O escritor mais arredio que a história da literatura conheceu faleceu na última quinta-feira, na pequena cidade norte-americana de Cornish, aos 91 anos de idade. J. D. Salinger passou os últimos 50 anos de sua vida trancafiado dentro de casa. Não frequentava nenhum tipo de lugar público, não concedia nenhum tipo de entrevista, não aceitava ser fotografado em hipótese alguma. E partia para a porrada se alguém violasse sua vontade. Fugia da mídia como o diabo da cruz.
Esse isolamento radical, muito mais do que trazer algum tipo de paz, transformou Salinger num mito. Contribuíram para isso não apenas sua postura arredia diante do convívio social e sua aversão à mídia, mas seu silêncio literário. Após publicar 4 livros, Salinger simplesmente abandonou a literatura. Nos últimos 40 anos não publicou nenhum livro, nenhum mísero texto, nenhum mero bilhete.
O isolamento e o silêncio literário de J. D. Salinger potencializaram o sentido de sua literatura. Formou-se uma legião de ''Caçadores de Salinger'', curiosos em elucidar o enigma de seu silêncio. Agora, fatalmente, será a vez da legião dos ''Caçadores do Túmulo de Salinger'', já que a família não divulgará o local onde seu corpo foi sepultado. Os ossos foram embora. O mito permanece.
''O Apanhador no Campo de Centeio'', sua obra mais conhecida, vendeu mais de 60 milhões de exemplares pelos quatro cantos do mundo. Tornou-se uma espécie de clássico da rebeldia juvenil. Publicado originalmente em 1951, o romance narra as injuriadas aventuras de Caulfield, um garoto de 16 anos que após levar bomba na escola perambula pelas ruas adiando a hora de chegar em casa e dar a notícia aos pais.
Através da voz de Caulfield, ''O Apanhador no Campo de Centeio'' está totalmente pautado por uma linguagem coloquial, oral e desencanada. Nos pensamentos do personagem, Salinger desenha o exato instante em que a juventude percebe que a idade adulta está batendo na porta. Ou aquele exato instante em que os valores dos pais não fazem mais sentido e novos valores começam a esmurrar a porta.
Apesar de ter sido escrito para o leitor adulto, foram os jovens que se tornaram fãs de Salinger. O romance virou objeto de culto nas mais variadas tribos, de várias gerações, abrindo espaços para um amplo leque de sentidos rebeldes. Para citar um fato curioso, quando um lunático fã dos Beatles chamado Mark David Chapman encheu de balas John Lennon em 1980, declarou à polícia que havia acabado de ler ''O Apanhador no Campo de Centeio''. Em sua ''viagem'', o livro tinha ''muitas respostas''.
As três outras obras de Jerome David Salinger giram em torno de um mesmo grupo de personagens. ''Nove Estórias'' reúne nove contos. ''Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira & Seymour: Uma Apresentação'', traz duas novelas. ''Franny e Zooey'', a narrativa mais complexa do autor, traz uma confluência de gêneros.
Cada uma das obras apresenta fragmentos da história da esquisita família norte-americana Glass. Filhos de um casal de atores, Seymour, Buddy, Fanny e Zooey, formam uma família pouco comum, cada qual detentor de um tipo de esquisitice peculiar. O caçula, Buddy, é a figura que procura entender como todos funcionam, principalmente Seymour, seu grande herói. Seymour é um gênio precoce que está sempre deixando as velhas coisas para trás para conquistar outras. Sempre abandonando despreocupadamente todas suas conquistas, certo dia chega ao beco sem saída e comete suicídio.
As quatro obras de J. D. Salinger podem ser encontradas nas livrarias brasileiras. ''O Apanhador no Campo de Centeio'', ''Nove Estórias'' e ''Franny e Zooey'' foram publicadas pela Editora do Autor. ''Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira & Seymour: Uma Apresentação'' foi publicado pela Companhia das Letras. Essa última também ganhou uma edição pela Editora Brasiliense na década de 80 com o título ''Pra Cima Com a Viga Moçada''.

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