Diz a lenda que após a Segunda Guerra Mundial a destruição da Hungria era tão grande que os sobreviventes precisaram ler os livros de Gyula Krúdy (1878 - 1933) para resgatar o próprio passado, a memória cultural perdida pela violência. Isso porque Krúdy era um escritor que retratava os detalhes, os segredos mais íntimos do cotidiano, da vida dos habitantes das variadas regiões do país.
Esse processo levou o escritor húngaro, que estava praticamente esquecido, a uma espécie de idolatria. Suas histórias foram resgatadas das cinzas e caíram no gosto de milhares de leitores. Acima de tudo, seus escritos traziam uma narrativa inusitadas que revelavam o tempo correndo nas veias dos sentimentos humanos.
Pouco conhecida no Brasil, a literatura de Gyula Krúdy é apontada por alguns pesquisadores como correspondente àquela produzida por Marcel Proust. ''O Companheiro de Viagem'', romance que acaba de ser lançado pela editora Cosac & Naify, é uma bela mostra da literatura de Krúdy. Nela, o narrador apresenta a história que ouviu de um homem desconhecido enquanto realizava uma viagem de trem pelo interior da Hungria.
Esse homem revela a história de amor que viveu no passado e que alterou de maneira radical sua existência, bem como o entendimento das sinuosas escadas da razão. Passando uma breve temporada numa cidade pequena, estabelece relações subjetivas com duas mulheres. Uma delas é casada, esposa de meia- idade, a outra uma jovem adolescente intempestiva fugindo dos preceitos da mãe.
O amor, de certa maneira, não é centro da narrativa, embora permeie toda a história. O foco primordial de Krúdy recai sobre as nebulosas nuvens que se esconde sob as relações. E como o social se ocupa desse assunto de modo sinistro. Seja nos desejos mais ocultos e inconfessáveis ou nos desejos abertamente aceitos como normalidade aceitável. O grande impacto das história está na atmosfera desenvolvida pelo autor que, em algumas de características, remete a uma radicalização da melhor prosa produzida pelos grandes escritores russos do século 19.
Boêmio por convicção, Gyula Krúdy escrevia de modo compulsivo. Trabalhava sem grandes ambições, escrevia nas maioria das vezes em troca de uma refeição e de uma garrafa de conhaque. Perambulando por todo o país, deixou folhetins, contos, novelas, romances, peças e artigos espalhados por dezenas de jornais da Hungria. Normalmente não se preocupava em reescrever ou revisar seus escritos. Nem dava atenção ao modo como eram publicados. Mesmo respeitado enquanto vivo, morreu na miséria num pequeno quarto alugado na mais decadente região de Budapeste.
O primeiro texto de Krúdy publicado no Brasil apareceu na ''Antologia do Conto Húngaro'', obra organizada e traduzida por Paulo Rónai e publicada em 1957 pela Civilização Brasileira. Era um livro que reunia 20 autores húngaros e contava com um interessante prefácio onde Guimarães Rosa comentava as particularidade da língua e a cultura húngara. Outros dois textos aparecem muito tempo depois, em ''Contos Húngaros'', publicado pela Edusp em 1991.
Ainda hoje os pesquisadores não têm uma idéia completa da produção deixada por Krúdy. Isso porque grande parte de sua produção foi publicada esparsadamente e o restante acabou se perdendo. Mesmo assim, admiradores de sua literatura como Sándor Márai, outro grande nome da literatura húngara, conseguiram preservar vários de seus escritos. O próprio Márai, escreveu um romance utilizando como personagem Szindbád, o alter ego de Krúdy em vários de seus textos. Um fragmento desse texto de Márai integra a edição da Cosac & Naify.
A leitura de ''O Companheiro de Viagem'', escrito em 1918, é uma viagem através da descrições de lugares, objetos, lugares e sensações que atravessam o corpo de um homem. Um homem que pauta sua vida pela conquista de mulheres e acaba caindo num enigmático vórtice do sentido do tempo.
Serviço:
- ''O Companheiro de Viagem'' de Gyula Krúdy, Cosac & Naify Edições, tradução do húngaro e prefácio de Paulo Schiller, apêndice de Sándor Márai, 138 páginas, R$ 33,00.

''Vez por outra me ocorria que Esztena, em algum lugar da cidade, como uma criança boa e aplicada, finalizava com o coração tranquilo, puro, os preparativos para o grande dia, o mais inesquecível da vida das mulheres; com certeza não perdia nenhuma das rezas e não distraía o olhar leitor. Ande, prepare-se, minha menina, lave, depois da alma, também o corpo pronto para o sacrifício. Que a esponja, a água quente e o sabão trabalhem. E trance os cabelos numa coroa como os mártires ao se entregar à fogueira. Virá o tempo em que vai esconder esses dias com o coração silenciado. Não tenha motivo para se ruborizar por ter usado uma meia furada ou não ter trajado sua melhor blusa. Tudo é fácil para as mulheres são vestidas para o casamento por mães lacrimosas, os colchetes e botõezinhos bem presos e a castidade escarlate escondida entre os tecidos. As solteiroras que as palavras doces e as garras felinas das alcoviteiras vestem para esse dia não têm razão para se angustiar. Porém, o que faria uma menininha que se propôs a dar o passo decisivo solitária, em segredo, e que teria tempo de pensar em seu ato dias a fio? Com certeza Esztena ficava deitada durante a noite de olhos abertos, trêmula, pois sua mãe poderia descobrir sua insônia, as cartas poderiam revelar seu plano, o olho à espreita poderia acompanhar seus passos.''
(Fragmento de ''O Companheiro de Viagem'' de Gyula Krúdy)

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