Sol quente e paixões proibidas. Esses elementos ocupam lugar de destaque no cotidiano de Buraco Quente, cidade pantaneira imaginada pelo escritor e jornalista Luiz Taques em seu novo romance, "Pedro". Publicado pela editora Kan, o livro traz lembranças e reminiscências de um homem que abre as gavetas da memória para ler a família e suas tragédias ocultas.
Escrevendo para o irmão que saiu da cidade e nunca retornou, o narrador expõe o processo familiar de substituir uma coisa por outra ao longo da existência. Como a família optou pelo caminho da desintegração, tudo se resume em substituir as coisas por nada, pelo vazio. No caso, não se trata de substituir algo por alguma coisa, mas de tirar algo para colocar o nada em seu lugar. Criar o vazio onde antes havia gente, casa, quintal, rio e cidade. Enfim, colocar o vazio no lugar do humano.
O rio que corta a pequena cidade representa a alma do lugar. No passado suas águas colocavam no barco dos pescadores peixes com fartura. Dourados de um metro de comprimento, jaús de cem quilos e outros peixes graúdos. Com a pesca predatória, o paraíso deixa de existir e em seu lugar nasce um rio estéril, pobre de vida.
A imagem da estagnação do rio se prolonga para a decadência da cidade, para a desintegração da família. A ruína do homem e a ruína da natureza caminham juntas, de mãos dadas. Uma das características marcantes de "Pedro" encontra nessa abordagem um elemento revelador: o silogismo entre homem e natureza. O autor cria uma série de relações e comparações entre homem e natureza para mostrar algo mais abrangente: a desvinculação entre o homem e o ambiente instaura o fracasso.
Mas não só a natureza está gravada na pele da família e da cidade, as paixões proibidas também. A traição e o adultério atormentam a alma dos habitantes de Buraco Quente. Como um rio que corre sem parar, o desejo segue caminho semelhante. Não consegue ser represado ou assoreado pelo moralismo. E é justamente nesse processo que nascem os segredos dos riscos imponderáveis da libido. A traição recorrente é um prolongamento do quintal da família, onde todas as árvores foram decepadas para dar lugar ao mato e ao abandono. Igualmente a traição é um prolongamento da cidade e do rio devidamente traído pelos habitantes na extinção de seus peixes.
Os habitantes de Buraco Quente são assolados pelo impulso incontrolável em corromper a fidelidade. A traição conjugal parece ser um destino regido por forças naturais, não por princípios morais. O calor e o desejo são capazes de converter uma família em frangalhos, uma cidade em ruínas e um rio em esterilidade. Calor e infidelidade são os fantasmas da cidade. Uma traição que se prolonga até o rio carente de peixes.
O fluxo narrativo desenvolvido por Luiz Taques em "Pedro" se encaixa perfeitamente ao enredo, segue a correnteza de um rio, o ritmo contínuo que não para de correr dia e noite. Rio, família, desejos, quintal, ressentimentos e sol se embaralham num jogo de espelhos e segredos. As palavras caminham para o rebojo na espuma, para o vórtice das águas que ruminam tudo que cai em sua umidade.
Nascido em Corumbá e radicado em Londrina, Luiz Taques é autor de cinco livros. A linguagem parece ser o elemento que o autor vem perseguindo e aprimorando. É possível ver um salto significativo de seu livro anterior, "Madá" (Letradágua, 2011), e "Pedro", onde a linguagem ocupa lugar de destaque.
Se os rios são os caminhos dos peixes, as margens são os caminhos dos homens. E misturar e confundir os dois caminhos torna-se inevitável.

SERVIÇO
"Pedro"
Autor - Luiz Taques
Editora – Kan
Páginas – 80
Quanto - R$ 30

Fragmento(...) o nosso quintal – reminiscência da nossa meninice – está uma coisa medonha feito essa isolação, e isolação enfraquece, debilita nossas forças, e um quintal da maneira como o nosso se encontra atualmente é algo extenuante, desanimador, não nos proporciona mais tesão ir ao quintal, porque ir lá acho que é igual, pra mulher, ela dançar com cabo de vassoura, e, pra nós, homens, uma mulher que, não sabendo dançar, trança suas pernas nas nossas e nos derruba e passamos então, os dois, aquele vexame no salão, e eu acho que os nossos problemas, de uma maneira ou de outra, estão relacionados com o quintal da casa, pois o quintal, depois desse aguaceiro, virou um enorme matagal, e, nós, em ímã, em ímã que atraiu o aguaceiro e atraiu depois esse matagal, um matagal do qual ninguém quer se aproximar, e agora nós vivemos aqui, recolhidos nas nossas insignificâncias, num cotidiano sem graça, pois um quintal não é um quintal se não tiver ao menos um tanque pra criançada chapinhar suas águas e um montão de ondas enormes, do tamanho de suas inocências, se formar rapidamente e movimentar seus barquinhos de papel de lá pra cá, daqui pra lá, e, tampouco, um adulto não foi uma criança se, quando criança, não pegou bicho-do-pé, aquele inseto de galinheiro que penetra como mágoa na pele da gente, e o bichinho a gente logo cedo aprendeu a retirar, é com a ponta da agulha, lembra?, já a mágoa, sei lá, acho que ainda não aprendemos a lidar com ela, talvez, porque galinheiro também esteja em falta no quintal de casa, a verdade, se você quer mesmo saber a verdade, a verdade é que o quintal está sem nenhuma árvore frutífera, o quintal está pelado como nós estávamos pelados quando viemos a este mundo, porém com o diferencial que nele, o quintal, não há vida, e não há, assim, expectativa de que, do seu solo, alguma raiz volte a brotar (...) (Fragmento de "Pedro", de Luiz Taques)
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