando Adam, sentindo a degradação física, é convidado por uma secreta equipe de médicos a fazer parte de um seleto e rico grupo de pessoas que podem trocar de corpo. Com alta tecnologia, seu cérebro deverá ser transplantado num corpo de 25 anos sem que nenhuma de suas faculdades mentais sejam alteradas. Nada mais do que trocar de corpo como se substitui uma velha e rasgada roupa velha por uma nova e bela.
Seduzido pela idéia, Adam se submete ao transplante sob a condição de habitar outro jovem corpo por apenas seis meses. Depois desse prazo, deseja voltar ao seu corpo original. Os médicos aceitam a condição, mas deixam claro que todos aqueles que passaram pelo transplante, nunca desejaram reverter o processo. Assim, com um novo corpo e uma nova identidade, Adam empreende uma solitária viagem mundo afora vivendo experiências que, anteriormente, pela sua aparência e condição física, seriam impossíveis.
A temática pode parecer batida e desgastada, principalmente pela grande quantidade de filmes que utilizaram argumentos semelhantes em seus roteiros. Mas a narrativa de Hanif Kureishi percorre os lugares mais obscuros e inconfessáveis daqueles presentes no senso comum. Os elementos de ficção científica utilizados são detalhes mínimos, o grande objetivo é expor como a juventude tornou-se um bem precioso em detrimento à depreciação da velhice.
Em alguns momentos, o autor parece realizar uma espécie de releitura contemporânea de ''Retrado de Dorian Gray'', clássico romance do escritor irlandês Oscar Wilde (1856 - 1900): a beleza e a juventude passam a ser regidas por uma ganância perversa onde o sentido da aparência e da matéria viola a própria essência. E num mundo comandado pela noção de mercado, a aparência torna-se a moeda mais valorizada.
Nesse quadro, a beleza dos corpos jovens passa a ser cobiçada pela experiência de cérebros ''velhos''. Adam percebe que antes que possa voltar ao corpo original, seu corpo ''emprestado'' pode ser roubado para abrigar outro cérebro. Então uma nova paranóia nasce na aurora da eternidade.
Em ''O Corpo'', Kureishi autor de obras como ''Minha Adorável Lavanderia (1987), ''O Buda do Subúrbio'' (1990), ''Intimidade'' (1998) e ''O Dom de Gabriel'' (2001) trabalha com a idéia filosófica de que a eternidade é um pesadelo. O desejo pela existência eterna que acompanha o homem ao longo do tempo representa, na verdade, um peso que o homem não consegue suportar. Morrer pode fazer mal à saúde, mas torna-se mentalmente saudável.
* Serviço:
- O Corpo e Outras Histórias, de Hanif Kureishi, Editora Companhia das Letras, tradução de Sérgio Tellaroli, 304 páginas, R$ 43,50.


